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Como foram os anos de formação de Bolsonaro em Eldorado-Xiririca, no interior de São Paulo

Jair Bolsonaro deixou Eldorado, a cidade em que foi criado, para integrar escolas militares em Campinas e em Resende. O jovem falava em ser presidente, porque à época era coisa de militar, relatam amigos – Reprodução

Da ÉPOCA

Por BRUNO ABBUD e CLEIDE CARVALHO

Por volta das 11 horas de uma manhã de junho, a estrada esburacada que leva a Eldorado, no Vale do Ribeira, em São Paulo, estava vazia. Com 15 mil habitantes, a 245 quilômetros de São Paulo, a cidade se resume a uma montanha a beira-rio, cujo topo é preenchido pela típica igreja em frente à praça com nome de santa. Fundada na segunda metade do século XVIII, foi chamada primeiramente de Xiririca — uma onomatopeia guarani que imita o barulho de água corrente. O nome de batismo foi alterado para Eldorado em 1948, em referência ao ciclo do ouro, que também inspirou os municípios vizinhos de Sete Barras, onde sete barras de ouro foram retiradas da terra, e Registro, onde o ouro era registrado. Não há quem não conheça Bolsonaro por ali.

Quarto maior município paulista em extensão territorial, segundo maior índice de mortalidade infantil no estado e com 40% de seus moradores com renda abaixo de dois salários mínimos, Eldorado parece ter parado no tempo, com indicadores que contradizem o próprio nome. Os homens trabalham fora, as mulheres cuidam da casa, e a diversão se limita a comer, beber, pescar e dar voltas em torno da praça. Não fosse a Caverna do Diabo, que, com 6,5 quilômetros de extensão, é a maior do estado, nenhum turista teria motivo para aparecer na cidade.

As construções antigas em ruas largas e empoeiradas são as mesmas do tempo em que o dentista prático Percy Geraldo Bolsonaro chegou de Glicério, município do noroeste paulista, com a mulher e seis filhos — o sétimo morrera pouco depois de nascer prematuro. Terceiro dos seis irmãos (Angelo, Maria Denise, Jair, Solange, Renato e Vânia), Bolsonaro, nascido em Campinas, viveu em Eldorado até os 18 anos. Saiu de lá para ingressar na Escola Preparatória de Cadetes do Exército. Só costuma voltar à cidade em que foi criado em datas festivas, para ver a família e alguns colegas com quem passou a infância e a adolescência nas escolas estaduais Professora Maria Aparecida Viana Muniz e Doutor Jayme Almeida Paiva.

Estão em Eldorado-Xiririca os anos de formação do político que assombra grande parte do país, enquanto arrola número significativo de simpatizantes. Candidato a presidente pelo nanico PSL, Jair Messias Bolsonaro, de 63 anos, atinge 20% das intenções de voto, postando-se como nome forte na sucessão. Com 30 anos de atuação político-parlamentar e passagem por sete partidos, Bolsonaro cultivou a polêmica para destacar-se. Entrou na política depois de ser acusado de liderar um plano para colocar bombas em quartéis como forma de pressionar a União por aumentos salariais para a tropa. Usou a fama repentina para tornar-se a voz dos militares, primeiro como vereador e depois como deputado federal.

Em 1993, mesmo no Parlamento defendia a ditadura e o fechamento temporário do Congresso Nacional. Alegava o deputado que a existência de muitas leis atrapalhava o exercício do poder e que, “num regime de exceção, o chefe, que não precisa ser um militar, pega uma caneta e risca a lei que está atrapalhando”. No ano seguinte, disse preferir “sobreviver no regime militar a morrer na democracia”. Afirmou que “a situação do país seria melhor se a ditadura tivesse matado mais gente”, incluindo na lista o então presidente Fernando Henrique Cardoso.

