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Números mostram que casos de violência contra a mulher no futebol são recorrentes

Da FOLHA

Por RENATA MENDONÇA

A subnotificação de crimes é uma realidade, e no universo futebolístico deve ser ainda mais presente

Quando o retorno de Cuca ao Atlético-MG foi confirmado no início do mês, houve manifestações de repúdio de muitas torcedoras pelo envolvimento dele num crime de violência sexual na Suíça em 1987 –na ocasião, o então jogador do Grêmio chegou a ser condenado.

Na última semana, foi a vez de torcedoras do Vitória se revoltarem com a contratação do atacante Wesley. Em 2019, ele foi condenado por agredir a ex-namorada com uma faca. Ele cumpre pena em regime aberto e sua sentença já transitou em julgado, ou seja, é definitiva.

No ano passado, o mesmo aconteceu quando Robinho foi anunciado no Santos, e a repercussão negativa fez com que o clube desistisse da contratação. Robinho também foi condenado por crime de estupro, só que na Itália. Sua sentença foi confirmada na segunda instância, mas ele ainda pode recorrer uma última vez.

Tem gente que acha exagerada a reação de torcedoras e jornalistas (mulheres) a essas contratações. É que elas escancaram uma realidade muito dolorida para nós. Vivemos num mundo que agride, violenta e mata mulheres apenas por serem mulheres, ao mesmo tempo que ignora a seriedade de todos esses crimes. Aliás, mais que isso, vivemos num mundo que aceita todos esses comportamentos violentos contra as mulheres como se fossem “normais”.

Afinal, “quem nunca brigou ou saiu na mão com a mulher?”, como disse o goleiro Bruno há dez anos, diante de dezenas de jornalistas que reagiram com naturalidade a essa declaração absurda.

Na época da contratação de Robinho, houve bastante espaço na mídia esportiva para falar sobre violência contra a mulher. E para ir além dele, entendi que precisávamos começar a dar números aos casos que já me pareciam bem recorrentes no futebol –assim, seria possível entender a dimensão do problema. A equipe de reportagem da Folha trouxe as estatísticas que faltavam: nos últimos três anos foram registrados 240 boletins de ocorrência de crimes contra a mulher cometidos por atletas, muitos desses jogadores de futebol. Isso considerando apenas o estado de São Paulo.

Fazendo as contas, a média é de 80 casos por ano. Um a cada quatro ou cinco dias. E esses são apenas os que foram efetivamente registrados nas delegacias. A subnotificação de crimes de violência contra a mulher é uma realidade, e no universo do futebol deve ser ainda mais presente. Não é fácil denunciar um jogador, uma pessoa pública, que tem bastante poder, dinheiro e fama. Há uma pressão psicológica muito maior em cima da mulher agredida. O caso do goleiro Jean, por exemplo, que foi preso em flagrante acusado de agredir a ex-mulher nos Estados Unidos, não foi levado adiante por ela no Brasil.

Segundo a reportagem assinada por João Gabriel e Carlos Petrocilo, do total de crimes investigados, o de ameaça foi o mais recorrente (35,4%), seguido pelo de lesão corporal (30,9%) e injúria (16,4%). Há registros também de estupros, homicídios e divulgação de imagens íntimas.

Apesar da subnotificação, esses números já são bastante expressivos e demonstram a urgência de tratar desse tema com mais cuidado no ambiente do futebol. E de exigir de clubes e federações ações mais efetivas para combater a violência contra a mulher. Não adianta fazer homenagem no 8 de março e dias depois anunciar a contratação de um jogador condenado por agredir a ex. Não adianta fazer postagem reconhecendo a luta das mulheres por direitos, mas “encerrar o assunto” do envolvimento do treinador em um crime de estupro sem reconhecer o direito das torcedoras de terem um esclarecimento digno sobre o caso.

O discurso precisa vir acompanhado da prática

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