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Diretoria do Flamengo deveria se afastar e trazer pessoas habilitadas para tratar com as famílias do Ninho

De O GLOBO

Por ANDRE KFOURI

A gestão profissional do clube se revelou amadora para lidar com gente

Um ano depois, é tragicamente claro: as pessoas que hoje comandam o Flamengo não estão à altura do que o clube necessita neste momento crucial em sua história. A passagem delas por posições tão importantes não será definida pela gestão exemplar ou pelo magnífico time que construíram, e sim pela forma como falharam miseravelmente no trato da tragédia no Ninho do Urubu, e pela maneira vexatória como comunicaram a própria incapacidade de demonstrar um mínimo de humanidade para com as famílias atingidas pelo desastre. Ao se preocupar primordialmente com as indenizações que terá de pagar, a cúpula atual converte pais, mães e irmãos dos garotos mortos em pedintes, e se aventura a apresentar o Flamengo como um clube tão pobre que só tem dinheiro. É imperdoável.

A soma de equívocos é devastadora. Esta diretoria deveria ter percebido há muito tempo que a questão financeira, por mais relevante, é secundária. Os valores serão determinados e pagos. Para tanto, basta ter os recursos, e, como se sabe, o Flamengo os tem. O que deveria ser evidente desde 8 de fevereiro de 2019 é algo muito mais significativo: a missão de garantir que quando essas famílias se lembrassem do Flamengo, sentissem o coração aquecido pelo tratamento que receberam. É uma questão de compreensão emocional que parece estar muito acima do nível daqueles que hoje respondem — mesmo quando não respondem — pelo clube. Essa oportunidade já foi perdida pelo distanciamento estabelecido, e embora se alegue que as famílias não querem dialogar, a pergunta que se impõe é por quê? Teriam aqueles que perderam seus filhos se transformado em exploradores do próprio luto?

A impressão de uma abordagem corporativa, insensível, traz consigo uma ironia que dá a medida do fracasso dos dirigentes envolvidos. Ainda que fosse aceitável que um clube do tamanho do Flamengo se conduzisse como uma companhia que só deve satisfações a seus acionistas, o comportamento demonstrado até agora também seria vergonhoso. Dificultar a entrada dos familiares no Ninho do Urubu no aniversário de um ano da tragédia e não os convidar para a missa que foi celebrada em memória dos meninos são afrontas que, além de se aproximar da crueldade, sugerem uma postura proposital de antagonismo.

É precisamente o oposto do que deveria ser a conduta de um clube representado por dezenas de milhões de torcedores, que hoje reagem — exceto no caso daqueles que perderam a capacidade de sentir e enxergam este episódio como mais um jogo a ser vencido — com incredulidade diante da pose de quem toma decisões.

Nada disso está relacionado à política do clube. A diretoria atual assumiu após a inauguração do Ninho, mas não pode se eximir da obrigação de lidar com a tragédia. Há um ônus por ocupar cargos que geram aplausos em restaurantes. Mas é tarde. Em um ano, a gestão profissional se revelou amadora para tratar com gente, a ponto de não perceber o desrespeito no fato de o Flamengo jogar num 8 de fevereiro. Chegou a hora de se afastar e trazer pessoas habilitadas para fazer a reaproximação com as famílias. Encontrá-las e contratá-las é apenas uma questão de dinheiro.

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