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Supremo, chefe supremo

Da FOLHA

Por FERNANDO COIMBRA

Jair finalmente tem tudo o que sempre sonhou; só lhe falta o sono

Ele tinha acabado de acordar de uma noite mal dormida. Mais uma, entre muitas. Os buracos negros, crescendo e engolindo seus olhos, estavam inevitavelmente mais profundos. Sua pele, reptiliana, mais espessa e mórbida. Mas nada disso importava. Essa é mais uma manhã que Jair acorda e, ao olhar no espelho, pensa orgulhoso de si: “Eu sou o chefe supremo das Forças Armadas”.

Chefe é o cargo que sempre sonhara para si e que levara toda uma vida de cambalhotas e micagens no Congresso para alcançar. Supremo é um título que deve pertencer somente a ele: supremacista maior da nação. E, por isso, o tal tribunal federal dever ser fechado, enquanto o outro, o superior eleitoral, incendiado. Supremo só pode haver um.

Já as Forças Armadas, bem, a história dele com as tais Forças é um tanto singular. Expulso das mesmas quando ainda era um insubordinado tenente, Jair passou a vida sonhando ser o seu chefe supremo, só para poder implodi-las de dentro. Seria sua maior vingança, colocar cada um daqueles generais repletos de medalhas penduradas no peito para desempenhar o papel que Jair conhece melhor do que ninguém: bobo da corte. E, enquanto esses velhos senhores atiram sua reputação do alto de suas janelas, as Forças Armadas seriam tomadas pelas armadas forças das milícias que Jair sempre fez parte e admirou, mesmo que nunca como chefe.

“Hoje, seriam todos vingados”, pensou Jair, enquanto sua Coca-Cola matinal descia borbulhando pela garganta, para logo depois soltar um orgulhoso arroto: “Eu sou o chefe supremo das Forças Armadas!”.

Quem diria que aquela maratona de sonecas no Congresso Nacional, interrompidas uma vez aqui e outra ali para dar declarações estapafúrdias que provocavam o delírio de meia dúzia de neonazistas pardos e terceiro-mundistas, o levaria a tal cargo? Quem imaginaria que aquele gabinete mal-assombrado por funcionários fantasmas, que escapavam pelas inúmeras rachadinhas” de suas paredes, se tornaria o lugar sagrado e idolatrado onde um dia trabalhou o então deputado, futuro ditador da República dos Estados Unidos do Brasil?

Naquele mesmo gabinete, Jair sonhara durante suas intermináveis sonecas com o dia em que transformaria o país em um novo Porto Rico, uma espécie de estado bastardo do Tio Sam. E, num futuro não tão distante, algum dos seus filhos “zeroalgumacoisa” seria responsável pela definitiva incorporação do país ao Gigante Supremo da América (“ah, supremo!”), tornando-se, enfim, uma espécie de Havaí. Caetano Veloso já cantara: o Havaí seja aqui. Mas Jair não sabe disso porque acha que o cantor é viado e comunista, e acredita que, se ouvir sua música, pode ser tornar uma dessas coisas —se é que há diferença entre elas.

Música para Jair, aliás, é o rufar dos tambores militares. Que nostalgia ele sente ao ouvi-lo. Suas memórias de criança, assistindo aos desfiles de 7 de Setembro, sonhando um dia vestir aquela farda. Queria poder marchar diante da multidão e ser aplaudido, ovacionado, amado e idolatrado como o chefe supremo das Forças Armadas que hoje ele é.

Enquanto olha pela janela do seu palácio, imagina os tanques que logo desfilarão para ele. Só para e por ele. “Vou ter meu desfile de 7 de Setembro particular!”, pensa, enquanto esboça um tímido sorriso. Será a intimidação final contra o Congresso e o Judiciário. As trombetas do agronegócio serão tocadas pelos anjos da bancada da Bíblia, com uma salva de tiros do pessoal da bala. Tradição, família e propriedade. E Deus acima de tudo —menos do chefe supremo das Forças Armadas.

O desfile em frente ao palácio, não fosse o sangue ralo nas veias, teria provocado uma ereção. Os demais chefes não supremos das forças posam ao seu lado, obedientes e resignados. À sua frente, seus brinquedos barulhentos soltam uma fumaça preta que lhe recorda de tantas outras igualmente agradáveis: a da Amazônia dos ambientalistas irritantes, a da Cinemateca Comunista Brasileira, a dos pneus queimados pelos caminhoneiros que o apoiam contra o governador paulista.

Em meio aos seus delírios, Jair sente uma pontada no estômago. Talvez seja o excesso de Coca-Cola com leite condensado e as noites mal dormidas. Mas essa pontada o obriga a levar a mão à boca do estômago, num gesto napoleônico que lhe causa uma outra pontada ainda mais aguda. Uma pontada de satisfação.

Mais um dia chega ao fim, e Jair nada fez além de exaltar sua própria força, pois é isso que um chefe supremo da nação deve fazer. Foi assim que ele aprendeu com o pessoal do Vivendas da Barra e com a multidão que o exalta nos grupos de WhatsApp.

Antes de dormir, ele toma mais uma Coca-Cola e assiste aos vídeos de sua parada particular. Ri dos chefes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica ali ao seu lado: oficiais subordinados ao insubordinado capitão do mato. Ri da destruição triunfal dos seus algozes.

“A Constituição sou eu, o Exército sou eu”, pensa ao finalmente se deitar na cama, os olhos abertos contemplando o firmamento para além do teto do palácio. Lá as estrelas parecem brilhar exclusivamente para ele, o chefe supremo das Forças Armadas. Jair finalmente tem tudo que sempre sonhara. Só lhe falta o sono.

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