Colunista-torcedor faz mal ao jornalismo esportivo

Da FOLHA

Por MAURICIO STYCER

  • Mesa Redonda, da Gazeta, foi pioneiro de um estilo que degenerou em piada ruim
  • Roberto Avallone e Chico Lang pelo menos eram engraçados

Sempre apaixonado por futebol, descobri o Mesa Redonda assim que troquei o Rio por São Paulo, em 1986. O programa da Gazeta, exibido nas noites de domingo, era eminentemente focado no futebol paulista, mas esse era o menor do seus problemas, ou atrativos, como eu logo iria descobrir.

Entre os muitos profissionais que conheci no Mesa Redonda, Roberto Avallone e Chico Lang, em particular, me tornaram espectador assíduo. Avallone era palmeirense doente e dava um tom teatral à coisa: “O que está acontecendo com o Santos, interrogação?”. Ou: “Que golaço, exclamação!”.

Já Lang, corintiano até a raiz do cabelo, era praticamente um representante da fiel torcida no programa. Como todo apaixonado, deixava transparecer os sentimentos do torcedor da arquibancada.

Como só falavam dos times paulistas, eu achava graça nas discussões acaloradas, sem qualquer preocupação de isenção jornalística. Era como se fosse um programa de ficção, não de jornalismo, com ações comerciais em forma de depoimentos entusiasmados.

Com a chegada, na década de 1990, do Cartão Verde, na TV Cultura, e dos canais SporTV e ESPN, na TV por assinatura, todos eles mais sérios do ponto de vista jornalístico, e com mais recursos, o Mesa Redonda foi perdendo a minha audiência.

Avallone, morto em 2019, e Lang, recém-demitido, após mais de 30 anos de carreira na Gazeta, restam como pioneiros de um estilo que eu via como divertido, mas que tomou uma proporção maior e hoje afeta negativamente o jornalismo esportivo.

Trata-se da presença cada vez mais incômoda do “colunista-torcedor”, o jornalista cujo clubismo explícito o leva a colocar em primeiro plano a paixão por um determinado time. Figuras com esse perfil hoje dão as caras em canais pessoais no YouTube, em programas de TV na internet, podcasts, transmissões de partidas de futebol na TV paga e, às vezes, até na TV aberta.

O colunista-torcedor é fruto, entre outros, da precarização da profissão de jornalista nos últimos dez anos. Com menos empregos, diversos profissionais se viram obrigados a apostar em empreendimentos individuais, via YouTube, redes sociais e free-lances variados, trabalhos em que a remuneração está direta ou indiretamente ligada ao desempenho e à popularidade, ou seja, ao número de cliques e visualizações.

Quando falo em “colunista-torcedor” não estou me referindo ao fato de jornalistas esportivos terem time de preferência. Todo mundo tem. Não é um problema para os bons profissionais, e eles são muitos.

Em 1997, ao chegar às bancas, o diário esportivo Lance! reinventou o “colunista-torcedor”. Sob a rubrica “Fala, doente!”, eram tipos de ficção, criados em chave de humor, com nomes e epítetos que não deixavam dúvidas sobre ser uma piada.

Essa diversão aparentemente inofensiva mudou de patamar no século 21. Grandes portais criaram áreas de “blog dos torcedores” ou “lives” de times populares. Comandados por jornalistas jovens, ou por profissionais ainda sem grande projeção no mercado, atingiam nichos muito específicos, frações de torcidas.

Hoje, a descontração e o clubismo assumido em ambientes de nicho ganham “cortes” de vídeo e frequentemente transbordam para as redes sociais, onde alimentam bate-bocas que, não raro, se tornam campo inóspito para pessoas minimamente civilizadas.

Jornalistas experientes, igualmente carentes de cliques, adotam postura agressiva em relação a temas variados ou abertamente clubistas, retroalimentando conversas que frequentemente degeneram em bate-boca de baixíssimo nível. Avallone e Lang pelo menos eram engraçados.

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1 Comentário

  1. Avallone e Chico Lang sempre foram chatos, da mesma maneira o pseudo-imparcial Juca Kfouri e afins.

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