No alto à esquerda, Narcisa dos Santos, que se recordou de correr atrás de Bolsonaro quando ele a chamava de gorda; ao lado, a igreja matriz de Eldorado; abaixo, à esquerda, a lotérica dos Bolsonaro; à direita, outdoor de campanha em Santos – Bruno Abbud; Marcos Alves / Agência O Globo

No início de 2000, Bolsonaro defendeu a pena de morte para qualquer crime premeditado e a tortura em casos de tráfico de drogas, afirmando que “um traficante que age nas ruas contra nossos filhos tem de ser colocado no pau de arara imediatamente. Não tem direitos humanos nesse caso”. Para sequestradores, indicava: “O cara tem de ser arrebentado para abrir o bico”. Atacou homossexuais, dizendo não admitir “abrir a porta do meu apartamento e topar com um casal gay se despedindo com beijo na boca, e meu filho assistindo a isso”. Reclamou dos que têm pouco dinheiro: “Pobre não sabe fazer nada”.

Deputado federal em sétimo mandato, fez discursos no plenário em que qualificava adversários como “canalha”, “patife”, “imoral”, “terrorista” e “delator”. Cunhou cartazes debochados quando da discussão legislativa sobre desarmamento — “Entregue suas armas: os vagabundos agradecem” — e desaparecidos políticos — “Araguaia: quem procura osso é cachorro”.

Ria com prazer ao ver seu nome associado à violação dos direitos humanos. Abertamente já defendeu a pena de morte, a prisão perpétua, o regime de trabalhos forçados para condenados, a redução da maioridade para 16 anos e um rígido controle da natalidade como maneira eficaz de combate à miséria e à violência.

Debochou das acusações de nepotismo quando empregou parentes em seu gabinete e procura transferir prestígio para os filhos na política — Flávio, de 37 anos, é deputado estadual fluminense e candidato ao Senado; Eduardo, de 34, é deputado federal por São Paulo; Carlos, de 32, é vereador no Rio de Janeiro. Bolsonaro se refere aos filhos como 01, 02 e 03, na ordem crescente de idade.

Seu passado antes da carreira política estridente segue nebuloso. Em busca dele, ÉPOCA investigou por dois meses as origens dos Bolsonaros, flor emergente de Eldorado-Xiririca.

No fim da estrada de acesso à cidade, num posto de combustíveis, o frentista estudou com Jair Bolsonaro. “Ele era goleiro”, contou Tirço. “Ruim de bola.” Da turma, só o presidenciável ficou famoso. Os outros tornaram-se frentistas, secretárias, agricultores e donas de casa. Narcisa dos Santos, de 63 anos, mesma idade de Bolsonaro, rememorou o tempo em que o presidenciável, ainda menino, corria nu pela praça da cidade, irritado com as irmãs. “De mim ele apanhava”, disse ela. Já naquele tempo, Bolsonaro tinha uma metralhadora na língua. “Batia nele quando me chamava de gorda, baleia, saco de areia”, contou Narcisa. “Ele saía louco correndo sem calça na praça.”

O negócio do hoje presidenciável era estudar e pescar, lembrou outro colega de escola, Celso Leite. “Era quietão”, disse. “Mas já falava que ia ser presidente do Brasil, porque naquele tempo os presidentes eram militares.” Quando soldados baixaram em Eldorado à procura do guerrilheiro Carlos Lamarca, no início dos anos 1970, Bolsonaro passou a admirar o Exército — até hoje se orgulha de ter ajudado a guiar os militares pelas matas que conhecia desde criança na caça ao comunista Lamarca.

Logo na entrada de Eldorado há um quilombo com cerca de 300 quilombolas, que foi visitado por Bolsonaro em 2017. Numa palestra no Rio de Janeiro, o deputado disse que o “afrodescendente mais leve” de lá “pesava 7 arrobas” e “nem para procriador servia mais”. As declarações fizeram a PGR denunciá-lo ao STF por racismo. Ele também foi condenado pela Justiça Federal a pagar R$ 50 mil por danos morais ao Fundo Federal de Defesa dos Direitos Difusos.

