A sinceridade de Lula na Espanha

Do ESTADÃO
Por FERNANDO GABEIRA
Pena deixar reflexões tão importantes para o exterior: o discurso foi recebido aqui, no Brasil, como mais um discurso. Mas tem contornos históricos
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um discurso histórico em Barcelona. Ele descreveu a essência do momento político mundial, caracterizado pelo declínio da social-democracia e a ascensão do populismo de direita. Muitos pesquisadores e estudiosos já o fizeram. Mas a fala de Lula, com palavras simples, tem o valor existencial de alguém que detém o poder por muitos anos.
“O progressismo não conseguiu superar o pensamento econômico dominante. O projeto neoliberal prometeu prosperidade e entregou fome, desigualdade e insegurança. Provocou crise atrás de crise. Ainda assim, sucumbimos à ortodoxia. Temos sido os gerentes das mazelas do neoliberalismo. Governos de esquerda ganham as eleições com discurso de esquerda e praticam austeridade. Abrem mão de políticas públicas em nome da governabilidade. Nós nos tornamos o sistema. Por isso, não surpreende agora que o outro lado se apresente como antissistema.”
Casualmente, eu estava na Inglaterra durante a eleição de Tony Blair, e o Partido Trabalhista estava fora do poder há 15 anos. Havia muita expectativa. Mas seus movimentos foram de absorção do que se considerava o sucesso de Margaret Thatcher.
Conforme descreve John Gray: Blair engoliu a fé thatcherista no mercado como um elixir capaz de revivificar o partido e levá-lo de volta ao poder. Blair aceitou a política econômica neoliberal.
Embora exista em várias escolas de pensamento, o neoliberalismo tem em comum algumas convicções fundamentais. Considera que a principal condição da liberdade individual é o mercado. O alcance da ação governamental tem de ser estritamente limitado. O livre mercado, pensam os neoliberais, é o sistema econômico mais produtivo, portanto, deve ser estendido a todos os países do mundo.
Em outros países da Europa, essa influência também se propagou, como descrevem as pesquisadoras Sheri Berman e Maria Snegovaya, no Journal of Democracy, os social democratas deixaram de se ver como defensores da sociedade diante dos aspectos negativos do capitalismo e passaram a apresentar sua missão cada vez em termos tecnocráticos de eficiência.
Essa política da esquerda fez sentido no curto prazo no fim dos anos 70 e início dos anos 80, mas sua repercussão seria profunda: “E representou uma transformação do perfil histórico da esquerda e até mesmo de sua identidade que se baseava na luta contra o capitalismo. O sucesso da esquerda, na verdade, o sucesso da Europa ocidental após 1945, baseava-se na ideia de que o Estado Democrático era capaz de domar, ou mesmo eliminar, as consequências perigosas do capitalismo”.
Concluem as autoras: “Ao abandonar essa visão, a esquerda tradicional estava mal posicionada para capturar o ressentimento e a raiva que haviam se materializado quando o enfraquecimento da ordem social-democrata do pós-guerra produziu sua consequência: desigualdade e insegurança econômica dramáticas. A crise financeira de 2008 agravou essas tendências intensificando a frustração popular com o neoliberalismo e os partidos e elites que o abraçaram. Com a esquerda incapaz de capturar esse descontentamento, surge uma outra força empreendedora: o populismo.”
Os que viveram o século 20, observam agora que a condição de vanguarda antissistema migrou da esquerda para a direita. O interessante é que a história já avançou.
A experiência populista de Jair Bolsonaro no Brasil foi efêmera. Mais madura do que ela, a de Viktor Orbán, na Hungria, também terminou, apesar de ter se preparado para a eternidade no poder, dominando Congresso, Judiciário e imprensa.
Tanto a esquerda quanto a direita populista se encontram diante de uma tarefa difícil num capitalismo em movimento: como realizar seus projetos com recursos menores do que a expectativa e as necessidades? Ninguém monta por muito tempo esse cavalo bravio.
Lula parece ter feito um compromisso entre os gastos e a austeridade. Ele acha que o governo gastou pouco. Mas a pressão por um equilíbrio fiscal vem não só do mercado, mas de toda a imprensa. Ele resistiu às privatizações, caras ao projeto neoliberal. Mas tem dificuldade em manter instituições deficitárias como os Correios. O enunciado de seu discurso em Barcelona – o programa de campanha precisa ser cumprido – não explicita uma tarefa fácil. Sua sinceridade funciona um pouco como autocrítica, palavra comum no século passado, hoje estigmatizada pela esquerda no poder.
Pena deixar reflexões tão importantes para o exterior: o discurso foi recebido aqui, no Brasil, como mais um discurso. Mas tem contornos históricos.
A dinâmica do capitalismo impulsiona a tendência a se endividar tanto no plano pessoal quanto no de governos. A permanente frustração com os dirigentes políticos acaba produzindo também uma irresistível rotatividade. Se não me engano, ao observar essa tendência, a conclusão deveria ser um antídoto para o hubris dos políticos que chegam ao poder aspirando se manter nele para sempre.
Às vezes, isso se manifesta no desejo de nunca mais deixar que o adversário vença. Margaret Thatcher tinha como objetivo varrer o trabalhismo do mapa político da Inglaterra. E não é que ele voltou e sobrevive até hoje?
