Anúncios

O menino torcedor e seus tantos amores

Por JOSE RENATO SATIRO SANTIAGO

Vivi minha infância durante a década de 1970. Confesso ser ‘uma das viúvas’ de umas das maiores revistas esportivas de toda história, a Placar, onde tive a oportunidade de atuar profissionalmente parte do ano passado, durante o curto período em que ela esteve sob gestão da Editora Caras, a pedido de um amigo único, Edgardo Martólio.

Costumo falar que aprendi a ler com ela. Naquele tempo o futebol era quase o ar que eu respirava. Minto, era o ar mesmo. Por conta do Tabelão, seção da revista que trazia os resultados de jogos de todos os estados brasileiros, passei a acompanhar vários times e, de alguma forma, a torcer por um em cada estado. Usava diferentes critérios, alguns muito particulares, confesso.

Dois deles são os meus maiores amores, acima de todos os demais. Sim, há diferentes formas e intensidades de amar, sendo assim São Paulo e Ceará estão no topo. Entre eles, posso confessar, há uma cor a mais que define a primeira colocação. Ainda assim há motivos razoáveis por estas escolhas.

Em São Paulo e no mundo, como já afirmei, sempre fui tricolor, muito por conta do meu tio, Fernando Sátiro, ter jogado lá. Ele fez parte da equipe titular que inaugurou o estádio do Morumbi em 2 de outubro de 1960. Já no Ceará, ainda que meu tio bisavô, Alcides Santos, tenha fundado o Fortaleza, e o vizinho da minha avó, Waldemar Caracas, o Ferroviário, sempre fui Vozão, o Ceará Sporting Club, devido ao fato de meu avô, Felipe, ser alvinegro. Já nos outros estados, dá lhe particularidades!!! Vamos lá…

No Rio de Janeiro, sou Goytacaz. Motivo? Sempre achei o nome, de origem indígena, muito legal. Confesso também que sequer sabia que o alviceleste, rival do Americano, era da cidade de Campos dos Goytacazes, distante quase 300 km da capital. Em Minas Gerais, torço pelo alvirrubro Valeriodoce, da cidade de Itabira, cujo nome se originou da empresa que bancou o seu futebol durante muitos anos, a mineradora Vale do Rio Doce. Para fechar a região sudeste, no Espírito Santo, por ter um primo chamado Mateus, filho de dois queridos João Mascarenhas e Benedicta, escolhi outro alviceleste, o São Mateus.

Indo para a região sul, no Rio Grande do Sul, sempre gostei da camisa grená do Caxias, o que me fez seu torcedor. No entanto, por ter um amigo muito querido, Dr. Francisco Michielin, ferrenho seguidor do rival, Juventude, me permiti a virar casaca. No Paraná, mais uma vez o critério da ‘muito particular beleza’ do nome, sou Matsubara. O alviverde, originalmente da cidade de Cambará, foi criado pela família oriental homônima. Por fim, em Santa Catarina, me acostumei tanto a ver o Joinville campeão, durante os anos de 1970 e 1980, octacampeão naqueles tempos, que sou JEC.

Saltando para o Centro Oeste, em Goiás, sou Anapolina, a Xata, por um motivo meio absurdo. A perda do título estadual de 1981, no tapetão para, o Goiás. Mas, como sou cheio contradições, tenho simpatia também pelo alviverde. Com especial menção honrosa ao Atlético, cujos fundadores flamenguistas e são paulinos, o fez rubro negro com o distintivo similar ao meu tricolor paulista. No Mato Grosso do Sul, sou Operário, o alvinegro do goleiro Manga, que perdeu por 3 a 0 para o São Paulo nas semifinais do campeonato brasileiro de 1977, em partida que, juntamente com meu pai, não consegui entrar no estádio, completamente lotado. No outro Mato Grosso, sou o alviceleste Dom Bosco, mesmo nome do colégio perto da escola onde estudei, o Santa Inês, no bairro do Bom Retiro, na zona norte de São Paulo. Por fim no Distrito Federal, sou Guará, não sei bem porque, talvez por ser um tricolor com uma diferente combinação de cores: amarelo, preto e branco.

