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Por que querem o Bruno?

Da FOLHA

Por RENATA MENDONÇA

Clubes só usam o discurso da ressocialização de ex-presidiários para o goleiro

Um jogador de futebol está há dez anos sem jogar e ficou praticamente todo esse período sem treinar profissionalmente. Ele está fora de forma e sem o preparo físico exigido no esporte de alto rendimento. Quantas propostas de clubes profissionais esse jogador receberá?

O goleiro Bruno, condenado pelo assassinato brutal de Elisa Samudio, mãe de seu filho, não joga desde 2010, mas já fechou contrato com quatro clubes durante o cumprimento de sua pena.

Aí vem a questão: por que será que tantos times estão interessados em contratar um goleiro que está há dez anos sem jogar? Que avaliação fizeram sobre o desempenho técnico dele?

O primeiro a anunciá-lo foi o Montes Claros-MG, ainda em 2014, quando Bruno estava em regime fechado. O clube foi à Justiça para obter liberação dele para treinos e jogos, com um contrato de cinco anos e uma multa rescisória de quase R$ 3 milhões. O presidente da época, Vile Mocellin, disse que a ideia era “contribuir com a recuperação da pessoa humana de Bruno”.

Em 2017, em liberdade por um habeas corpus, Bruno fechou com o Boa Esporte-MG, que também justificou sua investida na ideia de ressocialização do jogador. “O Boa não é um tribunal de justiça”, afirmou Rone Moraes, presidente do clube naquele ano. Mas o goleiro teve que voltar à prisão pouco tempo depois.

Bruno entrou oficialmente no semiaberto em 2019, claro, já com contrato encaminhado, desta vez com o Poços de Caldas. “O Vulcão tem um social muito forte e vem com um projeto novo para o mercado“, disse o presidente Paulo César da Silva ao justificar a contratação.

Não deu certo e veio o Fluminense de Feira-BA nesta semana confirmando contrato com o goleiro. O pastor Tom, presidente da equipe, disse que é preciso “reintegrar as pessoas que fizeram algo de negativo”. O negócio acabou melando após a repercussão ruim.

A movimentação desses clubes para trazer Bruno não foi discreta. Todos fizeram questão de eventos de apresentação, entrevistas coletivas, etc. É óbvio que a contratação de um jogador que foi condenado por um crime tão brutal teria cobertura da mídia. No fundo, não seria isso mesmo que esses clubes estavam querendo? Se não, por que tantos se interessariam pelo atleta que não joga há dez anos?

“Ah, mas todo mundo tem direito a uma segunda chance. E a ressocialização?” Bom ponto. Gostaria, então, de saber como esses clubes tratam esse tema fora dos gramados? Quantos ex-presidiários esses times já contrataram para trabalhar como porteiro, roupeiro ou qualquer outra função? Há mesmo esse compromisso todo com “recuperar seres humanos” ou só vale discutir ressocialização quando estamos falando de um atleta que vai atrair mídia e muita visibilidade para a equipe?

A questão aqui não é discutir se Bruno merece ou não essa reintegração —eu, particularmente, acho que todo mundo merece. Mas é levantar o debate sobre por que esse tema só vem à tona quando é para defender o goleiro. Não se vê ninguém pregando com tanta veemência o discurso da “ressocialização” para ex-presidiários em outros cargos da sociedade —só no futebol.

Então ao Bruno, que se dê a segunda chance que ele merece, mas nos bastidores da bola, sem holofotes, sem status de ídolo. Aos outros milhares de ex-presidiários que todos os dias lutam por qualquer chance, que encontrem na busca por um emprego o mesmo “apoio” da sociedade que o goleiro tem.

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