Cristiano Ronaldo, Lionel Messi e duas formas contrastantes de sair do cenário internacional

Do THE ATHLETIC
Por NICK MILLER
Era quase inevitável que, depois de uma geração tão profundamente marcada pela rivalidade entre ambos, as carreiras internacionais de Lionel Messi e Cristiano Ronaldo também se aproximassem do fim praticamente ao mesmo tempo.
Na terça-feira, Messi disputará sua última partida pela Argentina, em amistoso contra o Benin, em Buenos Aires. O adversário está longe de ser dos mais prestigiosos, mas isso pouco importa numa ocasião como essa.
Será menos um jogo de futebol e mais uma grande celebração em homenagem a um jogador que muitos consideram o melhor de todos os tempos.
Na Europa, o desfecho parece bem menos elegante.
Cristiano Ronaldo deixou a concentração da seleção portuguesa depois de se incomodar com duas situações: ter ficado no banco na partida da UEFA Nations League contra a Noruega e, principalmente, com a explicação dada pelo técnico Jorge Jesus para a decisão.
Ronaldo ainda não anunciou sua aposentadoria da seleção, mas tudo indica que o fim está próximo.
“Após a coletiva de imprensa da seleção nacional e depois de uma conversa com o presidente da Federação Portuguesa de Futebol, decidi deixar a concentração”, escreveu Ronaldo no Instagram.
“Com o tempo, contarei a todo o povo português a verdade sobre os motivos que me levaram a deixar a seleção nacional, à qual sempre me dediquei.”
A publicação tinha ares daqueles status enigmáticos do Facebook de 2011: passivo-agressiva, carregada de indiretas e concebida para chamar atenção sem dizer exatamente a quem se dirigia.
Algo na linha de: “Cristiano Ronaldo está… percebendo que ALGUMAS PESSOAS não são tão leais quanto eu imaginava”.
Ronaldo é um jogador acostumado a tratamento especial.
Aos 41 anos, já distante do auge, sua presença na seleção portuguesa tornou-se, nos últimos anos, um fator de desequilíbrio e também de distração. Ainda assim, sob o comando do técnico anterior, Roberto Martínez, era titular em praticamente todas as partidas em que estava disponível.
Por isso, a chegada de Jorge Jesus provocou reações distintas em relação ao futuro do atacante.
Por um lado, tratava-se do treinador que já havia trabalhado com Ronaldo no Al Nassr, na Arábia Saudita, o que poderia indicar ainda maior tolerância com seu status.
Por outro, Jesus tem fama de treinador duro, menos preocupado em agradar estrelas e aparentemente menos impressionado com hierarquias do que Martínez. Talvez, portanto, fosse justamente o homem disposto a tocar no ombro de Ronaldo e dizer que seu tempo havia passado.
Ao que tudo indica, prevaleceu a segunda hipótese.
“Quando tivemos a primeira coletiva de imprensa em Portugal, ele disse: ‘Se eu for titular ou ficar no banco, a decisão é do treinador’”, afirmou Jorge Jesus depois da partida contra a Noruega.
“O jogo me diz o que tenho de fazer. Havíamos combinado que talvez eu precisasse dele no fim, mas a partida me contou outra história e acabei não o colocando.”
É difícil não comparar essa postura — absolutamente normal na gestão de uma equipe de futebol — com os períodos anteriores, nos quais Ronaldo começava jogando e frequentemente permanecia em campo mesmo quando a lógica esportiva recomendava o contrário.
Talvez ainda haja uma reaproximação.
As partes poderão dizer que tudo não passou de uma falha de comunicação, e Ronaldo poderá retornar para disputar uma partida de despedida.
Mesmo que isso aconteça, porém, está evidente que o fim se aproxima.
Ronaldo e Messi provavelmente não gostariam de ser comparados mais uma vez, depois de quase duas décadas convivendo com esse debate.
Ainda assim, é impressionante como suas carreiras internacionais chegam ao final praticamente ao mesmo tempo e, curiosamente, com as atenções completamente voltadas para eles, e não para suas seleções.
A diferença é significativa.
A reação de Ronaldo fez com que tudo passasse a girar em torno dele.
Com Messi, por outro lado, tudo naturalmente já gira em torno dele.
São dois jogadores nos últimos anos de suas carreiras — Messi tem 39 anos — atuando atualmente em ligas distantes do centro do futebol mundial, mas que continuam jogando porque, em graus diferentes, ainda conseguem competir.
Ambos conquistaram títulos em seus campeonatos e seguem marcando gols.
Se suas trajetórias recentes nos clubes apresentam algumas semelhanças, pelas seleções nacionais o caminho foi bastante diferente, especialmente nos últimos anos.
Basta observar as duas últimas Copas do Mundo.
Messi chegou às duas finais e conquistou uma delas.
Ronaldo foi eliminado antes e terminou os torneios cercado por discussões sobre se ainda deveria permanecer entre os titulares de Portugal.
Ambos receberam tratamento especial em suas seleções.
A diferença é que, no caso de Messi, funcionou.
Depois que Lionel Scaloni encontrou uma maneira de montar a Argentina em torno daquilo que o antigo astro do Barcelona ainda conseguia fazer — em vez de exigir dele o que já não conseguia —, vieram duas Copas América e uma Copa do Mundo.
Roberto Martínez e, até certo ponto, Fernando Santos antes dele, não conseguiram fazer o mesmo com Ronaldo.
Jorge Jesus, aparentemente, decidiu que nem vale mais a pena tentar.
Pela lógica esportiva, Ronaldo provavelmente deveria ter encerrado sua trajetória internacional alguns anos atrás.
Em determinado sentido, é difícil culpá-lo por continuar se havia treinadores dispostos a mantê-lo.
O problema é que isso acabou proporcionando uma imagem melancólica de um jogador que foi extraordinário — o maior da história de Portugal e provavelmente um dos mais incansáveis artilheiros que o futebol já produziu — vagando pelo campo sem conseguir repetir aquilo que fazia no passado.
Também seria injusto responsabilizar Ronaldo por todos os aspectos deste final de carreira, especialmente quando comparado a Messi.
O sucesso tardio do argentino teve também sua dose de acaso.
Scaloni assumiu a seleção basicamente porque a federação argentina atravessava dificuldades financeiras e não conseguia contratar um treinador mais renomado.
Se algo semelhante tivesse acontecido em Portugal e um jogador de currículo discreto dos anos 2000 — Nuno Valente, por exemplo — tivesse surgido como treinador capaz de reorganizar a seleção em torno de Ronaldo, talvez hoje os papéis estivessem invertidos.
Talvez todas as atenções estivessem voltadas para sua despedida, com dignidade, reconhecimento e sem ressentimentos.
Mas então vemos um jogador abandonar a concentração de sua seleção irritado porque ficou no banco em uma única partida, e a simpatia diminui rapidamente.
Ainda parece difícil imaginar que este tenha sido realmente o último capítulo de Cristiano Ronaldo pela seleção portuguesa.
Ele certamente desejará — e, pelo que produziu em campo ao longo da carreira, merece — uma partida de despedida, algo semelhante ao que Messi terá na próxima semana.
Se tivesse reagido de outra maneira, talvez pudesse chegar a esse momento sem a sensação de petulância e incerteza que agora acompanha seus últimos passos por Portugal.

