São Paulo se afunda da imundície de seus cartolas

Durante décadas, o São Paulo vendeu ao futebol brasileiro a imagem de um clube moderno, organizado e administrado por uma elite intelectual supostamente diferenciada.
Há algum tempo, porém, essa fantasia vem desmoronando.
O noticiário policial passou a frequentar o Morumbi com a mesma naturalidade com que, nos últimos anos, se instalou, por exemplo, em Parque São Jorge.
Agora, a Polícia Civil indiciou o presidente do Conselho Deliberativo do clube, Olten Ayres, por falsidade ideológica.
A investigação concluiu que um parecer apresentado como manifestação oficial do Conselho Consultivo teria sido utilizado para respaldar uma reforma estatutária sem que o colegiado sequer tivesse se reunido para deliberar sobre o tema.
Caberá agora ao Ministério Público decidir se oferece denúncia.
O episódio está longe de ser isolado.
É consequência de um ambiente institucional que parece ter perdido completamente a capacidade de distinguir os interesses do clube dos interesses de seus dirigentes.
Julio Casares deixou a presidência após sofrer impeachment, renunciar ao cargo e tornar-se alvo de diversas investigações envolvendo suspeitas de lavagem de dinheiro, exploração clandestina de camarotes e corrupção no departamento social.
Como se isso já não bastasse, veio à tona que utilizou mais de R$ 1 milhão do cartão corporativo do São Paulo em despesas que incluíam restaurantes de luxo, charutarias, lojas de grife, salões de beleza, consultas médicas e viagens particulares.
Somente após a revelação do caso, Casares devolveu R$ 560.401,74 ao clube, que, pela primeira vez em sua história, precisou criar uma norma proibindo expressamente o uso do cartão corporativo para despesas pessoais.
A história remete, inevitavelmente, ao que ocorreu no Corinthians.
Andrés Sanchez tornou-se réu sob acusação de utilizar o cartão corporativo da agremiação para despesas particulares.
Posteriormente, seu sucessor, Duílio ‘do Bingo’ Monteiro Alves, também passou a responder a uma ação penal envolvendo gastos realizados com o mesmo instrumento de pagamento.
Os paralelos não param por aí.
Assim como ocorreu no Corinthians, onde sucessivas gestões mergulharam o clube em escândalos administrativos e policiais, o Tricolor se afunda na imundície de seus dirigentes.
O São Paulo está sendo corroído por dentro.
E pouco indica que, no ambiente atual, exista alguém verdadeiramente independente — não confundir com a facção criminosa que se apresenta como torcedora do clube — capaz de interromper esse processo de deterioração institucional.

