A arte de enganar humanos

Da FOLHA
Por HÉLIO SCHWARTSMAN
- Um bom teste para determinar se IAs atingiram capacidade humana é ensinar segundo idioma a crianças
- Se computadores conseguirem simular o contexto social necessário ao aprendizado, terão obtido êxito
Alan Turing propôs o teste que leva seu nome em 1950. Para saber se uma máquina atingiu nível de inteligência similar ao de humanos, tudo o que temos de fazer é interagir com ela um punhado de vezes. Se ela conseguir nos ludibriar a ponto de não conseguirmos determinar se dialogamos com uma pessoa ou com um computador, a geringonça passou no teste.
Nunca achei o critério particularmente genial, mas durante muitas décadas ele funcionou, porque as máquinas eram péssimas e não enganavam (quase) ninguém. Até que passaram a enganar. O caso mais célebre talvez seja o do engenheiro da Google que foi afastado da empresa em 2022, depois de apregoar aos quatro ventos que o chatbot LaMDA havia se tornado senciente.
Versões modificadas do teste de Turing abundam na internet, com destaque para o ubíquo captcha, pelo qual, antes de entrar numa página da web, temos de identificar semáforos ou motocicletas em fotos recortadas.
Minha ideia hoje é propor um teste para as LLMs (Grandes Modelos de Linguagem), a versão mais popular das IAs. Acho que podemos dizer que eles atingiram padrão humano se conseguirem ensinar, a partir de sessões interativas, uma criança a falar um segundo idioma.
Segundo Chomsky, humanos nascem com uma capacidade inata para aprender línguas. É só lançar uma criança numa comunidade linguística para que ela o absorva o idioma. Sabemos que não é a mera exposição a frases. Não basta deixar seu filho assistindo à Cartoon Network em inglês para que ele adquira o idioma de Homer Simpson. O aprendizado só se materializa se se der num contexto social, no qual a criança alterna papeis passivos e ativos e explora pistas paralinguísticas.
Se os LLMs conseguirem estabelecer uma relação dialógica que faça com que uma criança pequena adquira um segundo idioma, aí eu tiro meu chapéu para as IAs. Meu palpite, porém, é que, sem um corpo para tornar as interações sociais mais realistas, não será tão fácil passar no teste.
A inteligência humana é mais visceral do que gostamos de admitir.
