A verdade sobre a nebulosa operação de pagamento do Corinthians ao Talleres

O Corinthians divulgou à imprensa que quitou a dívida de US$ 7 milhões com o Talleres, referente à compra dos direitos econômicos de Rodrigo Garro, por meio de um empréstimo contratado junto à OutField.

Segundo a versão oficial, a obrigação financeira foi transformada em uma dívida de aproximadamente US$ 8,5 milhões, a ser paga em 26 parcelas mensais, ao custo de CDI mais 1% ao ano, tendo como garantias receitas futuras de direitos de televisão e contratos de placas de publicidade.

Não é verdade.

A ata da reunião do CORI, à qual o Blog do Paulinho teve acesso, revela que a operação financeira apresentada aos conselheiros era substancialmente diferente da que acabou sendo divulgada ao público.

Em nenhum momento o documento trata apenas de um simples empréstimo.

Ao contrário, descreve uma estrutura muito mais sofisticada, baseada na constituição de um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC), embora não tenha havido aprovação para a adoção desse modelo.

Originalmente, a operação seria um financiamento convencional: um investidor pagaria o Talleres, e o Corinthians devolveria o dinheiro em parcelas.

Durante a auditoria (due diligence), entretanto, o negócio foi alterado.

Além da exigência de uma garantia adicional envolvendo receitas da Federação Paulista de Futebol, optou-se pela criação do FIDC.

Na prática, em vez de dever diretamente ao investidor, o Corinthians passaria a dever ao fundo.

Segundo a apresentação feita ao CORI por André Lavieri, a pedido do diretor financeiro Emerson Piovezan — presente à reunião —, o próprio Corinthians passaria a ser um dos cotistas.

Ou seja, o clube seria, simultaneamente, devedor e participante do veículo criado para financiar sua própria dívida.

Lavieri justificou a mudança afirmando que ela decorria de um “benefício tributário” identificado durante a estruturação da operação.

A ata, porém, não esclarece qual seria essa vantagem, quem seria efetivamente beneficiado nem por que o Corinthians precisaria integrar o FIDC.

Também não há informações sobre quem administraria o fundo, quem seriam seus demais cotistas, qual seria a participação do Corinthians ou quais custos essa estrutura financeira acrescentaria à operação.

O clube tem trabalhado no mercado financeiro com empresas ligadas ao grupo REAG, todas investigadas por supostas ligações com o PCC.

É justamente a ausência dessas explicações — somada à diferença entre o que foi apresentado ao CORI e o que acabou sendo informado ao público — que torna o caso nebuloso.

A operação financeira deveria, obrigatoriamente, ter sido submetida à votação do Conselho Deliberativo.

Entretanto, o caso jamais foi encaminhado ao órgão, apesar do compromisso assumido pela diretoria, diante de todos os presentes, de que isso ocorreria.

O documento também registra que Leonardo Pantaleão seria “membro licenciado” do CORI, porém não houve qualquer pedido formal de licença.

Pantaleão teria sido simplesmente retirado do órgão sob a alegação de que havia assumido a presidência do Conselho Deliberativo.

Caso realmente estivesse licenciado, a conselheira Maria Ângela Ocampos — posteriormente expulsa do clube — deveria ter sido convocada como sua substituta no CORI e, consequentemente, para assumir a presidência da Comissão de Ética, o que jamais ocorreu.

Tinham conhecimento da estrutura financeira baseada no Fundo — jamais divulgada oficialmente e sem detalhes públicos — os seguintes conselheiros, dirigentes, associados e funcionários presentes à reunião:

    • Osmar Stabile (União dos Vitalícios);
    • Armando Mendonça (Centrão);
    • Miguel Marques e Silva (União dos Vitalícios);
    • Ademir Benedito (Renovação e Transparência);
    • Felipe Ezabella (Centrão);
    • Roberto Parisi;
    • Celso de Oliveira Sobrinho;
    • Paulo Pedro (Centrão);
    • Carlos Nujud;
    • Emerson Piovezan (União dos Vitalícios);
    • André Lavieri (assessor financeiro do Corinthians);
    • Joana Saragoça Oliveira (gerente financeira da Arena e filha de José Dirceu);
    • Ricardo Okabe (CEO informal);
    • Luís Felipe Santoro (Centrão e irmão de Rozallah Santoro).

O Corinthians tem a obrigação de esclarecer, ao menos a seus conselheiros, as dúvidas destacadas sobre a criação deste Fundo – principalmente os operadores envolvidos, além das razões de não tê-lo feito antes da assinatura.


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