Flávio Bolsonaro tem uma ficção de programa para elite fingir que é liberal

Da FOLHA

Por VINICIUS TORRES FREIRE

  • Candidato não tem ideias, história, conexões sociais ou políticas para sustentar planos
  • Filho de Jair diz que é inspirado pelo governo do pai e não se compromete com reformas

Cinismo é a primeira reação ao se ouvir que Bolsonaros tenham programa de governo. Eles têm planos, decerto, além daquela atração pelo dinheiro vivo e pela mumunha. No mais, querem o fim da esquerda, um ataque reacionário ao que se chama de “costumes” e reviver a ditadura. O sentido do bolsonarismo, a política e a sociedade que o levam adiante, é assunto mais complexo. Trata-se aqui de ações de governo ou no governo.

Naquele vídeo escabroso da reunião ministerial de abril de 2020, Jair Bolsonaro explicitou suas preocupações: livrar sua família da polícia, espionar, melar eleições ou impedi-las. Pouco depois, entregou a maior parte do comando do seu governo de trevas ao centrão direitão, o semipresidencialismo de avacalhação, de resto incentivando a degradação terminal das emendas.

Quanto a “reformas liberais” ou plano conservador de contas públicas, recorde-se que atrapalhou a reforma da Previdência. A única privatização de nota, a da Eletrobras, foi porca e passou no Congresso em troca de favores empresariais repulsivos e ineficiências econômicas. Com aquela sua expressão típica de burrice sinistra e sorriso lunático, Jair dizia vez e outra que “em breve” apareceria um trilhão de reais para resolver o aperto do governo. Sua equipe era composta em boa parte de gente mentalmente perturbada de modo perverso, incapaz ou golpista. Flávio diz que seu governo seria inspirado pelo de Jair.

Um programa também se manifesta na história da personagem ou de seu grupo político, em ações e promessas. No caso dos Bolsonaro, no que diz respeito a assuntos de interesse público, a carreira mistura vazio de pensamento com sordidez de comportamento.

Esta Folha tem relatado planos estudados pela assessoria de Flávio Bolsonaro. São em linhas gerais ideias liberais vagas e estereotipadas, com algumas soluções genericamente óbvias para a contenção da dívida pública, com as quais Flávio Bolsonaro não quis se comprometer, de resto. Que condições sociais e políticas existem para que tal plano vá adiante?

A elite econômica que apoia Bolsonaro (ou o fim do lulismo-petismo) quer apenas se ver livre de impostos e que a conta do ajuste fiscal fique com outrem, o povaréu. Não querem o fim de gasto tributário (redução de impostos que favorecem empresas, setores etc.), querem que títulos de investimento (agro, imóveis) e juros em geral sejam subsidiados; querem proteção comercial, reservas de mercado etc. O Congresso não quer lidar com o engessamento de despesas, vinculações e, acima de tudo, bulir com emendas. É receita de imobilidade. Como haver programa liberal?

Um plano para a administração pública exige ideias elaboradas por gente de capacidade técnica. Não basta: deve ser gente capaz também de articulação institucional (Congresso, agências etc.) ou de trabalhar de modo coordenado com lideranças políticas capazes de entender o que está em jogo em relação ao conteúdo das providências e os interessados em aprová-las ou não, no Congresso ou em outras instâncias estatais de decisão.

Além disso, um programa depende de articulação social: apoios relevantes e organizados na sociedade, compreensão de interesses e necessidades, reunião de forças que possam fazer pressão. Enfim, é improvável que a coisa vá adiante se a máquina institucional (regras formais ou informais) não funciona.

É possível associar tais condições a Flávio Bolsonaro?

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