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Brasileiras, não está na hora da hashtag “#DelateSeuPorco”?

Da FOLHA

Por CLÓVIS ROSSI

Depois do aluvião de denúncias de assédio sexual que se seguiu ao episódio do megaprodutor Harvey Weinstein, Nicolau Santos, diretor-adjunto do excelente jornal português “Expresso”, tascou como manchete de sua newsletter na quinta-feira (2) a pergunta que não quer calar:

“Ainda falta alguém ser acusado de assédio sexual?” De fato, o número de acusados começa a se assemelhar a uma lista telefônica das antigas, na qual figuram astros do calibre de Dustin Hoffman e Kevin Spacey, e que cobre inúmeros setores e países: o mundo do entretenimento, em primeiro lugar, mas também a moda, o governo britânico (do qual teve que demitir-se o ministro da Defesa, Michael Fallon ), o jornalismo (por exemplo, Michael Oreskes, chefe da divisão de notícias da National Public Radio) e a academia (por exemplo, Tariq Ramadan, badalado especialista em islamismo e famoso polemista).

Parece mesmo que não falta ninguém para ser acusado, como escreveu Nicolau Santos. Só que não: não apareceu, até agora, ninguém no Brasil para acusar alguma personalidade de assédio (exceto o caso, já meio antigo, do ator José Mayer, acusado pela figurinista Su Tonani).

Dá para concluir pelo silêncio ensurdecedor que os homens brasileiros somos todos perfeitos cavalheiros, incapazes de constranger as mulheres? Não é uma hipótese razoável: a cultura machista, base do instinto predador que alimenta o assédio, não é diferente no Brasil.

Se não é razoável, cabe examinar outras hipóteses. Entre elas, a de que as mulheres sentem que denunciar é expor-se inutilmente porque o outro dado cultural muito presente no Brasil (a impunidade) fará com que paguem um preço alto pela denúncia enquanto o denunciado ficará impune.

Talvez não seja mais assim. Na França, por exemplo, explodiu uma campanha com a hashtag #BalanceTonPorc (denuncie seu porco), o que é notável em um país em que uma de cada cinco mulheres é vítima de assédio em seu ambiente de trabalho, conforme pesquisa.

Detalhe: a pesquisa é de 2014, o que significa que as mulheres franceses calaram-se, como as brasileiras, por longo tempo, até que resolveram manifestar-se.

Funciona: a secretaria de Estado para a Igualdade entre Homens e Mulheres, Marlène Schiappa, anunciou no mês passado o lançamento de uma consulta popular para que o governo possa apresentar já em 2018 um projeto de lei “contra a violência sexista e sexual”.

A ideia é permitir que a própria sociedade defina o que é aceitável e o que é inaceitável em manifestações na rua de homens para mulheres (ou de mulheres para homens). Ou, posto de outra forma, estabelecer o limite até o qual há um jogo consentido de sedução e a partir do qual se passa a uma agressão sexual ou injúria pública, explica a secretaria.

Estabelecer limites tão claros quanto possível em assunto tão complexo e controvertido é importante, porque, “embora campanhas com hashtags podem dar sensação de empoderamento para mulheres que antes permaneciam caladas, elas não são o ponto de chegada”, escreve Zosia Bielsky, colunista do canadense “The Globe and Mail”.

Para ela, trata-se apenas do “começo de uma conversa”.

Não passou da hora de o Brasil também começar a conversar a respeito?

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