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A imprensa que temos

Do ESTADÃO

Por EUGÊNIO BUCCI

Animadas por líderes irresponsáveis, as multidões creem em irrealidades invisíveis

Embora seja temerária qualquer previsão para o ano que vem, de uma coisa a gente pode ter certeza desde já: o chavão de que as empresas jornalísticas manipulam e jogam sujo vai atropelar os olhos e os ouvidos dos pobres eleitores. Repórteres levarão a culpa pelos reveses dos partidos. Demagogos que não leem coisa alguma, nem mesmo os títulos de alto de página, insultarão as redações como se fossem luminares do “media criticism”.

É claro que em 2018 o noticiário cometerá erros. Nada de novo sob o Sol. Os bombardeios que políticos movem contra a imprensa, porém, não são provocados pelos erros, e sim pelos acertos. Quanto mais acerta, mais a imprensa apanha dos poderosos. Os ataques vêm porque os órgãos jornalísticos cumprem seu papel e não traem seu público. Apesar dos desvios técnicos e éticos, que não são poucos nem irrelevantes, o trabalho dos jornalistas profissionais brasileiros tem sido uma das pouquíssimas reservas de verdade factual com que podemos contar.

Enfim, é por terem um mínimo de credibilidade que os jornais seguirão sob açoite num tempo em que os irracionalismos militantes se exasperam, um tempo marcado pela falta de senso e de coerência lógica, um tempo propício para os populismos de muitos matizes. Vejamos como são as coisas. Todos são unânimes em defender, em tese, que os corruptos sejam punidos; ao mesmo tempo, quase todos são contra qualquer julgamento quando o réu é alguém de seu partido, de sua estima ou de sua idolatria. Segundo a mentalidade da nossa era, corrupção ruim é a “corrupção dos outros”. De outra parte, a Justiça que apura a “nossa corrupção” não é Justiça – é a “Justiça dos outros”.

Logo, qualquer esforço para elucidar os fatos, de modo impessoal e apartidário, tende a ser recebido como um complô imundo para desmoralizar os políticos sacrossantos, pois a imprensa, de acordo com essa alucinação febril, não é nada além de instrumento de algum complô. O fanático menciona o nome de um ou outro jornal e proclama, com ares de profeta: “Você pode até não ver que conluio se esconde atrás das notícias, mas que algum complô existe, ah, pode apostar que existe”.

Chegamos, então, ao paradoxo interessantíssimo que nos aprisiona: no geral, todos concordam que os corruptos devem ser afastados da política e, no particular, todos acusam a Justiça de perseguir com selvageria o líder de sua predileção. Quando Jair Bolsonaro é acusado de fazer apologia da tortura ou do estupro, seus partidários protestam dizendo que tudo não passa de uma conspiração da Justiça e da imprensa. Quando Luiz Inácio Lula da Silva é acusado de fazer vista grossa para desvios oceânicos de dinheiro público, seus partidários protestam dizendo que tudo não passa de uma conspiração da Justiça e da imprensa. De forma quase idêntica, os furibundos de um lado e de outro atribuem à imprensa a causa do que dá errado com seus pretensos mitos salvadores.

A psicologia das massas perde conexão com os fatos. Animadas por líderes irresponsáveis, as multidões creem piamente em irrealidades fantasmagóricas invisíveis. Nossa imprensa se reduz mesmo a isso que dizem seus inimigos? Será que ela não passa de um amontoado de estratagemas mal costurados para derrubar esses e aqueles? As evidências, todas elas, respondem que não.

Um caso bem didático é o do alcaide de São Paulo. Muitos ainda acreditam que ele tenha sido eleito no bojo de uma articulação secreta e dolosa urdida pela “mídia” paulistana. Será? A relação de João Doria com a imprensa está longe de ser uma lua de mel. Ao contrário, a cobertura objetiva das mazelas da metrópole atrapalhou de vez a rotina e as ambições do prefeito. O tratamento que ele recebe no noticiário, visto no conjunto, não é melhor ou pior do que o que foi dispensado ao seu antecessor. Mal ou bem, o jornalismo fiscaliza o exercício do poder municipal. Não houve e não há complô “midiático” para eleger ou para sustentar João Doria.

Outro ponto crucial para avaliarmos a qualidade da imprensa é verificar se ela é um bloco organizado, que se comporta como um partido centralizado, ou se ela abre espaços para a pluralidade. Outra vez, não serão necessários grandes mergulhos teóricos para verificar que há diversidade de pontos de vista nas páginas dos jornais – e também entre os jornais. O pluralismo pode ser acanhado, débil, mas ele está aí.

Uma prova clara disso apareceu quando, em maio passado, o empresário Joesley Batista, numa conversa traiçoeira e esquisita, gravou os “ãs” e “arrãs” de Michel Temer para usá-los num acordo de delação premiada. Os três maiores jornais do País adotaram posições discrepantes, distintas. O Globo pediu em editorial a saída do presidente: “A renúncia é uma decisão unilateral do presidente. Se desejar, não o que é melhor para si, mas para o país, esta acabará sendo a decisão que Michel Temer tomará” (A renúncia do presidente, 20 de maio de 2017.) Os editoriais de O Estado de S. Paulo ficaram do lado oposto: “O vazamento de parte da delação do empresário Joesley Batista para a imprensa não foi um acidente. Seguramente há, nos órgãos que têm acesso a esse tipo de documento, quem esteja interessado, sabe-se lá por quais razões, em gerar turbulência no governo exatamente no momento em que o presidente Michel Temer parecia ter arregimentado votos suficientes para a difícil aprovação da reforma da Previdência” (A hora da responsabilidade, 19 maio de 2017) A Folha de S.Paulo, que tinha sido a única a defender, em 2016, a convocação de eleições gerais, preferiu uma postura de cautela.

Qual dos três tinha razão? Pouco importa. O que importa é que há debate na esfera pública. Há um mínimo de pluralismo. O jornalismo não é o causador da tragédia nacional. A imprensa deve e precisa melhorar, é claro, mas para isso a primeira atitude que os cidadãos e os políticos precisam tomar é parar de mentir sobre ela.

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