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Testemunha conta detalhes sobre a prisão do “ejaculador” em ônibus de São Paulo

Por DEBORAH LEE FERNANDES*

Estar, hoje cedo, no mesmo ônibus onde o abusador (que foi solto esta semana) atacou de novo me fez refetir.

Sábado. 7:50. Pego, como habitualmente, meu ônibus na Brigadeiro Luís Antonio.

Já antes de chegarmos à Paulista, observo um comportamento estranho de um homem. O ônibus não estava cheio e ele empacou perto da porta do fundo, na frente de um assento ocupado por uma mulher, atrapalhando quem queria descer. Pego transporte público e ando nas ruas, a qualquer horário, desde meus 11/12 anos e tenho uma parabólica nos olhos .

Decidi observar melhor o moço. Ele de costas para mim (eu estava sentada na fileira oposta), sacolinha plástica na mão direita, segurando no cano. Fui direto para a outra mão. Na frente do corpo. Achei esquisitíssimo. Travei meus olhos na mão esquerda, para ver se via um mínimo movimento que fosse. Estava imóvel. Comecei a esticar o pescoço , procurando os olhos da moça que estava sentada no banco à frente do moço. Ela estava calma. Comecei a olhar em volta, para ver se mais alguém estava tendo a mesma impressão que eu. Ninguém nem tchuns. Pensei, “esta paranóia ainda vai me trazer problemas”.

O ônibus parou no outro ponto, movimento para uma ou duas pessoas descerem, o moço ali empacado. No momento em que a porta se fechava, a moça que parecia calma começa a gritar, pedindo para parar o ônibus. Saco na hora o que estava acontecendo. O homem, alto e forte e com um boné enterrado na cabeça, tenta fugir pela porta que se fechava. Levanto, vejo a cara do sujeito: o mesmo que vi dias atrás nos jornais. Seguro o braço dele, a moça berrando, digo para o motorista chamar a polícia, ele hesita e digo que é o moço que foi solto ao longo da semana. Um rapaz que estava sentado no fundo, dá uma gravata no homem e o bloqueia contra a porta.

A moça entra em crise de choro, todas as mulheres no ônibus, inclusive eu, dizem estar tremendo. O moço da gravata segue imobilizado o abusador, que permanece de cabeça baixa, sem reação.

Só aí me dou conta de que a maioria esmagadora do ônibus é composta de mulheres. Fora o motorista e o cobrador, que estão fora do ônibus, chamando a polícia, há 3 homens: o abusador, o moço da gravata e um senhor, cuja presença só notei porque saiu do seu banco para bater no abusador. Como continuo montando guarda ao lado do perturbado, interfiro e impeço o senhor de bater nele. Ele, o senhor, fica indignado e digo que só quem tocará no cara será a polícia. Ele tenta crescer na voz e eu cresço mais ainda. Começa um bate boca e o senhor fica no canto dele, muito bravo.

Neste momento, quando me dou conta, tem um cara com um tipo de marreta metálica fora do ônibus, tentando forçar a porta para entrar; outro começa a pular para ver a cara do sujeito pela janela. Ponho a cabeça para fora da janela e digo que ninguém tocará no moço. Um cara mais fortão tenta abrir a porta, digo que vou filmá-lo, se ele insistir, e que vamos aguardar a polícia e ninguém tocará no moço. Parece que o argumento da filmagem é suficientemente forte e a turba se acalma.

Uma mulher se vira para mim e fala:

– Ainda bem que um homem segurou ele.

Fico um pouco desnorteada e respondo:

– Nos também poderíamos tê-lo segurado. Você já viu quantas somos aqui dentro?

(…)

Poucos minutos depois, chega a polícia. Um homem e uma mulher. A ação policial, até onde vi, foi correta.

Finalmente, desço do ônibus e sigo a pé, para que a tremedeira termine: adrenalina demais.

Questões demais:

– Será que os caras que queriam linchar o abusador tratam bem suas mulheres? Será que não babam vendo menininhas? Será que não dizem gracejos nojentos às mulheres que passam?

– Por que as antenas femininas andam tão enferrujadas?

– Por que as mulheres ainda esperam a salvação vinda dos homens?

– Por que o SUS, que paga cirurgia de mudança de sexo (com o que concordo plenamente), não tem um programa de terapia hormonal para abusadores compulsivos?

– Será que ninguém ainda entendeu que se não barrarem este tipo de comportamento nesta criatura perturbada, ele cometerá atos mais e mais graves?

– Será que não dá para ver que ele mesmo está pedindo para ser “parado”?

– Até quando as pessoas vão querer reagir com violência, diante da violência?

“Festa estranha, gente esquisita”

*DÉBORAH é leitora do Blog do Paulinho há muitos anos, quase desde o início.

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2 Respostas to “Testemunha conta detalhes sobre a prisão do “ejaculador” em ônibus de São Paulo”

  1. André Brockhof (@brockhof) Says:

    E a cretinice de jogar todos no mesmo cesto continua, por causa de um todos serão penalizados!
    Esse cidadão tem problemas, tem, mas que ele seja o único a pagar e não o restante!
    Cada dia mais se criam “leis” absurdas defendendo algum grupo, e em vez de melhorar a coisa só piora, será mesmo que não entendem que a raiz do problema esta na educação?
    A familiar e a da escola essa é cada dia mais negligenciada fazendo com que pais e mães não tenham medo de serem pais por causa dos ECAs da vida. Tudo culpa dos esquerdóides que se apossaram da área de humanas nas faculdades e seguem idiotas como paulo freire! Enquanto eles seguem na luta incessante de destruir a família Nas escolas o absurdo que virou a educação é de dar vergonha até em analfabetos que não tiveram a chace de estudar, crianças de 9-10 não sabem multiplicação, estudante de universidades precisando de revisões do ensino fundamental porque não sabem escrever! Onde vamos parar?

  2. Cassio Moura (@casrsm) Says:

    O relato sobre o que ocorria foi importante mas quando o foco mudou para o feminismo é de se enojar, a moça justifica dizendo que eram várias mulheres no ônibus e que poderiam fazer alguma coisa, eram elas várias mulheres lutadoras??? Por mais que as mulheres não queiram entender ou façam de tudo para querer mudar os fatos, os homens fisicamente são mais fortes do que as mulheres.

    Não se pode usar esse relato pra criar um discurso contra os homens em geral, quer dizer que ser chamada de gostosa na rua é o mesmo que uma ejaculada ou ter a parte íntima tocada?? Os homens de uma maneira geral repugnam esse tipo de ato. E não sou hipócrita todos nós desejamos mulheres bonitas em ônibus, metrô, balada, rua ou seja lá o que for o lugar, a diferença é que nos controlamos e apenas guardamos este desejo em nossas cabeças.

    O cidadão em si deve ser preso e tratado, nisso ela tem razão, despejar o ódio sobre todos os homens por conta do erro de um ou uns é um ato discriminatório tal qual os que ela repugna.

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