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A casta das cobaias presas

Da FOLHA

Por THIAGO AMPARO

O OK supremacistaetestes em presos nos desumanizam

Quero começar este texto com um quê de felicidade. O sol das 17h bate bem na minha janela e sento atrasado para escrever este texto. Ao meu lado tenho aberto o jornal de domingo, que agora ocupa um limbo entre o hoje, onde estou, e o futuro onde você está, leitora. Será que em algum lugar deste limbo, a felicidade e não a morte vai desabar sobre nós?

Na mesma página em que ocupo com tergiversações, está o grande Antonio Prata vendendo um barquinho, numa crônica deliciosa. Não queria sucedê-lo neste espaço com um texto que começasse com dor.

A coisa está tão branca que cansa, eu sei. No museu de grandes novidades, como cantou Cazuza, temos o futuro repetindo o passado. Temos, de um lado, Filipe Martins gesticulando um “OK” no Senado Federal.

Quem diria que um assessor da Presidência que mantém, desde 2019, poema em seu Twitter usado por atirador da Nova Zelândia repetiria o mesmo gesto supremacista deste atirador? A tática é de um apito de cachorro, mensagens codificadas para alguns ouvirem, de ‘white power’ a copo de leite, já usadas antes. Aguardo ainda Martins criticar supremacismo. Aguardo Martins ser demitido e ser investigado sobre se cometeu racismo.

Mais estridente do que um apito de cachorro foi a fala de Xuxa, que defendeu que presos poderiam servir de cobaia para testes de medicamentos.

Esbravejando contra “o pessoal dos direitos humanos”, Xuxa arrematou: “Já que vai ter que morrer na cadeia, que pelo menos sirva para ajudar em alguma coisa”.

Ao se desculpar, Xuxa disse “não usei as palavras certas”.

Não bastam desculpas, se isto forem: sugiro convidar em suas redes familiares de pessoas presos no Brasil e dialogar sobre o que é esperar horas numa fila para levar itens básicos de higiene para presos em condições subumanas.

Entre o supremacismo branco oportunista de Filipe Martins e as cobaias humanas de Xuxa, não há apenas racismo, há um sistema de casta.

Raça “é o agente visível da força invisível da casta”, escreve Isabel Wilkerson no brilhante livro “Casta: As origens do nosso mal-estar”, lançado nos EUA em 2020. Casta é a estrutura fixa, enquanto raça é mais fluida. Como aprendemos esta semana, casta é sustentada por pilares como a desumanização de presos como cobaias e pela doutrina da pureza racial de um supremacismo encardido.

O que sustenta mesmo um sistema de castas, para Wilkerson, é a ideia de superioridade. É a violência que existe na voz tranquila de Xuxa dizendo barbaridades ou do sutil apito de cachorro de Martins.

Quem se sente autorizado a desfilar ódio com serenidade é autorizado por um sistema que lhe dá o poder de falar a partir de um lugar superior, como uma casta que pode decidir impunemente sobre os rumos da vida dos demais.

“A casta é a ossatura, a raça é a pele”, resume Wilkerson. A pele mais barata do mercado de cobaias é a negra e sempre foi, Xuxa.

Comecei a ler nesta semana as cartas que Françoise Ega (1920-1976) escreveu para Carolina Maria de Jesus.

A escritora de “Quarto de Despejo” nunca leu as cartas da empregada doméstica, ativista e escritora nascida na ilha de Martinica.

Tem uma passagem que me emociona: “Nós não falamos o mesmo idioma, é verdade, mas o do nosso coração é o mesmo, e faz bem se encontrar em algum lugar, naquele lugar onde nossas almas se cruzam”.

É assim que desmantelamos o sistema de casta: empatia radical por toda a humanidade. Não importa por qual crime se está preso, muitos ainda aguardando julgamento: nada lhes tira a humanidade comum a todos nós. É o que pessoal de direitos humanos vem falando há uns séculos.

Ter empatia radical por todos neste barco a que chamamos humanidade é a faísca que queimará nosso sistema de castas. Deixemos queimar.

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Um comentário sobre “A casta das cobaias presas

  1. Renato oliveira

    A hegemonia da perversidade está no ocidente. Com uma cultura de palhaço espalham pelas Américas e Europa. Essa doença veio pra provar a humanidade. E os maiores números de mortes estão nos governos de extrema direita, Bolsonaro e Trump, os dois palhaços. Ultrapassados, caiam fora.

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