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Há jogadores e técnicos que deixaram ideias que vão muito além das quatro linhas

Da FOLHA

Por JUCA KFOURI

Guardiola, Shankly, Falcão, Sócrates, Tostão, Telê e Klopp nunca abriram mão de seus princípios

“É claro que o futebol não é uma questão de vida ou de morte; é muito mais do que isso”, filosofou o escocês Bill Shankly (1913-1981), que treinou o Liverpool durante 15 anos, como a rara leitora e o raro leitor já leram dezenas de vezes.

“O jogador de futebol morre duas vezes; a primeira quando para de jogar e a outra como todos os mortais”, ensinou Paulo Roberto Falcão, o Rei de Roma, gênio do meio de campo.

“Nenhum jogador abandona o futebol; é o futebol que abandona o jogador”; cravou o Doutor Sócrates (1954-2011) que, com nome de filósofo, jogava como pensava, com a cabeça.

“Com as ideologias mortas, o mundo foi deixado nas mãos de pessoas práticas que aniquilam cérebros sob montanhas de nada”, critica o argentino Jorge Valdano, que brilhou no Real Madrid como jogador, treinador, dirigente e escreve para o jornal espanhol El País.

“Existe um saber que antecede ao pensamento lógico; o craque sabe, sem saber que sabe”, explica Tostão, um dos melhores de todos os tempos, colunista desta Folha, genial a tal ponto que não quis ser treinador nem dirigente, apenas viver intensamente ao seu modo, discretamente.

“Atingir a perfeição é impossível; aproximar-se cada vez mais dela, não”, acreditava Telê Santana (1931-2006).

“Se você se sentar no estádio de olhos fechados, você deve sentir que existe um time apaixonado dentro de campo”, pontifica o alemão Jürgen Klopp, que trava, no Liverpool, a boa luta com o catalão Pep Guardiola, do Manchester City, dentro e fora das quatro linhas, nas entrevistas e na luta por troféus.

Pois é por causa da última entrevista de Guardiola, e das quatro linhas, que tantas frases são lembradas agora.

Ao participar de evento da XP ele respondeu ao executivo da corretora que quis saber de seus investimentos: “Só me interesso pelo dinheiro que ganho trabalhando, não dormindo” —tão surpreendente e, parece, tão chocante para os promotores do evento, que não registraram a resposta em seu boletim, assim como deixaram passar em branco a crítica sobre as desigualdades sociais que infelicitam o mundo.

Há bancos e bancos e os nos quais Guardiola dirige ganhar é importante, embora não seja tudo: “A ferramenta mais eficaz que eu tive foi através do esporte. Lá eu aprendi a aceitar a derrota, o outro é melhor, levantar-se depois de não ter as coisas direito, me esforçar para fazer o melhor”.

Porque autenticidade talvez seja a melhor das marcas registradas de Don Pep: “Aprendi que quando você está certo deve lutar contra o mundo todo”, também já disse.

Sempre haverá quem argumente que alguém como ele está em tal ponto na carreira que pode dizer qualquer coisa, diferentemente dos iniciantes ou ainda sem a chancela das grandes conquistas. Bobagem.

Esquecem do básico: Guardiola, Shankly, Falcão, Sócrates, Tostão, Telê, Klopp só chegaram onde chegaram, só disseram o que disseram ou dizem porque nunca abriram mão de seus princípios, porque, errando e acertando, construíram trajetórias retas, sem concessões ao mais fácil.

Nelson Rodrigues tinha dó de quem limitasse o futebol às quatro linhas do campo.

Hoje, no Brasil, é preciso estar atento e forte para impedir que o ensandecido presidente da República jogue, como ameaça, fora das quatro linhas de Constituição. Na verdade, passou da hora de lhe mostrar o cartão vermelho.

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