Pussygate

hillary e trump

Da FOLHA

Por RUY CASTRO

Em 1972, Art Buchwald era o humorista mais famoso do mundo. Sua coluna, publicada no “Washington Post”, saía em 600 jornais e revistas. No Brasil, Art pertencia à “Manchete”, e, entre minhas atribuições como redator da revista, estava a de traduzi-lo. Não era difícil —ele escrevia bem e simples. Até que, numa coluna de meados daquele ano, referiu-se a algo chamado Watergate.

Watergate? O que seria isso? Perguntei a um colega, Raimundo Magalhães Júnior —escritor, membro da Academia, ex-morador de Nova York e autor de dicionários de expressões em inglês—, e ele também não sabia. Fui aos outros, um por um: Justino Martins, Mauricio Gomes Leite, Roberto Muggiati, Carlos Heitor Cony, Cícero Sandroni, Narceu de Almeida, Marcos de Castro, Heloneida Studart, Flavio de Aquino, Irineu Guimarães —esta era a incrível Redação da “Manchete”. Ninguém sabia.

Nem podia saber. Watergate era o nome do edifício onde ficava a sede do Partido Democrata, em Washington, arrombada por elementos do Partido Republicano em função da sucessão presidencial dali a meses. Isso acontecera na noite de 17 de junho, e levaria algumas semanas para vazar. Art deve ter sido um dos primeiros colunistas a tocar no assunto. Bem, um ano depois, o planeta em massa saberia o significado de “Watergate”.

Hoje, outro episódio envolvendo a sucessão americana ganha também um nome sugestivo: Pussygate. É um trocadilho envolvendo “pussy” —eufemismo para “vagina”— com Watergate. Refere-se às grosseiras declarações do candidato republicano Donald Trump sobre como ele tratava as mulheres.

Por causa de Watergate, Richard Nixon teve de deixar a Presidência. Por causa do Pussygate, Trump sequer chegará lá. Porque, se chegar, toda vez que ele abrir a boca o mundo precisará tirar as crianças da sala.

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