Bolsonaro como cadete com familiares em Eldorado – Reprodução

O racismo foi característica forte na cidade. A sede do clube Caraitá, onde militares que permaneceram no município costumavam organizar bailes para arrecadar fundos para um time de futebol, o Vila Vicentina, só aceitava brancos nos anos 1960.

“Preto lá não entrava”, contou Nilceu Pupo, um senhor negro de 70 anos que também conviveu com Bolsonaro durante a juventude. “Sempre teve muito racismo aqui.” O clube pertencia ao fazendeiro Jayme Almeida Paiva, que dá nome ao colégio onde Bolsonaro estudou. “A entrada de negros não era permitida nos bailes. Eles barravam na portaria”, contou Celso Leite. Certa vez, um fuzileiro naval negro chamado João Rosa se revoltou e partiu para cima dos brancos por ter sido barrado.

Como em cidade pequena tudo se sabe, Bolsonaro é responsabilizado em Eldorado por mágoa irrecuperável de companheiro antigo. “Eu desprezo ele”, disse Gilmar Alves, de 62 anos, ex-melhor amigo de infância de Jair Bolsonaro. “Desprezo a pessoa que ele é.” Era na companhia de Alves que o adolescente Jair, aos 16 anos, costumava aparecer toda semana nas margens do Rio Ribeira do Iguape, varas em punho, para pescar. Os peixes eram vendidos em sociedade solidária. Filhos de pais pobres, dividiam o dinheiro em partes iguais. Os objetivos também eram idênticos: tanto Alves como Bolsonaro queriam mudar de vida, longe da cidade.

Gilmar Alves foi estudar agronomia em Curitiba. Bolsonaro seguiu para o Exército em Campinas. Com o tempo, a distância resumiu a amizade a conversas por telefone. Em abril de 2015, Bolsonaro foi entrevistado durante uma hora no programa do apresentador Raul Gil, no SBT. No fim da gravação, a entrevistadora Lydia Sayeg perguntou ao deputado se confundia política com religião no exercício do cargo.

Bolsonaro refutou. Passou a falar sobre a polêmica do “kit gay”, o material escolar lançado em 2011 pelo Ministério da Educação com abordagens sobre gênero e orientação sexual. “Eu sou católico, está ok?”, começou o deputado. “Inclusive essa questão do kit gay nas escolas, eu falava muito em cristão, evangélico, católico, até que um amigo gay meu, o Gilmar, que mora aqui em Registro, ligou para mim e falou: ‘Bolsonaro, eu sou ateu e penso da mesma maneira que você nessa questão do estímulo’ (causado pelo kit)”.

Com os filhos Flávio, Eduardo e Carlos, aos quais chama de 01, 02 e 03 – Reprodução

A 190 quilômetros do auditório, transformado imediatamente em motivo de chacota por amigos, parentes e vizinhos, Gilmar Alves descobriu o que Bolsonaro havia dito sobre ele por meio de grupos de WhatsApp. Ficou indignado. “Nunca fui gay na minha vida”, disse. “Também não me considero ateu, mas hoje sou discriminado por isso.”

Mais de três anos depois, segundo contou, o ex-amigo do candidato ainda sofre bullying por todo o Vale do Ribeira. “A gente fica estigmatizado”, disse. “Sou avô, tenho família religiosa, mas até hoje sofro certo bullying, sempre tem aquelas pessoas que dizem: ‘Onde tem fumaça tem fogo’, ou ‘É ativo ou passivo?’. É uma coisa que me chateia bastante, já me prejudicou muito e até hoje me deixa incomodado. Só eu sei o que passei por causa disso. É difícil, fui caluniado”, continuou. “Mesmo que fosse gay ou ateu, não vejo o direito dessa pessoa de se manifestar a meu respeito na TV. E se fosse? E daí? Não tenho nada contra, mas é que eu não sou.”

Em busca de uma explicação, Alves telefonou para o deputado. Bolsonaro mentiu. “Ele negou”, rememorou. “Disse que não tinha falado nada.” O conterrâneo então pediu ao presidenciável que assistisse ao programa no YouTube. E ficou por isso mesmo. No início do ano, Bolsonaro esteve em Registro. Alves vislumbrou um pedido de desculpas. Enganou-se. “Pensei que ele teria a atitude digna de se retratar”, disse o agrônomo, que desistiu de processar o candidato por prever despesas, uma vez que o processo se daria no STF, a 1.200 quilômetros dali. “Mas dignidade não faz parte dele. Não tive um pedido de desculpas. Pensei que o conhecesse, mas não conheço. Tenho muitos amigos em Eldorado que se revoltaram com essa história. Hoje sou um desafeto.” Em visita a Registro no último 17 de julho, Bolsonaro nada disse sobre Gilmar Alves nem o procurou.

A possibilidade de Bolsonaro assumir a Presidência da República intriga o ex-melhor amigo: “Não consigo imaginar que embasamento permite a ele postular esse cargo”, disse. “Ele é meio bitoladão. O desequilíbrio dele é notório. Está sempre brigando. Acho que não seria um bom presidente.”

Algo que perturba Gilmar Alves é o foco exacerbado em segurança. Para ele, Bolsonaro ataca as consequências em vez de se concentrar nas causas. “Há um pouco de máscara ali. Acho que ele percebeu um nicho do conservadorismo e está explorando isso. Hoje é uma pessoa de quem não gosto mesmo.”

O Rio Ribeira do Iguape continua limpo, e a pacata Eldorado um deserto no horário de almoço. No cemitério, um mausoléu simples em granito, sem qualquer imagem de santo, nem cruz, nem flor, constitui a homenagem feita pela família Bolsonaro ao patriarca, Percy, morto em 1995. Antes de perder o pai, lembrou Gilmar Alves, Bolsonaro também quis aproveitar o ouro de Eldorado. Durante a juventude, o deputado chegou a investir em equipamentos para explorar o garimpo de ouro no Vale do Ribeira — ele já declarou ter garimpado ouro na Bahia. O tesouro que encontrou, no entanto, parece ter sido outro.

Narcisa dos Santos repete o mantra quando a pergunta é sobre a família Bolsonaro: “Eles são donos tudo dessas lojarada aí (sic)”. Francisco Borges, primeiro-sargento aposentado da PM que também conviveu com Bolsonaro, deu corda ao assunto. “Aqui ele não vai ter voto nenhum”, disse, ao reclamar da situação da estrada, esburacada, e da saúde da região. Para ele, Eduardo, o filho de Bolsonaro deputado por São Paulo, poderia ter implementado melhorias na cidade. “Fazer, ele fez”, disse Borges, em referência ao Bolsonaro pai. “Muitas lojas, muitas casas. Jair Bolsonaro tem tudo aqui, tudo é dele. Fora as outras cidades por aí.” De interioranos pobres, disse Francisco, os Bolsonaros se transformaram em comerciantes ricos.

Na chegada ao Congresso Nacional, em 1990 – Lula Marques / FolhaPress

Atualmente, a família Bolsonaro controla um pequeno império no comércio de eletrodomésticos, sapatos e materiais para construção em parte do Vale do Ribeira. Um levantamento feito por ÉPOCA na Junta Comercial de São Paulo mostra ao menos 19 empresas registradas em oito municípios: Eldorado, Miracatu, Jacupiranga, Apiaí, Juquiá, Iguape, Pariquera-Açu e Barra do Turvo. As empresas estão registradas em nome dos irmãos Renato Antonio Bolsonaro e Angelo Guido Bonturi Bolsonaro, da mãe, Olinda Bonturi Bolsonaro, e dos sobrinhos Vitória Leite Bolsonaro, Angelo Guido Bolsonaro, Orestes Campos Bolsonaro e Osvaldo Campos Bolsonaro.

Somando-se o número de filiais espalhadas por um total de 13 municípios, a família Bolsonaro tem pelo menos 30 lojas no Vale do Ribeira.

Em Eldorado, a loja de sapatos no térreo do prédio onde mora Dona Olindinha, como é conhecida a mãe do deputado, que tem 91 anos e sofre de depressão, pertence à família. Outras três lojas de materiais para construção, intituladas Campos Móveis, também. Na praça central do município há um shopping em construção, que, segundo moradores, é propriedade dos Bolsonaros. Logo ao lado, um sobrado abriga a casa lotérica Trilha da Sorte, cujos donos são o irmão mais velho, conhecido como Guido, de 65 anos, e o sobrinho Angelo, de 37. Das 19 empresas, 14 foram abertas nos últimos oito anos.

Na loja de consertos de eletroeletrônicos de que toma conta em Eldorado, ao lado de sua residência, Guido Bolsonaro, o irmão mais velho, irritou-se. Saiu a passos largos de dentro do estabelecimento: “Não pode tirar foto daqui”, disse ao repórter. A cena se deu no passeio público. “O Jair ligou e proibiu todo mundo da família de dar entrevista”, bradou Guido, dedo em riste. Seguiu nervoso até o posto da Polícia Militar na frente da loja. Como estava vazio, dirigiu-se a uma porta de ferro ao lado e passou a espancá-la. Um soldado apareceu. Guido não emitiu uma palavra. Por um instante, pareceu imaginar que estivesse em 1964: deixou o repórter cara a cara com o PM e desapareceu, como se confiasse que o militar daria um jeito na situação. Para além do constrangimento, nada aconteceu.

O irmão mais novo, Renato, de 54 anos, administra quatro lojas de móveis e eletrodomésticos na região, a maior delas em Miracatu. Ex-paraquedista do Exército, assim como o irmão deputado, foi filmado por uma equipe de televisão tocando o comércio enquanto seu nome aparecia na lista de funcionários do gabinete do deputado estadual André do Prado (PR-SP) em 2016. A reportagem o denunciou como funcionário-fantasma na Assembleia Legislativa de São Paulo, com salário de assessor especial de R$ 17 mil. Em 2012, Renato disputou a prefeitura de Miracatu pelo PR. Na ocasião, declarou patrimônio de R$ 572 mil. Não foi eleito. Quatro anos mais tarde, tentou de novo, dessa vez com patrimônio declarado de R$ 971 mil — um salto de 69%. Também não se elegeu. Ele cuida ainda de uma fazenda de criação de bovinos e apicultura.

Um apoiador de Bolsonaro usa máscara de Trump durante a convenção que confirmou o militar da reserva como candidato a presidente – Ricardo Moraes / Reuters

O sucesso no varejo tem se dado pela soma de pequenas empresas, principalmente pelas mãos dos cunhados de Bolsonaro — Theodoro Konesuc, marido de Vânia Bolsonaro, e José Orestes Fonseca Campos, que foi casado por mais de 30 anos com Maria Denise e de quem está há divorciado há cinco.

O casal Theodoro e Vânia é dono de 11 lojas da rede Art’s Móveis, instaladas em dez cidades do Vale do Ribeira. Parte das lojas é de Vânia Bolsonaro, que se lançou no varejo em 1995, no ramo de artigos de caça, pesca e camping, e, em 2011, migrou para o varejo de móveis e eletroeletrônicos. As outras cinco são de Konesuk, que abriu a primeira Art’s Móveis em 1997 e hoje é dono de metade da rede, além de atuar com extração de areia e tocar uma fazenda de gado de corte em Registro, principal município da região.

Na Junta Comercial de São Paulo, as lojas de Vânia levam o nome dela e são enquadradas como empresas de pequeno porte. As de Konesuk chamam-se Art’s Móveis e são registradas como Eireli, modalidade que permite separar o patrimônio empresarial do pessoal.

Vânia Bolsonaro e Konesuk vivem em Cajati, no Litoral Sul de São Paulo. ÉPOCA esteve na Art’s Móveis e no condomínio fechado onde mora o casal, mas os funcionários disseram não ter autorização para fornecer o contato dos dois.

Entre os antigos comerciantes de Cajati, a desenvoltura dos parentes de Jair Bolsonaro nos negócios causa um misto de inveja e admiração. As grandes lojas costumavam ser de famílias tradicionais do ramo, que hoje estranham a capacidade dos Bolsonaros de manter uma concorrência tranquila com negócios similares.

A família do ex-cunhado José Orestes Fonseca Campos — que inclui seus dois filhos, Orestes e Osvaldo — é dona da rede Magazine Campos Mais, das lojas Campos Móveis e da Campos Materiais de Construção. Maria Denise ainda mantém em seu nome a MD Bolsonaro Campos, a mais antiga do casal, aberta em 1990. A maior delas é a Magazine, fundada em 2014.

“O José Orestes é o mentor do crescimento comercial da família. Ele começou com uma loja de calçados em Eldorado e construiu praticamente um império para o padrão da região. Basta ver que, onde tem lojas Campos, há também da Art’s Móveis”, observou um comerciante tradicional de Cajati.

José Orestes abriu oito lojas em cinco anos, entre 2005 e 2010, e mesmo depois da crise manteve os investimentos. Apenas no ano de 2015 inaugurou três unidades da Magazine Campos Mais. A mais recente foi aberta em julho de 2017, em Jacupiranga, cidade onde mora, ao mesmo tempo que também alterou a atividade econômica da empresa para se lançar em novas áreas, como construção de edifícios e atacado de peças, pneus e acessórios para veículos.

No centro de Cajati, vizinha ao condomínio onde moram Vânia Bolsonaro e Konesuk, a Campos Mais ostenta um logotipo gigante nos portões do antigo clube da Bunge e uma placa anuncia a construção de empreendimento de hotelaria e eventos.

Além de atuar no varejo, a família Campos é proprietária de duas fazendas, uma de gado e outra dedicada ao cultivo de banana e maracujá. Procurado, José Orestes também não quis falar com ÉPOCA. Mandou dizer que, como se separou de Maria Denise, não se considera mais da família.

Somados, cunhado, ex-cunhado, irmãos, sobrinhos e a mãe de Bolsonaro são donos de mais de 70 imóveis no Vale do Ribeira.

Na praça de Eldorado, um taxista questionou o enriquecimento dos Bolsonaros. “O cara é forte”, afirmou, referindo-se a Jair. O ponto de táxi em que trabalha fica na frente da lotérica da família, Trilha da Sorte. “Todo esse império que eles construíram foi por meio da política”, disse. De dentro de seu táxi, onde costuma passar as tardes de calor à espera dos passageiros sempre escassos, o homem vigia a paisagem. Tanto observou a lotérica dos Bolsonaros que descobriu: produtores de banana poderosos da região costumam aparecer por lá com frequência. Em vez de adentrar o estabelecimento pela porta da frente, como todo mundo, os sócios Valmir Beber, que disputou mais de uma vez a prefeitura de Eldorado pelo PMDB, e Sandro Morais, filiado ao PR, têm o hábito de seguir direto para os fundos da lotérica, onde fica o escritório dos proprietários.

A Trilha da Sorte é elogiada pelos moradores porque costuma ter mais guichês em funcionamento do que a agência bancária que fica bem em frente, no lado oposto da praça.

“O bananeiro forte aqui é o Sandro”, contou o taxista. “Ele não sai da lotérica. Vai lá e não entra como um normal, ele já entra lá para o fundo e fica por lá”. Sandro Morais era um humilde dono de bar. Repentinamente, acabou se tornando um renomado empresário da banana. É o comerciante que mais intermedeia a compra e a venda de bananas na região, com vários caminhões e carretas. O mercado de bananas no Vale do Ribeira emprega mais de 100 mil trabalhadores e, só em salários, movimenta R$ 400 milhões por ano.

Uma advogada da cidade suspeita que Bolsonaro lidere um exército de “laranjas”, em nome dos quais estariam terras atulhadas de bananeiras. O trato do presidenciável com os bananeiros envolveria a promessa de manipulação na legislação ambiental de modo que fosse permitido o plantio em áreas de várzea, próximas a rios, com a consequente contaminação das águas por agrotóxicos. Procurados pela reportagem, Sandro Morais não foi localizado e Valmir Beber não atendeu os telefonemas.

Bolsonaro é saudado por apoiadores no lançamento da candidatura – Carl de Souza / AFP

Em 2014, Bolsonaro criticou a importação pelo Brasil de bananas do Equador: “Como é que ficam os bananicultores e a economia de Eldorado Paulista, Iporanga, Registro, Sete Barras, Miracatu, Juquiá, entre outras cidades? Cada vez mais a sanha ecológica se faz presente no local. Ampliaram a estação ecológica da Jureia e prejudicaram os bananicultores, que cada vez mais são impedidos de praticar a cultura da banana”, disse, ignorando a regra do livre-comércio, tão difundida por Paulo Guedes, seu atual guru na economia. Mais de uma vez Bolsonaro reclamou da proteção ambiental e da presença de terras indígenas na região, que tem a área de Mata Atlântica preservada mais extensa do país. Ele defende a construção de hidrelétricas na área.

Em agosto de 2015, três anos e meio depois de seus familiares terem adquirido, por R$ 10 mil, a lotérica Trilha da Sorte, na frente da praça, o deputado subiu à tribuna da Câmara para defender permissionários lotéricos que tinham contratos ameaçados pelo governo Dilma Rousseff. “É um absurdo o que esse governo faz com os permissionários lotéricos”, disse. Apostador convicto, Bolsonaro diz jogar na Mega-Sena, toda quarta-feira e todo sábado, os mesmos sete números há mais de 20 anos.

Bolsonaro deixou Eldorado na metade dos anos 1970, ingressou na Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende, depois na Câmara Municipal do Rio de Janeiro e chegou a Brasília, como deputado federal, em 1991. Foi lá, na Quadra 103 Norte, que conheceu a segunda ex-mulher, Ana Cristina Valle. Ambos se apaixonaram enquanto eram casados — ele com Rogéria Nantes Nunes Braga, a mãe de seus três filhos; ela com um coronel da reserva do Exército.

O relacionamento começou a desmoronar quando Ana Cristina comprou um apartamento em um hotel na Avenida Lúcio Costa, na Barra da Tijuca, supostamente com o dinheiro de Bolsonaro sem que ele soubesse, segundo contou um assessor próximo da família. “É claro que ele sabia”, disse ela. “Comprei com o dinheiro de uma conta conjunta.” Ela se comprometeu a mostrar a matrícula do imóvel, mas nunca o fez. Uma busca em cartórios de registro de imóveis revela que, nos últimos 35 anos, nenhum apartamento no endereço mencionado foi inscrito no nome de Jair Bolsonaro.

Quando o casal se separou, em 2008 — algo que “foi muito doído e ainda é”, segundo ela —, Ana Cristina levou o filho, Jair Renan, para a Noruega, onde viveu por cinco anos. Bolsonaro entrou na Justiça para reaver a guarda do menino. “Ele não permitiu a ida do meu filho para a Noruega, seria bom para ele”, contou a ex-mulher. De volta ao Brasil, ela se prepara para concorrer, a convite do senador Romário, a uma vaga de deputada federal em outubro, pelo Podemos. O nome nas urnas será Cris Bolsonaro.

O assessor também contou que, ao contrário dos três irmãos e da mãe, Jair Renan ainda não mostrou disposição para a política. Isso, de certa maneira, intriga o pai. Mais ainda depois que percebeu que o filho, enquanto morava com o presidenciável na Barra da Tijuca, vinha frequentando a Pedra do Arpoador. “Fazer o que no Arpoador?”, questionou o assessor, logo acrescentando: “Fumar”. Por esse motivo, Bolsonaro teria mandado o filho para morar com a mãe em Resende.

Bolsonaro também não quis que o nome do filho fosse escolhido pela mãe. “Eu queria só Renan”, conta Ana Cristina. “Fui lá e botei Renan. Ele voltou e modificou”. Típico mandachuva de Xiririca.

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