A pátria apostadeira

Do ESTADÃO
Por EUGÊNIO BUCCI
Nosso problema de saúde pública é que a sociedade, hoje, remunera aqueles que levam os filhos dos outros a um vício que não deseja para os seus próprios filhos
A explosão das apostas online durante a Copa do Mundo gerou três efeitos visíveis. Em primeiro lugar, o impulsionamento dos lucros de um punhado de milionários sagazes, tão sagazes que sabem se manter invisíveis (a gente deduz que eles se locupletam, mas não consegue enxergar quem eles são). O segundo efeito visível é a ruína dos mais pobres, tão pobres que ficaram irremediavelmente invisíveis. Em terceiro lugar, surge um debate nas páginas dos jornais acerca da legalidade desse tipo de jogatina e de sua máquina de propaganda. O questionamento que se lê na imprensa é legítimo, mas não tem sido suficiente para mudar a situação. Seu resultado prático não está entre as coisas que são visíveis.
Mesmo assim, vale insistir. Sigamos com o debate. O assédio massivo que leva jovens a se deixarem moer por engrenagens viciantes deveria alarmar a consciência pública. Há três dias, nestas páginas, o jornalista e professor Carlos Alberto Di Franco avisou: “O vício em apostas já se consolidou como um grave problema de saúde pública”. Em seu artigo Roletas da morte (Estadão, 6/7, A5), ele disse mais: “A compulsão leva ao endividamento, destrói famílias, rompe vínculos afetivos, compromete carreiras profissionais e alimenta uma espiral de desespero que, não raramente, termina em suicídio”. A questão incômoda é que essas palavras, embora lúcidas, não alteraram a realidade. As bets continuam aí, faceiras.
Há quase dois anos, em 3 de outubro de 2024, eu mesmo escrevi aqui um artigo a respeito. O título já dava o recado: É hora de acabar com a publicidade das bets (3/10, A5). Eu argumentava que as mensagens publicitárias das casas de apostas, que causam dependência grave, deveriam sofrer restrições legais, em analogia com o que já acontece com os anúncios de cigarro e de bebidas alcoólicas. Em resumo, não deveriam assediar assim, tão à vontade, as crianças e os adolescentes. Agora pergunto: o que eu escrevi mudou alguma coisa? Nada.
De lá para cá, o cenário piorou. Em maio, há coisa de dois meses, um contingente de 11% da população do Brasil enviava alguma parcela de suas economias para as bets.
Na semana passada, no embalo dos jogos da Copa, o patamar triplicou. De acordo com o levantamento feito pela fintech Klavi, a partir dos números do Open Finance (sistema de integração de dados do Banco Central), já são 34,8% os brasileiros que viraram fregueses dos jogos de azar da era digital. Não, nós não somos mais um país-continente: somos um cassino-continente, isto sim.
A velha pátria de chuteiras tem hoje que empenhar as chancas para quitar as dívidas com o crupiê. Ficou descalça. Pense num garoto indefeso, que já não tem no que acreditar, quase sem – como dizem – “poder de compra”. Ele não escapa. Os seus ídolos nacionais, incluindo os mais famosos e mais bem pagos praticantes profissionais do ludopédio, vão às telas para intimá-lo a dar algum dinheiro aos donos das bets. Narradores supostamente esportivos vêm em reforço: “Jogue com responsabilidaaade”. Não há como fugir ao bombardeio.
Algo de muito sério se esfarelou nos fundamentos da nossa sociedade. A essa altura, além de procurar soluções legais, a cada dia mais insondáveis, a gente poderia tentar entender o que houve conosco em outro plano – não no plano das leis, mas no plano da ética. O que se passa com um país que autoriza a comercialização de uma mercadoria que vai desgraçar tantos destinos? Por que os endinheirados levam as famílias pobres a uma roleta que não oferecem às suas próprias? Todo mundo aqui sabe que os donos de bets não mandam seus filhos apostarem dinheiro no celular. Ao contrário, tomam providências para mantê-los longe do vício. Por que, então, recrutam os filhos dos outros para a jogatina?
Não falo de um caso isolado ou de mercados de pouco alcance. O que está aí não é uma exceção, é a regra, é um tsunami, um imperativo totalitário de proporções hiperbólicas. Pense na escala desse “problema de saúde pública”: um terço da pátria de chuteiras já é a pátria sem chuteiras, sem eira nem beira: a pátria apostadeira. Veja os comerciais na transmissão das partidas do campeonato mundial de soccer. Tente encontrar ali algum espaço que ainda não tenha sido contaminado pelas casas de apostas.
Quem tem costume de lidar com ideias relacionadas à ética há de conhecer um princípio que normalmente leva o nome de “regra de ouro”. O postulado é simples: você não deve dedicar às outras pessoas um tratamento que não gostaria de receber. A “regra de ouro” não vale para o gosto estético ou para preferências pessoais, mas para a convivência entre sujeitos que são titulares de direitos fundamentais. Alguém que não goste de couve e é dono de um restaurante pode muito bem servir couve para quem a aprecia. Mas, em matéria de direitos, não se deve fazer aos demais o que não se quer para si.
O nosso problema de saúde pública é que a sociedade, hoje, remunera – e muito bem – aqueles que levam os filhos dos outros a um vício que não deseja para os seus próprios filhos. E isso para falarmos apenas dos efeitos visíveis.

