Não adianta nada reclamar dos políticos se nós entramos no jogo

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Da FOLHA

Por MARILIZ PEREIRA JORGE

Você viu o jogo da seleção contra a Argentina? Eu, não. Você vibrou com os três gols contra a Argentina? Eu, não. Você acha que ter vencido por 3 a 0, e logo contra os hermanos, deu uma aliviada no 7 a 1 que levamos na Copa, exatamente no Mineirão?

Vamos ser honestos. Pouco importa se a seleção voltou a jogar bem. Pouco importa se Tite está sendo aclamado pela torcida. O mando desse jogo continua sendo da CBF, uma entidade com um presidente indiciado por corrupção e um ex-presidente preso nos EUA.

Um amigo chegou a dizer: “Essa seleção dá gosto de ver depois da chegada do Tite”. Acho um desgosto. É público e notório que seis meses antes de aceitar o cargo de técnico, Tite assinou um manifesto cobrando a renúncia de Del Nero, para que fossem feitas eleições livres e democráticas para o comando.

Eu não apenas sei como assinei o mesmo manifesto. Sinto-me meio palhaça por ter feito parte daquele circo e agora ver Tite posando de bonito ao lado de Del Nero.

Vou voltar a bater na mesma tecla. Todo mundo esqueceu que temos um ex-presidente da CBF preso em Nova York e que o atual não sai do país com medo de que a Interpol o mande para o xilindró?

Vejo gente que fazia piada de quem ia para manifestação na Paulista vestindo a camisa da “entidade mais corrupta do futebol” e agora torce e aplaude a seleção comandada pela “entidade mais corrupta do futebol”.

É todo mundo conivente. Do técnico aos jogadores, do público que esgota os ingressos à audiência da TV, do pessoal que celebra nas redes sociais aos jornalistas que acham que a seleção é uma coisa e a CBF outra. Não é. A seleção é a CBF, e ninguém parece se importar com isso.

Como dizem por aí, não adianta reclamar dos políticos se entramos no jogo e fechamos os olhos para a bandalheira quando nos é conveniente. Parar em fila dupla, subornar policial, sonegar imposto, comprar produtos baratinhos graças a trabalho escravo ou torcer por um time comandado por bandidos é tudo a mesma coisa.

A gente faz vista grossa quando interessa. Está errado.

E, pelo andar da carruagem, tudo vai continuar como está. Em setembro, a CPI do Futebol foi extinta na Câmara dos Deputados sem que nenhum dos indiciados pela Justiça americana fossem ouvidos. Del Nero sequer foi convocado porque os requerimentos para sua convocação nunca foram votados. Ricardo Teixeira tinha depoimento marcado para 14 de junho. Simplesmente não compareceu e ficou por isso mesmo.

Essas pessoas zombam da nossa cara, enquanto ficam milionários, e a gente bate palma.

No Senado, a CPI se encerraria em agosto, mas foi prorrogada para o final do ano porque 54 senadores pediram a extensão das atividades. Isso porque, em abril, o presidente do Senado, Renan Calheiros, suspendeu a convocação de Ricardo Teixeira e Del Nero, numa manobra inexplicável, sem amparo no regimento interno da casa.

Não é uma maravilha?

Dunga caiu, Tite assumiu, a seleção voltou a ganhar, a indignação das pessoas sumiu, a pauta corrupção desapareceu. O que me faz pensar: estávamos de fato perplexos e revoltados com a forma como os negócios do futebol são feitos ou apenas magoados porque nosso tão valioso patrimônio nacional andava estrebuchando à beira da morte?

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