No nordeste, na Bahia, ainda que tenha suportado muito pressão familiar, sobretudo dos meus primos que moravam em Salvador, todos tricolores, sempre achei o alviceleste Itabuna, equipe homônima da cidade natal de Jorge Amado, o mais legal. Em Sergipe, mais um alviceleste, desta vez apenas para ser ‘do contra’. Pelo motivo do Sergipe e do Itabaiana ganharem, naquela época, a maior parte dos títulos, sou Confiança. No Rio Grande do Norte, sou ABC, pelo fato de um dos maiores ídolos da história da equipe alvinegra potiguar, ser Sérgio Alves, que também é um dos grande nomes do futebol do meu Vozão. Em Alagoas, eram muitas siglas para escolher, CRB, CSA, CSE, ASA e tantos outros. Por isso escolhi um clube que tinha um nome. No caso, o alvirrubro Penedense, da cidade de Penedo. Acho simpáticos os times cujos nomes acabam com ‘ense’.

No Pernambuco, a minha primeira lembrança futebolística é do Santa Cruz, que teve um timaço nos anos 1970, batendo, como visitantes, Flamengo e Palmeiras. Foi lá também onde se destacou um dos meus ídolos, o zagueiro Lula Pereira. Mas por ter grandes amigos alvirrubros, dentre eles, Mestre Roberto Vieira, Carlos Celso, Lucídio e Lenivaldo, sou Timbu, o Náutico. No Piauí, sou tricolor, o Ríver, do Pelé piauiense, Sima e que durante anos teve um distintivo similar ao do meu tricolor paulista. Nos últimos dois estados nordestinos, escolhi torcer para dois times, em cada, e rivais, veja se é possível. No Maranhão, sou Sampaio Corrêa, a quem chamava erroneamente, quando criança, de “São Paulo Corrêa”. Mas também sou Moto, porque?  Simples, foi fundado no dia do meu aniversário, 13 de setembro. Fica a dica. Este também foi o critério para escolher o Treze na Paraíba. Como deixar de torcer para uma equipe que se chama o dia do seu aniversário? Mas lá, também sou Botafogo da Paraíba, alvinegro como o homônimo do Rio de Janeiro e que ao ganhar uma estrela vermelha, se tornou tricolor, o meu ‘fraco’.

Chegando no Norte, primeiramente em Manaus, onde morei por alguns anos. Escolhi o Fast no Amazonas, por ser o único tricolor com 4 cores. Mas tenho simpatia pelo Rio Negro, nome de um dos mais belos rios do mundo. No entanto, por conta de um amigo, Amarildo, sou alviverde, Iranduba, ainda que a camisa mais bonita seja do Sul América, tricolor: vermelha, azul e branca. No Pará, sempre tive simpatia pelo Remo, azulino com cores fortes, mas por ter muitos amigos torcedores do Papão, o Paysandu, dei uma sútil virada de casaca.

Vinte e dois estados, mais o Distrito Federal. Naquele tempo, eram estes os meus limites. A revista Placar não costumava cobrir o futebol do Acre, Amapá, Rondônia e Roraima. O estado de Tocantins sequer existia. Eis que aqui completo minha lista. No Acre, do meu amigo Manoel Façanha, sou Rio Branco, o estrelão cujo cor vermelha representa o sangue dos mortos pela luta em prol da anexação da área ao país. No Amapá, sou o São Paulo local, por motivos óbvios. Em Rondônia, sou alviceleste, Ji-Paraná, pela etimologia do nome indígena, yî (machado) e paranã (grande rio), alusão ao grande número de pedras que se parecem com machados indígenas. Já em Roraima, sou alvirrubro, Náutico, homônimo ao meu timbu pernambucano. Por fim, Tocantins. Afinal alguém pode torcer por algum time lá? Sim, eu sou Alvorada, nome do bairro manauara próximo de onde morei.

Trinta e tantos times, será que há algo mais apaixonante que futebol?

Anúncios

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: