O show precisa continuar, mostra a reta final do Big Brother Brasil 26 na Globo

Da FOLHA

Por MAURICIO STYCER

  • Luto de Ana Paula e Tadeu Schmidt foi privado e público
  • Reality teria fim previsível, até que a realidade alterou tudo

Por 30 anos, Truman Burbank, o personagem de Jim Carrey em “O Show de Truman“, viveu dentro de um estúdio de gravação gigantesco, sem saber que toda a sua realidade era roteirizada. Todos os seus amigos, parentes e moradores da pequena cidade onde vivia eram atores contratados. O programa que exibia a sua vida se tornou uma atração internacional com grande audiência.

Ao longo dos anos, Truman recebeu inúmeras pistas de que havia algo estranho no seu dia a dia. A maior dica talvez tenha sido a luz de palco que despencou do céu e caiu ao seu lado, numa certa manhã.

Na cena final do filme de Peter Weir, após finalmente se dar conta de que é o protagonista de um grande espetáculo, Truman se vira para a câmera e, reproduzindo um gesto que atores usualmente fazem ao final de uma peça, dobra o corpo em sinal de agradecimento ao público.

Aquele momento comovente, brilhantemente interpretado por Carrey, pode significar que o personagem sempre soube que a sua vida servira como a matéria-prima de um programa de televisão.

Em 1999, um ano depois de “O Show de Truman”, John de Mol apresentou na Holanda a primeira versão do Big Brother. Ainda que possa ter sido inspirada pelo filme, a premissa é radicalmente diferente, porque não há roteiro no programa. Voluntariamente, dez ou mais pessoas concordam em ser confinadas numa casa para expor ao público a dinâmica do relacionamento que nasce e se desenvolve entre elas.

Os participantes não são enganados, como Truman, mas são obrigados a se submeter a situações artificiais criadas pela direção do programa para manipulá-los, provocar conflitos e, objetivo maior, divertir os espectadores.

Numa mensagem que ficou famosa, certa vez, o então diretor Boninho escreveu no Twitter: “Botamos no BBB os piores, cabe a vocês decidir o menos ruim para ganhar o jogo. Não é um voto para vencer. É um reality para eliminar”.

Uma situação que sempre gera conteúdo para o público são as festas movidas a bebida alcoólica. Foi numa dessas que Ana Paula Renault acabou expulsa do BBB 16. Depois de beber demais, ela deu um tapa no rosto de um participante e, em consequência, foi excluída do programa.

Dez anos depois, Ana Paula voltou ao BBB. Além dela, havia outros veteranos no reality, misturados com novatos, uma outra estratégia eficaz para provocar conflitos e despertar a curiosidade dos espectadores.

Favorita a vencer o BBB 16, se não fosse o escorregão naquele ano, Ana Paula nadou de braçada na atual edição. Inteligente, soube antagonizar com quem era malvisto pelo público, expôs visões progressistas sobre temas polêmicos e aliou-se a participantes que a admiravam. Foi uma das candidatas que mais se destacaram nas enquetes de popularidade e a menos ameaçada nas eliminações.

Sucesso de faturamento comercial, como tem ocorrido há anos, e com resultados razoáveis de audiência, o BBB 26 caminhava para um final previsível, com a vitória de Ana Paula. Até que a realidade introduziu um elemento novo na dinâmica do programa. Num intervalo de dois dias, morreram Oscar Schmidt, irmão de Tadeu, apresentador do programa, e Gerardo Renault, o pai da candidata favorita.

Para surpresa de alguns, que esperavam que eles se retirassem para cerimônias fúnebres entre os familiares, Ana Paula e Tadeu continuaram em cena, protagonizando o reality show da Globo. Expuseram suas dores ao vivo, transformando o público e o privado numa coisa só. Como Truman, entenderam que deviam isso ao espectador. O show tem que continuar.

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