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Bolsonaro, o colecionador de derrotas

Da FOLHA

Por MARIA HERMÍNIA TAVARES

No mesmo dia, o patético desfile de dez minutos e o voto impresso rejeitado

Como um rojão molhado que dá chabu, o patético desfile de fumarentos blindados por Brasília, com o qual o presidente imaginava intimidar o Congresso, durou dez minutos, não assustou ninguém e exumou no exterior a imagem do Brasil como república bananeira.

Horas depois, por insuficiente apoio, o projeto do voto impresso foi parar na proverbial lata de lixo da história. Mais uma vez, as instituições políticas prevaleceram sobre as pulsões autoritárias de Bolsonaro. Agora, coube à Câmara —fragmentada em 24 partidos, majoritariamente de direita e liderada por um político governista— rechaçar as suas investidas contra o seguro sistema de votação eletrônica.

É notório que o ex-capitão abomina as regras e valores da democracia representativa. Também se sabe que ele gostaria de reduzi-la a um ritual plebiscitário de consagração de um governo sem limites e sem oposição: uma autocracia eleitoral, como dizem os analistas. Nesse caminho —e apesar de seus arreganhos—, ele só tem colecionado derrotas.

O STF lhe impôs várias e importantes: manteve a autonomia dos estados e municípios para determinar medidas de isolamento social e limites à circulação durante a pandemia; suspendeu a nomeação de delegado-chefe da Polícia Federal; derrubou a decisão que liberava a celebração de missas e cultos proibidos por governos locais; anulou atos administrativos hostis ao ambiente; determinou que o Senado instalasse a CPI da Covid-19 —e que o presidente seja investigado no inquérito das fake news. Já o Congresso, ao arrepio do Executivo, aprovou no ano passado um generoso programa de auxílio emergencial para fazer face à pandemia. E agora conduz uma CPI que mantém o governo na defensiva.

Bolsonaro teve que se desfazer de colaboradores que encarnavam de forma extravagante a sua agenda obscurantista —Ernesto Araújo, Ricardo Velez-Rodrigues, Abraham Weintraub, Roberto Alvim, Ricardo Salles—, sem falar no ministro de estimação Eduardo Pazuello. Sintomaticamente, a grande imprensa escrita e a maior rede de TV do país são hoje de oposição. Nesse rumo tem se movido também uma parte do empresariado que apoiou Bolsonaro.

Impossível subestimar os estragos que ele já perpetrou ou duvidar de suas intenções. Tampouco esquecer que a direita extrema tem uma rede de organizações e apoiadores engajados, enraizamento social e eleitorado expressivo. Ainda assim, quem vê no impeachment a única alternativa para o desastre em curso talvez não perceba que a sociedade organizada e as instituições democráticas estão impondo limites ao candidato a tirano.

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