Marcão, o racismo e o Fluminense

Marcão assumiu novamente o comando técnico do Fluminense e, como de hábito, a equipe melhorou.

É a 11ª vez.

No total, são 74 partidas como treinador do Fluminense, número superior, por exemplo, às 61 do antecessor, Zubeldía.

Não se trata, portanto, de um despreparado.

Em 2019, depois da saída de Oswaldo de Oliveira, pegou um Fluminense ameaçado pelo rebaixamento, afastou o perigo e ainda classificou a equipe para a Copa Sul-Americana.

No fim de 2020, o roteiro se repetiu.

Odair Hellmann deixou o clube e Marcão recebeu novamente a missão de conduzir o time até o término da temporada.

Foram 14 partidas, com sete vitórias, quatro empates e apenas três derrotas — aproveitamento de 59,5%.

O Fluminense terminou em quinto lugar no Brasileiro e conquistou vaga direta na fase de grupos da Libertadores.

Em 2021, depois da saída de Roger Machado, lá estava Marcão novamente.

Permaneceu até o fim da temporada.

Considerando apenas suas três sequências como treinador efetivado entre 2019 e 2021, foram 56 jogos, 25 vitórias, 14 empates e 17 derrotas, com aproveitamento de 52,9%.

Não são números — levando-se em consideração que sempre assumiu o time em má fase — de alguém que deva ser tratado eternamente como funcionário destinado apenas a segurar a porta enquanto a diretoria procura um suposto treinador de verdade.

Agora, em 2026, após a queda de Zubeldía, Marcão herdou uma equipe que acumulava oito partidas sem vitória.

Assumiu, derrotou o Palmeiras de virada e, poucos dias depois, conduziu o Fluminense às quartas de final da Libertadores numa partida dramática contra o Independiente Rivadavia, na Argentina.

O time atuou boa parte do segundo tempo com um jogador a menos, conseguiu sair na frente, sofreu o empate nos acréscimos e sobreviveu nos pênaltis graças, principalmente, às duas defesas de Fábio.

De repente, um Fluminense que parecia em processo de desmanche voltou a acreditar até no bicampeonato da Libertadores.

Outra vez com Marcão.

Pesquisa publicada em 2026 na Revista Brasileira de Ciências do Esporte analisou as oportunidades concedidas a treinadores negros na Série A entre 2008 e 2024.

O resultado é constrangedor.

Das 749 oportunidades identificadas, apenas 29 foram destinadas a treinadores negros: 3,87%.

Outra pesquisa acadêmica, uma tese de doutorado defendida na Escola de Educação Física e Esporte da USP, constatou também a enorme sub-representação: negros representavam apenas 12,5% dos treinadores principais e 19,3% dos auxiliares analisados nas Séries A e B.

O trabalho identificou, entre os obstáculos, racismo estrutural, estereótipos raciais, discriminação, branquitude, ausência de políticas de diversidade e vieses associados à percepção de quem possui perfil para exercer posições de liderança.

É justamente nesse ponto que o caso de Marcão merece reflexão.

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