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Crivella embaixador é mais uma encenação

Da FOLHA

Por MATHIAS ALENCASTRO

Tudo leva a crer que Bolsonaro persuadiu a Universal de que ele seria um enviado para assuntos religiosos na África austral

Para resgatar seu prestígio junto à Igreja Universal, o presidente Jair Bolsonaro decidiu emplacar o bispo e ex-ministro Marcelo Crivella na embaixada da África do Sul. A atribuição de embaixadas a civis é uma prerrogativa tradicional do presidente. Muitos notáveis da República já passaram pelos palácios diplomáticos de Paris, Lisboa e alhures. Mas a ideia de atribuir a um civil um mandato que extrapola as funções de embaixador torna a nomeação de Marcelo Crivella única, e provavelmente irrealizável.

Tudo leva a crer que Bolsonaro persuadiu a Universal de que Crivella seria um enviado especial para assuntos religiosos na África austral, que teria como principal missão conter a revolta dos bispos da Universal em Angola e impedir que ela se alastre a Moçambique. Ponto de passagem obrigatório para dirigentes africanos, Pretória seria a base ideal para as articulações políticas do bispo-embaixador.

Faltou combinar com a realidade. Sob o comando do estadista Cyril Ramaphosa, a África do Sul luta para resgatar seu estatuto de referência geopolítica da África, ameaçada pela Nigéria e por estrelas ascendentes como a Etiópia.

Poucas capitais sentem tanta falta do Brasil como Pretória. A resposta conjunta do sul global à pandemia defendida por Ramaphosa ganharia outra dimensão com o apoio do Brasil. Não é por acaso que Lula, na sua recente passagem por Brasília, reuniu-se por uma hora e meia com o embaixador sul-africano.

Se a chegada a Pretória em setembro do ano passado de Sérgio Danese, um dos mais conceituados embaixadores do Itamaraty, foi vista como um sinal de prestígio pelos sul-africanos, sua substituição prematura por Crivella é mais que uma desilusão. É uma afronta à relação estratégica dos dois países. O bispo tem chances reais de terminar como Eduardo Bolsonaro, o embaixador que perdeu o caminho da embaixada.

A incompreensão da África do Sul deixa claro que a tentativa de nomear Crivella é uma manobra amadora e impensada. O governo precisava de um fato novo para dissimular sua incapacidade de ajudar a Universal em Angola e mostrar quem manda no Itamaraty, que andava exagerando no profissionalismo e na moralidade. Sob o comando do chanceler Carlos França, os diplomatas estavam voltando a fazer coisas inadmissíveis como escrever frases coerentes e trabalhar pela paz no Oriente Médio.

O alento é que a novela em torno da indicação de Crivella, que se anuncia longa e constrangedora, vai reforçar a impressão de que o governo Bolsonaro não tem a menor ideia de como relançar a política externa. Depois do colapso do arco etnonacionalista com a derrota de Donald Trump, o Brasil simplesmente decidiu se retirar do jogo internacional.

As potências vão aguardar a próxima eleição para decidir o que fazer desse estranho caso de capitulação diplomática. Até lá, o Itamaraty seguirá na sua deriva melancólica, pontuada por algumas ideias fracas como a da semana passada.

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