Mais infiltrações do crime organizado na política

Da FOLHA

EDITORIAL

  • Operação em São Paulo apura elos alarmantes de facções como o PCC com agentes que atuam no setor público
  • Contratos com prefeituras seriam usados em lavagem de dinheiro; é preciso inteligência na investigação das redes de financiamento ilícitas

Na última segunda (27), uma operação da Polícia Civil de São Paulo prendeu quatro pessoas que atuam no setor público por suspeita de lavagem de dinheiro para a facção Primeiro Comando da Capital (PCC) por meio de contratos entre prefeituras e uma fintech.

Mais de R$ 513 milhões em bens foram bloqueados e 22 mandados de busca e apreensão foram executados em 7 cidades do estado.

Um dos líderes do esquema seria o empresário João Gabriel de Mello Yamawaki, que, em 2022, durante a gestão de João Doria, obteve aval para pousar um helicóptero no Palácio dos Bandeirantes. Yamawaki fundou uma fintech que, de acordo com as investigações, era usada para movimentar recursos do crime.

Por meio de contratos públicos, firmados com a articulação de assessores de prefeituras, o dinheiro do crime era “legalizado”.

Também na segunda (27), foi preso Thiago Rocha de Paula, ex-vereador de Santo André suspeito de ligação com lideranças do PCC na região do ABC. Outros agentes políticos —como Matheus Tognella, presidente do PSB de Nova Odessa que já ocupou cargo na Prefeitura de Campinas— também são alvo de investigações da Polícia Civil.

Trata-se de mais um caso que indica conexões alarmantes do crime organizado com o setor público, o que não é exclusividade paulista. No final de 2025, operações da Polícia Federal no Rio prenderam um deputado estadual, o presidente da Assembleia Legislativa do estado e um desembargador, além de policiais.

A imbricação do crime com políticos e agentes da Justiça ou das forças de segurança pode tanto dificultar investigações de membros das facções como dar aparência de legalidade à rede de financiamento desses grupos.

Por isso operações como essa mais recente em São Paulo e a Carbono Oculto, que em 2025 revelou a infiltração do PCC no setor de combustíveis e no mercado financeiro em dez estados, precisam ser priorizadas.

Afinal, seguir o rastro do dinheiro das facções passa por desvendar as relações políticas e empresariais nas quais atividades lícitas e ilícitas se misturam.

Só o policiamento inteligente, com cruzamento de dados e recursos tecnológicos, é capaz de desmantelar as redes de sustentação do crime organizado, que se espalham por setores tão diversos como combustíveis, contrabando de bebidas e garimpo.

Também é imprescindível que o poder público crie mecanismos de monitoramento interno para, de modo preventivo, cortar os laços de seus agentes com o crime.

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