Eduardo Bolsonaro vive em mundo paralelo e se consolida como ‘camisa 10’ da campanha de Lula

Do ESTADÃO

Por ROSEANN KENNEDY

Resultado do julgamento no STF tem potencial para prejudicar mais a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência

A história política do País registrou um capítulo irônico nesta terça-feira, 16. Ao ser condenado por unanimidade no Supremo Tribunal Federal (STF) por coação de ministros no curso do processo sobre a tentativa de golpe de Estado, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) consolidou seu papel de “camisa 10” no time do presidente Lula.

De forma involuntária, o filho “Zero Três” do ex-presidente Jair Bolsonaro transformou-se em um grande cabo eleitoral do petista. Além de presentear Lula com o discurso em defesa da soberania nacional, ele ainda corre o risco de tirar a próprio família de campo.

Curiosamente, enquanto Eduardo era sentenciado a 4 anos e 2 meses de prisão — acusado de articular, nos Estados Unidos, sanções contra o Brasil e ministros do STF —, o presidente Lula cumpria agenda no exterior justamente propagando a bandeira da soberania nacional.

O resultado do julgamento no STF tem potencial para prejudicar mais a pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República. Eduardo sempre foi o principal fiador do nome do irmão no grupo político, a despeito de todas as críticas e das sinalizações de que uma chapa de centro-direita teria mais força para enfrentar Lula.

Vivendo em uma espécie de mundo paralelo nos Estados Unidos, Eduardo acabou colando a imagem do irmão às ameaças de um novo “tarifaço” americano contra produtos brasileiros, sobretudo após articular o recente encontro de Flávio com Donald Trump. Essa associação afasta o eleitor independente — que deve decidir o pleito deste ano —, uma vez que o teto dos votos radicais já está estabelecido.

Aliados que circulam no núcleo duro do bolsonarismo e da pré-campanha já identificam um movimento de sabotagem interna para que Flávio desista da disputa eleitoral de 2026.

É claro que a pressão está muito mais associada ao seu derretimento nas pesquisas após as revelações de conversas em que pedia dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro, além do temor de novos escândalos. Contudo, a condenação de Eduardo joga combustível na crise. Os primeiros passos, segundo apurou a Coluna, sinalizam uma tentativa de viabilizar o nome do senador Rogério Marinho (PL-RN) para substituí-lo.

Ou seja, embora a bolha bolsonarista aposte em uma espécie de “VAR” jurídico para virar o jogo — forçando um paralelo do caso de Eduardo com o desfecho do julgamento de Carla Zambelli na Corte italiana, que apontou a parcialidade do ministro Alexandre de Moraes —, o risco real é de o grupo imitar a seleção da Itália: ver os Bolsonaros fora desta “Copa” eleitoral.

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