Bem-vindos à terceira era nuclear

Do ESTADÃO

EDITORIAL

Arsenais se modernizam, tratados se desfazem, alianças se desgastam – e tabu nuclear desmorona. 80 anos após Hiroshima e Nagasaki, pesadelo de Oppenheimer parece mais real do que nunca

O aniversário de 80 anos do bombardeio de Hiroshima e Nagasaki coincidiu com um gesto característico da nova era nuclear: o presidente dos EUA, Donald Trump, ordenou o deslocamento de submarinos atômicos para intimidar Moscou após uma provocação pelas redes sociais do conselheiro de Segurança russo Dmitri Medvedev. O episódio, grotesco na forma e sinistro no conteúdo, é mais do que uma anedota – é um sintoma. A sombra do cogumelo atômico voltou a pairar sobre a política global.

A terceira era nuclear não se assemelha nem à rigidez bipolar da guerra fria nem ao otimismo controlado do pós-guerra fria. É uma era de multipolaridade instável, de arsenais em expansão, de alianças voláteis e de líderes dispostos a trivializar a ameaça de destruição mútua. Desde Nagasaki, há oito décadas, jamais uma bomba nuclear foi usada em conflito. Mas a sustentação dessa marca histórica parece depender cada vez menos da razão e cada vez mais da sorte.

O regime de não proliferação, alicerçado no tratado de 1968 (TNP), vive sua crise mais profunda. O exemplo da Ucrânia é desolador: após o fim da URSS, o país assinou o Memorando de Budapeste, pelo qual renunciava ao terceiro maior arsenal do planeta em troca de garantias de segurança, mas acabou invadido pela Rússia – signatária do memorando –, ameaçada com armas atômicas e abandonada pelos demais parceiros do acordo, EUA e Reino Unido. A mensagem parece incontornável: quem entrega sua bomba perde sua proteção.

Enquanto isso, os mecanismos formais de controle – como o tratado New Start entre Rússia e EUA – estão moribundos. A Rússia suspendeu unilateralmente suas obrigações. A China, antes defensora da “dissuasão mínima”, agora projeta um arsenal de até 1,5 mil ogivas. Os EUA, por sua vez, modernizam sua tríade nuclear com bombardeiros B-21, submarinos Columbia e mísseis ICBMs Sentinel, ao custo de centenas de bilhões de dólares. Trump cogita o rearmamento com ogivas atômicas armazenadas e a retomada de testes nucleares. É a lógica da dissuasão convertida em exibicionismo bélico.

O resultado é uma corrida armamentista simultânea e assimétrica. A Coreia do Norte intensifica seus testes, o Irã ultrapassou o limiar técnico, e potências regionais como a Arábia Saudita e a Coreia do Sul flertam com a ideia de desenvolver seus arsenais. Enquanto crescem os atritos entre Índia e Paquistão, até a Alemanha e a Polônia, sob o impacto da guerra na Ucrânia, voltaram a debater a “soberania nuclear” – expressão há pouco impensável na política europeia.

O colapso da confiança na dissuasão estendida dos EUA alimenta esse impulso. A instabilidade institucional americana – agora agravada por um presidente que flerta com o expansionismo e intervenções autoritárias – mina o principal pilar do regime de contenção nuclear: a garantia de segurança coletiva.

Os riscos não são apenas estratégicos. São existenciais. Modelos científicos apontam que uma guerra nuclear entre grandes potências geraria um “inverno nuclear”, com colapso climático e fome global. Simulações como a Nuclear Football mostram que a decisão de usar uma arma atômica pode depender de poucos minutos – e de impulsos irracionais. A lógica da dissuasão, se sempre foi frágil, hoje parece uma loteria intercontinental.

Há propostas concretas: a retomada de canais de comunicação entre potências, o fortalecimento da Agência Internacional de Energia Atômica, o veto explícito ao enriquecimento e reprocessamento em zonas de risco e a imposição de sanções automáticas a Estados que saem do TNP após violá-lo. Mas falta o essencial: vontade política.

Os ponteiros do Relógio do Juízo Final avançam – e a meia-noite não costuma esperar. O mundo já não pode contar com o peso moral da memória. Os hibakusha – os sobreviventes de Hiroshima e Nagasaki – estão morrendo, e sua voz – que por décadas ajudou a afastar o horror atômico – se apaga. Resta o imperativo ético e pragmático: impedir que a “profecia de Oppenheimer” – o pressentimento de que a humanidade criara seu próprio aniquilador – se cumpra. Pois, se a comunidade das nações falhar em conter a si mesma, a próxima Hiroshima não será mais um alerta. Será o início do fim.

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1 Comentário

  1. “Donald Trump, ordenou o deslocamento de submarinos atômicos para intimidar Moscou”. “signatária do memorando –, ameaçada com armas atômicas e abandonada pelos demais parceiros do acordo, EUA e Reino Unido”. “A instabilidade institucional americana – agora agravada por um presidente que flerta com o expansionismo e intervenções autoritárias”. O cidadao consegue contradizer ele mesmo no mesmo texto kkkk. O filho, decida, vc quer proteção americana ou nao. Esse é o problema desse povo que acha ruim homens que tomam decisoes igual o trump. Vc quer achar q é td culpa dele, q ele ta sempre errado, mas cobra q ele cumpra o acordo e meta bala na russia? mas se ele ameaça a russia, ta errado tb? isso se chama esquizofrenia

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