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Denúncia de funcionária da CBF contra Caboclo não pode ser em vão

Da FOLHA

Por RENATA MENDONÇA

A mudança é mais lenta do que gostaríamos, mas ela vai vir

Há algum tempo, venho digerindo as palavras que escorrem por este texto junto com as lágrimas no meu rosto. O choro dos últimos dias é de impotência, de desespero, de raiva, de uma dor que não é diretamente minha, mas também me pertence.

Para quem não acompanhou —e infelizmente o assunto repercutiu menos do que deveria—, três membros da Comissão de Ética da CBF (todos homens, curiosamente) descartaram a acusação de assédio sexual e consideraram apenas que o presidente Rogério Caboclo teve uma “conduta inapropriada”. Com isso, a punição para ele ficou estabelecida numa suspensão de 15 meses, o que permitiria que ele voltasse ao cargo em setembro de 2022.

A decisão revoltou os presidentes das federações, mas pelo motivo errado. A indignação deles não é com o fato de o presidente da CBF sair ileso após a grave acusação de assédio, que inclui um áudio dele perguntando à funcionária se ela se masturbava. Mas sim com a possibilidade de a entidade seguir sendo presidida por Coronel Nunes, um desafeto deles.

Inconformados, eles estavam (estão, aliás) dispostos a, inclusive, absolver Caboclo para que ele retornasse ao cargo, segundo a apuração da reportagem de Gabriela Moreira, Martín Fernandez e Sérgio Rangel (site GE). O sofrimento da vítima virou instrumento para uma articulação de troca de poder na entidade.

Então eu dirijo estas palavras à mulher que ousou denunciar o homem mais poderoso do futebol brasileiro. Eu não a conheço, não sei seu nome, mas imagino que já tenhamos nos cruzado pela CBF. Como na oportunidade em que estive lá para uma entrevista exclusiva com Caboclo para falar da mudança de postura da CBF com relação ao futebol das mulheres. Ele se dizia um apreciador das minhas colunas e espero que esteja lendo esta também. Não há bem que Caboclo tenha feito ao futebol feminino que apague as graves acusações que o envolvem agora.

Eu imagino que você esteja frustrada. E que talvez até tenha se arrependido de ter feito essa denúncia. Daquele 4 de junho para cá, só consigo pensar no inferno que sua vida se tornou. Mas você não titubeou. Até mesmo a tentativa desesperada de Caboclo de oferecer R$ 12 milhões para você se calar não funcionou.

A sua denúncia, aliás, estimulou duas outras vítimas a também revelarem comportamentos abusivos do presidente da CBF.

Eu queria lhe dizer que você não está sozinha. Porque quando uma mulher tem coragem de gritar sobre uma situação de violência, ela acorda uma multidão.

Esse grito morreu entalado na garganta de muitas de nós no passado. Porque o silêncio também mata. E cada um que assiste a uma situação de assédio ou abuso e se cala passa a ser conivente. Você deve ter encontrado muitos na CBF que não ecoaram o seu grito. Que, na oportunidade de fazer algo, escolheram a omissão.

Mas a sua coragem não vai ser em vão. Não deixaremos que seja. Você deve ter acompanhado que a seleção feminina de futebol ficou do seu lado. A faixa histórica exibida em rede nacional no dia 11 de junho com os dizeres “Assédio Não” é a mensagem que a gente precisa repetir agora.

Não é mais tempo de se conformar. Você mostrou para as mulheres que nenhuma de nós precisa aceitar violências por um emprego, por um casamento ou por um status social. Você se levantou contra uma das entidades mais poderosas e machistas do país e, claro, não seria fácil lidar com as consequências disso.

Eu espero que você esteja bem. Que esteja forte. Que não tenha arrependimento, só orgulho. A mudança é mais lenta do que gostaríamos, mas ela vai vir —e vai vir por causa de mulheres com a sua coragem. Obrigada por não ter se calado.

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