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O mínimo de decência se tornou uma utopia

Da FOLHA

Por JOEL PINHEIRO DA FONSECA

Imagine não ser governado por um psicopata ignorante cercado de puxa-sacos que estimulam o medo

Toda semana, um novo “absurdo” do presidente monopoliza as discussões. Já passou da hora de as instituições agirem. Enquanto isso não acontece, em vez do desgosto de contemplar a realidade, vou fazer o que nos resta neste isolamento: sonhar com o Brasil que poderia ser. Encarnando o John Lennon de “Imagine”, convido o leitor a imaginar um mundo ideal.

Imagine se o presidente, em vez de fazer um discurso —entrecortado por estranhas tosses secas— para inflamar centenas de manifestantes que pediam um novo AI-5, fosse às TVs e às redes sociais para acalmar a população. Mostraria que todos estamos juntos no combate ao vírus, que a quarentena traz sim custos enormes, mas que o governo está preparado para ajudar financeiramente os mais vulneráveis e impedir o desemprego em massa e a quebradeira generalizada de empresas.

Assolados pela pior ameaça de saúde pública dos últimos cem anos, nem passaria pela cabeça da Presidência trocar o ministro da Saúde no momento crítico da epidemia pelo simples motivo dele seguir as orientações de epidemiologistas. Tampouco nós teríamos motivo para temer que seu substituto fosse um pau mandado seguidor das ideias de Olavo de Carvalho, figura que aliás nada teria a ver com a condução de nenhuma parte do governo.

Imagine se a discussão científica acerca dos diferentes tratamentos —plasma do sangue, hidroxicloroquina— se desse sem a politização de remédios e a promessa de curas milagrosas antes de qualquer evidência concreta? Um presidente que não vendesse caixinha de remédio na live do Facebook, dificultando inclusive o teste do remédio com um mínimo de controle por parte das equipes médicas.

Imagine se o debate público se baseasse em evidências e na ciência. Qualquer proposta de alternativa ao isolamento viria embasada em argumentos e dados, e não no berreiro de empresários raivosos e nos tuítes de charlatães. A briga política não falaria mais alto do que o imperativo de salvar vidas.

No momento de pandemia, em que o foco do país está na saúde pública e nos centros urbanos, é natural que os interesses predatórios mais escusos colocassem as manguinhas de fora para destruir a Amazônia. Confrontado com essa realidade, o presidente apoiaria os órgãos de proteção da floresta. Jamais, de maneira alguma, colocar-se-ia do lado de desmatadores e garimpeiros ilegais.

Ligamos a TV. Uma figura pública está falando. Pode ser um médico, um ministro, um deputado, um governador, um ator. Suas frases são gramaticalmente corretas, as ideias têm um mínimo de complexidade e se articulam umas com as outras, os argumentos esboçados são plausíveis, e ela demonstra ter algum valor humano, alguma mostra —tênue que seja— de empatia. Nem por isso passaríamos a sonhar com essa figura na Presidência do país.

Imagine a delícia de não passar os dias lendo e tentando adivinhar qual será a opinião dos militares. Será que apoiam os desejos golpistas do presidente? Ou será que estão mais propensos a derrubá-lo se ele ferir a institucionalidade? Será que as polícias e caminhoneiros partirão para a revolta armada? Esse tipo de questionamento nem passaria por nossas cabeças, porque irrelevante.

Imagine não ser governado por um psicopata ignorante cercado de puxa-sacos que estimulam o medo, o ódio e o egoísmo na população? Imagine se tivéssemos um patamar mínimo de decência no governo brasileiro. Sim, estou sendo utópico. You may say I’m a dreamer / but I’m not the only one…​

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1 comentário em “O mínimo de decência se tornou uma utopia”

  1. Bolsonaro é maluco. A maioria dos militares são malucos. Tira uma meia dúzia que são moderados. O pais corre sério perigo com os militares aliados aos evangélicos. Eles não respeitam a vida.

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