Advertisements

A nova vida de Edinho, filho do Rei Pelé, libertado de Tremembé

Edson Cholbi Nascimento, popularmente conhecido como Edinho, ex-goleiro e filho do Rei Pelé, deixou a prisão de Tremembé, beneficiado pela progressão ao Regime Aberto.

Deverá agora continuar sua vida como treinador de futebol.

Com ele convivi, durante pouco mais de um mês, entre novembro e dezembro de 2018.

Tive a melhor das impressões.

Feliz com a soltura do amigo, desejando-lhe sorte nesse recomeço, republico o que escrevi à época:


Edinho: a vida do Príncipe em Tremembé

No dia 24 de novembro, dezesseis dias após minha indevida prisão em São Paulo, ao sair da solitária (tratada pela alcunha RO) de Tremembé (na qual permaneci por dez dias), deparei-me, à distância, com Edson Cholbi Nascimento (48), o Edinho, ex-goleiro do Santos, filho do Rei Pelé, que cumpre pena de doze anos e dez meses (decisão de 2ª instância, com direito a recursos diversos), acusado de lavagem de dinheiro oriundo do tráfico de drogas.

Muito forte, fruto de intensa malhação dentro do presídio, o ex-atleta, agora treinador, dentre diversas tatuagens possui às costas a inscrição “Príncipe Guerreiro”, alusão evidente ao parentesco famoso.

Por conta das diversas críticas que escrevi a respeito do episódio originário da prisão de Edinho, apesar de observar seu comportamento com atenção, evitei contactá-lo nos primeiros dias, fato que somente viria a acontecer duas semanas depois.

De cara, chamou-me a atenção o olhar triste, sofrido, ocultado pelo sorriso fácil e a gentileza com que tratava a todos que lhe procuravam.

Apesar de filho do Rei, Edinho não recebe privilégios em Tremembé, ocupando uma das 34 camas da Ala 3, lutando contra o calor infernal do local, os pernilongos insistentes e a insalubridade típica dos presídios brasileiros.

Sua rotina é a seguinte:

  • 05h40h – acordar para responder a chamada do guarda que realiza a contagem dos presos;
  • 06h – pegar fila para tomar leite, café e o pão seco distribuído a todos (por vezes, Edinho evita esta etapa consumindo alimentação que recebeu em visita da família ou comprou com o dinheiro oriundo de seu trabalho no local;
  • 07h – atende à chamada para o trabalho (obrigatório) que realiza na FUNAP (empresa que fabrica móveis, localizada dentro do complexo penitenciário);
  • 11h – retorna à Ala para almoçar;
  • 12h30 – atende á chamada para o segundo turno do trabalho na FUNAP;
  • 15h30 – retorna à Ala sem a necessidade de pegar a fila do café e pão seco distribuídos à tarde (14h30), pelo fato de já tê-los recebido dentro da fábrica;
  • 16h – aproveita o horário do “Sol” para fazer exercícios físicos e também, generosamente, servir de professor à outros presos que buscam seus ensinamentos para realizar atividades esportivas de maneira correta (detalhe: muitos jogam futebol neste período, Edinho, não)
  • 17h30 – fila para contagem de presos do período da tarde, permanecendo trancado até a troca de guarda;
  • 18h15 – pátio liberado para convívio;
  • 21h – a cela é trancada, nova contagem é realizada e somente reaberta no outro dia, às 06h;

Por decisão judicial, Edinho, salvo engano uma vez por mês, tem permissão para deixar o presídio por algumas horas e realizar trabalho social na região.

Foi através de intermediação de um companheiro de cela, Antonio Carlos, conhecido como “Mãozinha”, que Edinho demonstrou desejo de conversar comigo, ocasião em que falamos sobre diversos assuntos, desde os problemas judiciais até questões particulares de cada um.

Educado, o “Príncipe” marejou os olhos ao falar sobre a admiração que possui pelo pai e o quanto foi importante a reaproximação após uma infância difícil, nos EUA, que viveu sem a proximidade desejada de alguém que precisou, desde cedo, dividir com todo um planeta de fãs.

“Paulinho, nunca esquecerei o orgulho que meu pai demonstrou ao me ver jogando no Santos”, “Foi um período mágico da minha vida, inesquecível”, “Entrar naqueles estádios lotados com os torcedores gritando meu nome… parecia um sonho…”, “Foi nesta época que todo o passado de cobranças entre eu e meu pai ficou para trás…”, “Eu cedi primeiro, e ele correspondeu”, disse Edinho, em resumo, sobre a relação com Pelé.

“Amo meu pai, a minha família… minha situação aqui é injusta…. nunca lavei dinheiro… errei ao manter amizades inadequadas, mas não significa que mantinha os mesmos hábitos que eles… fui condenado em segunda instância, estou aguardando, com esperança, o julgamento de meus recursos… não aguentava mais ser preso e depois solto por habeas corpus, por isso decidi me entregar, para pagar logo o que foi designado pela Justiça”, continuou.

“Eu me preparei muito para ser treinador de futebol… tenho uma visão do esporte que herdei de minha vida nos EUA, em que pratiquei diversas modalidades, sempre com ensinamentos de ética, disciplina e trabalho em grupo… gosto de times que vençam jogando bem, oferecendo bom espetáculo… vou superar essa fase difícil e quero trabalhar muito, de maneira correta… não preciso me sujeitar a esses esquemas que existem por ai… sou correto e meus jogadores terão alguém decente em que se espelhar”

Depois desta conversa, tivemos outras mais, sempre interessantes, de nível elevado – Edinho é uma pessoa de boa cultura e fluência verbal – com ótimas histórias de bastidores e a demonstração de gratidão do ex-goleiro pelas pessoas que o ajudaram na carreira (Sérgio Guedes e Serginho Chulapa foram citados).

Na semana em que sai do presídio definitivamente (após 44 dias encarcerado ilegalmente), o Príncipe, que deixaria Tremembé por 13 dias em indulto temporário de Natal, presenteou-me com uma obra literária – que desmistificava o sucesso – para que pudéssemos, na sequência, discuti-la.

No último dia 26, Pelé postou uma foto de Natal com seus filhos, entre os quais Edinho, certamente, esperançoso de, em breve, não precisar mais ausentar-se do convívio familiar para retornar ao um local tão deprimente.

O Príncipe, pelo que presenciei em Tremembé, demonstra ter aprendido a lição (se não dos atos que nega ter cometido, da imprudência da aproximação com gente complicada), em meio ao sofrimento de co-habitar um espaço incompatível com sua humildade, sensibilidade e educação.

Advertisements

Facebook Comments

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Open chat
Olá, seja bem vindo ao Blog do Paulinho ! Deixe aqui suas dúvidas, sugestões e denúncias. Todas as mensagens serão lidas
Powered by
%d blogueiros gostam disto: