O Brasil é o país do audiovisual

Da FOLHA

Por TATI BERNARDI

  • ‘Brasil 70’ me fez torcer exasperada por lances históricos, incluindo chutes que eu já sabia que não entrariam
  • Eu era do tipo que assistia aos jogos ajoelhada no meio da sala

Não tenho ideia das datas dos jogos do Brasil nesta Copa do Mundo. Tirando o famoso jogador bolsonarista e sonegador de impostos, não sei nada sobre a escalação. Fico triste com o tamanho do meu desinteresse. Eu era do tipo que assistia aos jogos ajoelhada no meio da sala, ainda suja com a tinta verde e amarela usada para pintar a rua da minha infância.

Era do tipo que não dormia, não almoçava, destruía as unhas das mãos, chorava abraçada a primos, amigos e namorados. A soma das minhas memórias de 11 Copas do Mundo oferece um banquete de beleza, drama e comicidade. Meus avós se beijando na boca com desajeitada intensidade (aparentemente isso só acontecia a cada quatro anos), derrubando os óculos um do outro, minha grande amiga da faculdade embrulhada na bandeira com dois terços no pescoço, o show de palavrões saindo da boca de crianças muito pequenas e os adultos aquiescendo: “Ah, é Copa do Mundo”.

Onde foi parar essa paixão? Se perdeu quando deixamos de ter ídolos nacionais e de ao menos conhecer os jogadores que atuam em clubes europeus desde muito jovens? Se perdeu após escândalos da CBF ou no 7 a 1 contra a Alemanha?

Se perdeu em alguma campanha publicitária milionária do Neymar (não sou contra dinheiro, mas dá raiva quando o capitalismo alimenta a extrema direita) ou ao observamos, incrédulos, aquele bando de trouxas, na avenida Paulista, usando as cores da bandeira para defender golpista pró-tortura?

Se perdeu quando nossos avós morreram, nossos primos se mudaram, nossos tios envelheceram meio lelés da cuca e as novas famílias que formamos não são exatamente muito ligadas a futebol? Nunca vou esquecer o Bebeto homenageando seu bebê recém-nascido e o Viola correndo desatinadamente nos minutos finais do tetracampeonato de 1994. Também não vou esquecer da volta por cima do Ronaldo Fenômeno em 2002. Chorei copiosamente com ele. Meu Deus, como é bonito o futebol, como era bonito o futebol. Não consigo mais sentir nada disso.

Mas ontem assisti à série “Brasil 70: A Saga do Tri“, disponível na Netflix, e esta coluna quase não saiu: fui dormir às três e pouco da manhã, pois era impossível parar de ver a direção impecável de Paulo e Pedro Morelli e as atuações gloriosas de Rodrigo Santoro (como o jornalista, treinador e comunista João Saldanha) e de Bruno Mazzeo (interpretando o supersticioso técnico Zagallo, famoso pela disciplina tática). O ator estreante Lucas Agrícola, além de ser a cara do rei Pelé, também faz bonito. A reprodução dos gols —e dos quase gols— é perfeita e me deu a mesmíssima emoção nostálgica das impecáveis exibições de corrida da série “Senna“.

Críticos de cinema e pesquisadores sobre a vida de João Saldanha e Pelé têm levantado problemas na dramaturgia, incluindo fatos distorcidos e a falta de profundidade ao retratar a ditadura vigente. Imagino que estejam certos (sempre dá para caçar defeitos, ainda mais sendo um especialista e apaixonado pelo assunto), mas vou me ater ao prazer imenso de elogiar mais um trabalho primoroso do audiovisual brasileiro. “Brasil 70” me fez torcer exasperada por lances históricos, incluindo chutes que eu já sabia que não entrariam. Tenho a certeza de mais um golaço brasileiro.

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