Virginia Fonseca é um sintoma da sociedade

Da FOLHA
Por ROSANA HERMANN
- Interesse por influenciadora em ferramentas de busca supera até Ancelotti; esse sucesso fala mais sobre nós do que sobre ela
- Apesar de ter anunciado jogos que induzem à adicção, na CPI tirou selfies com autoridades que são seus fãs
Nas últimas 24 horas, o nome Virginia foi quase quatro vezes mais pesquisado do que Carlo Ancelotti, segundo o Google Trends. E isso na semana em que o treinador anunciou os jogadores convocados para a seleção, a três semanas do início da Copa do Mundo.
Eu não sei se o personagem de Shakespeare estava certo quando disse que “há algo de podre no reino da Dinamarca”, mas quando uma influenciadora ganha de quatro a um do técnico da seleção brasileira às vésperas do Mundial, certamente há algo de estranho no país do futebol.
O interesse imenso e contínuo da mídia e do público em Virginia Fonseca é algo a ser estudado. A influenciadora parece ser mais um exemplo de celebridade alçada à condição de “mito” que adquire imunidade social, que poderia cometer malfeitos e sair sempre ilesa. Tudo o que ela toca vira assunto.
No caso mais recente, não foi nem um toque, mas um selinho que Virginia deu em um macaco, gesto que gerou uma extensa gama de interpretações, comentários e explicações que vão de crime de racismo a reportagem médica sobre os riscos à saúde humana envolvendo beijos em animais silvestres.
Para quem não leu nada sobre o tema, adianto que saliva e outros fluidos de animais silvestres podem transmitir vírus e parasitas. Virginia pauta a mídia o tempo todo, e as notícias sobre ela invadem nossos feeds.
Mesmo que você não procure, vai ficar sabendo que ela está em Dubai, que usa um celular de titânio e safira que vale mais do que um carro de luxo, que comprou um relógio de R$ 2 milhões. E, caso você pesquise, vai acabar vendo até a mãe dela de biquíni.
Virginia é parte do que hoje é tratado como “conteúdo”, ou seja, qualquer coisa. Mas qual o poder da influenciadora hoje? O que faz com que essa coluna se dedique a fazer essa exata pergunta? A resposta mais provável é: os sonhos de seus seguidores.
O poder de Virginia está nos desejos dos 56 milhões de perfis que a seguem no Instagram. Talvez alguns sejam fantasmas ou tenham sido comprados. Muitos podem segui-la por curiosidade, por efeito manada, por questões profissionais. Mas uma forte base de seguidores (entendedores entenderão) é de fãs que veem nela um modelo de vida a ser alcançado. Ou, como define o termo adotado em nosso país, seu “lifestyle”.
Milhões querem ter milhões. É o sonho de ter mansões, aviões, closets gigantes. A fama é desejo secreto de legiões. Um corpo considerado padrão é objetivo de quase todo mundo. Virginia tem tudo isso e ainda conta com privilégios: babás, motoristas, pilotos, segurança, agentes, maquiadores, assessores, marqueteiros e todos os colaboradores de que precisar. A forma como chegou a tudo isso passa a ser menos relevante. O que importa não é o caminho, nem se é totalmente lícito e ético. Importa a chegada.
Virginia é fruto da economia da atenção, da revolução digital. A prova de que há novos caminhos para o sucesso, de que uma pessoa pode chegar ao topo da pirâmide social fazendo dancinhas, jogando videogame, aceitando desafios, chamando atenção, ganhando seguidores, fazendo publis. E até vendendo jogos viciantes que enganam e levam cidadãos à ruína.
Ela já foi à CPI das Bets, teve produtos de sua linha de maquiagem expostos pela baixa qualidade. Um depósito de sua empresa, a WePink, foi interditado esse ano pela Vigilância Sanitária por falta de alvará e pela presença de mofo.
A influenciadora não inventou a ostentação, não inaugurou a vida performática das redes. Ela faz tudo isso, sim, e atende a um mercado gigante que quer ver como é a vida de rico em tempo real. E, justamente por triunfar na internet sem apresentar nenhuma vocação em específico, ela é a esperança de sucesso para todos. A encarnação do “se ela conseguiu, talvez eu também consiga”.
O algoritmo não criou Virginia, mas amplificou o que já estava latente em nós: o desejo de escapar da própria vida entrando na vida alheia. Ela é parte do problema e é também sintoma. É o espelho que a sociedade escolheu para se olhar, e o que incomoda não é o reflexo dela. É o nosso.
