‘Roubo descarado’

Do ESTADÃO

EDITORIAL

Duro discurso do publisher do ‘NYT’ chama a atenção para a captura ilegal de conteúdo jornalístico por empresas de IA e serve como reflexão sobre o futuro da imprensa e da democracia

Há poucos dias, o publisher do The New York Times, A. G. Sulzberger, fez um discurso na abertura do congresso anual da Associação Mundial dos Editores de Notícias (WAN-IFRA, na sigla em inglês) que entrará para a história como um dos mais contundentes manifestos em defesa do jornalismo profissional. As empresas de inteligência artificial (IA), disse Sulzberger, “são parasitas, e não parceiras”, dos jornais. O modelo de negócios dessas empresas baseia-se no que ele chamou de “roubo descarado” de conteúdos jornalísticos para treinar chatbots e, assim, auferir bilhões de dólares sem que os produtores desse riquíssimo material sejam devidamente remunerados. De fato, não há outro nome para isso senão roubo.

A questão é muito simples: levar informação de qualidade aos cidadãos, húmus das sociedades livres, custa muito caro. Uma enorme quantidade de dinheiro é investida pelas empresas de comunicação na formação de equipes, no investimento nas redações e na manutenção de uma estrutura de governança que sustente a independência editorial. Ciente disso, Sulzberger não vituperou contra o progresso tecnológico – o que seria uma tolice –, mas sim lançou luz sobre um problema muito específico: a “apropriação sistemática” de conteúdos de terceiros sem a devida autorização, sem remuneração justa e sem respeito às mais elementares regras de proteção da propriedade intelectual.

Há anos, a relação entre as chamadas big techs e as empresas de comunicação tem sido marcada por um desequilíbrio gritante. Contudo, antes do advento da IA generativa, ao menos havia algum grau de reciprocidade. Ferramentas de busca e mídias sociais, por exemplo, apropriam-se de parcela crescente das verbas publicitárias que outrora eram destinadas aos jornais, mas ainda direcionam parte de seu público para os portais jornalísticos. Já o modelo das empresas de IA é escandalosamente predatório. Usuários de chatbots já recebem conteúdos na íntegra, sem precisar consultar a fonte da informação.

Se as empresas de IA não apenas se apropriam do jornalismo profissional, como também sequestram sua audiência, reduzindo page views, assinaturas, publicidade e relacionamento direto entre jornais e seus leitores, uma pergunta se impõe: se as empresas de IA matarem de vez o jornalismo profissional, quem haverá de alimentar suas ferramentas? Os produtores de desinformação que infestam as redes sociais? O risco apontado por Sulzberger não é trivial. Se a produção de informação original deixar de ser economicamente viável, a única matéria-prima confiável que ainda alimenta os sistemas de IA começará a escassear e a desordem informacional será a nova ordem.

As empresas de IA dependem totalmente do jornalismo profissional para oferecer respostas confiáveis e contextualizadas a seus usuários. Ao mesmo tempo, seu modelo de negócios destrói os meios que tornam possível a existência desse mesmo jornalismo. Essa dinâmica perversa não ameaça apenas a sustentabilidade das empresas de comunicação – inclusive as gigantes do setor, como o The New York Times. Ao fim e ao cabo, o que está sob ataque é a qualidade do ecossistema informacional como um todo, e, consequentemente, a força da democracia.

A solução, obviamente, não é rejeitar a inovação, o que Sulzberger nem sequer sugeriu. A IA deve ser incorporada ao jornalismo profissional de maneira transparente e responsável – e limitada a atividades muitíssimo específicas –, além de ser sustentada por relações comerciais honestas. Se empresas de IA utilizam conteúdos produzidos pelas empresas de comunicação para desenvolver e aprimorar seus produtos, nada mais justo do que repassar uma parte de suas receitas a quem realizou o trabalho original. Isso é o mínimo que se pode pedir, comercial, jurídica e moralmente.

Desenvolvimento da IA e fortalecimento do jornalismo profissional não são ideias antitéticas. Muito ao contrário. Quanto mais sustentáveis forem as empresas de comunicação, melhores serão as bases sobre as quais as ferramentas de IA poderão operar. Essa relação não só pode, como deve ser de cooperação. E cooperação implica respeito aos direitos de quem produz conteúdo e valorização dos altos custos envolvidos nessa produção.

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