Enquanto acumula ‘transfer bans’, Corinthians surfa em Ubatuba

Enquanto convive com dívida bilionária, execuções judiciais, penhoras, quatro transfer bans e frequentes dificuldades para honrar compromissos financeiros, o Corinthians desembolsou R$ 43.134,00, entre janeiro e junho de 2026, para custear um projeto de surfe em Ubatuba, no litoral norte paulista.
A despesa desperta questionamentos.
O Corinthians é um clube sediado na cidade de São Paulo e nunca teve qualquer tradição no surfe.
Ainda assim, mantém uma escolinha permanente a cerca de 220 quilômetros do Parque São Jorge, voltada, predominantemente, à população local.
Inexiste prestação de contas conhecida sobre a arrecadação do empreendimento.
Na prática, a imensa maioria dos associados, concentrada na capital e na Região Metropolitana de São Paulo, dificilmente consegue usufruir da iniciativa.
Levantamento realizado pelo Blog do Paulinho identificou 17 notas fiscais, todas quitadas pelo clube no primeiro semestre de 2026, relativas a aulas de surfe, realização de eventos e locação de equipamentos.
Pelas aulas, o Corinthians pagou R$ 17.400,00.
As notas fiscais nº 1 e nº 2, emitidas em 7 de janeiro e 3 de fevereiro, ambas no valor de R$ 2.900,00, tiveram como emitente Maria Eduarda Moreira da Silva.
A partir de março, o mesmo serviço passou a ser faturado pela empresa SURF 25 LTDA, sucessora da anterior, que deixou de atuar como MEI e passou à condição de LTDA.
Essa nova pessoa jurídica emitiu as notas fiscais nº 3, 4, 5 e 6, nos dias 3 de março, 1º de abril, 4 de maio e 2 de junho, mantendo exatamente o mesmo valor mensal.
A mudança chama a atenção por um detalhe.
Na nota fiscal nº 4, emitida em 1º de abril de 2026, em vez de constar apenas a descrição do serviço, foi inserida a informação:
“Pagamento no PIX: benjamimsilvadantas@icloud.com.”
O Blog do Paulinho apurou que essa chave PIX está cadastrada na conta de Maria Eduarda Moreira da Silva, responsável pelas notas fiscais do projeto.
Outro contratado foi Wellington Carane Domingos de Almeida, responsável pelos serviços descritos como “Realização de Eventos”.
Entre janeiro e junho, ele emitiu as notas fiscais nº 30 a nº 37, recebendo R$ 24.000,00.
Os documentos revelam algumas peculiaridades.
Em 2 de abril, foram emitidas as notas fiscais nº 33 e nº 34, com pouco mais de uma hora de diferença.
Em 4 de maio, repetiu-se a situação com as notas nº 35 e nº 36, expedidas com intervalo de poucos minutos.
Nos dois meses, a despesa com eventos dobrou, passando de R$ 3 mil para R$ 6 mil, sem que a descrição constante das notas fiscais permita compreender, de imediato, a necessidade da emissão de dois documentos praticamente simultâneos.

Também foram localizados pagamentos destinados a Weslley Everton Domingos de Almeida, parente de Wellington, contratado para a locação de equipamentos.
As notas fiscais nº 4, nº 5 e nº 6, emitidas em junho, totalizam R$ 7.734,00.
Somadas, as despesas com aulas de surfe, realização de eventos e locação de equipamentos alcançaram R$ 43.134,00 em apenas seis meses.
Enquanto cobra compreensão de credores, fornecedores, funcionários, atletas e da própria torcida em razão da delicada situação financeira do clube, o Corinthians mantém um projeto permanente de uma modalidade sem qualquer tradição em sua história, instalado a centenas de quilômetros de sua sede social e acessível a uma parcela ínfima de seus associados.
A destinação desses recursos, bem como os critérios que justificam a manutenção da iniciativa, precisam ser esclarecidos.
Osmar Stabile, presidente do Corinthians, tem o dever de explicar.


