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Palavra do Magrão

Vem aí uma farra olímpica?

Por SÓCRATES

http://www.cartacapital.com.br/app/coluna.jsp?a=2&a2=5&i=5243

A maioria dos comentários sobre as consequências da escolha do Brasil como sede de uma Olimpíada vem acompanhada de uma dose de otimismo que vai além dos argumentos lógicos nos quais podemos nos apoiar neste exato momento. E, claro, pitadas de entusiasmo nacionalista.

Ou seja, estamos mais uma vez exagerando nas expectativas positivas. E, pior, rejeitando cuidados como se fosse um grave pecado especular sobre os possíveis erros ou manipulações do poder ofertado aos brasileiros com a escolha do Rio como anfitriã do megaevento. Mas não devemos nos preocupar com isso porque esta é a nossa cultura: negar seu poder de crítica e de controle dos atos dos governantes para não assumir as responsabilidades próprias da cidadania.

Os que temem a má gestão dos recursos para preparar a cidade até 2016 possuem todas as evidências possíveis para respaldar suas preocupações. Basta para tanto recordar o que foi feito (e o que não foi feito) durante a realização do Pan-Americano na mesma cidade e pelos mesmos dirigentes.

Será que, desta vez, eles farão coisa melhor? Talvez, mas é difícil acreditar. Muito do que foi construído deveria levar em conta a possível Olimpíada. Conforme, aliás, o discurso reiteradamente utilizado para explicar a pretensão brasileira anterior. Torço para que tudo dê certo e que o Rio volte a ser a cidade maravilhosa, porém, nessas mãos e sem controles não acredito na possibilidade.

E o que aconteceu no Pan-Americano? Como era previsto desde o início, o governo federal não parou de injetar recursos na organização da competição disputada em julho de 2007 na capital carioca. Através de inúmeras medidas provisórias, o Planalto liberou muito mais do que esperava. Um poço sem fundo instalou-se nas contas do evento, mas só quem não conhece os gestores do nosso esporte se surpreendeu.

De um orçamento – provavelmente fictício – de 500 e poucos milhões de reais, quando da apresentação da postulação do Rio, gastou-se dez vezes mais. A meu ver, um grande absurdo.

Com a vaga garantida, rezava a lógica de quem resolveu se atirar nessa aventura, não haveria condições de voltar atrás. E os vários poderes do País, para não dar um extraordinário vexame internacional ao não conseguir realizar a competição, assumiriam o ônus do investimento. E foi exatamente o que ocorreu da forma mais escancarada possível.

Interessante é que as entidades de administração do desporto brasileiro sempre utilizam uma postura de independência em relação aos poderes constituídos, assumindo o papel de entidades privadas não sujeitas a determinadas ações do Estado. Quando têm de encontrar parceiros para viabilizar os seus projetos, contudo, não o conseguem por falta de credibilidade e sempre caem no colo do Tesouro, implorando pelo dinheiro público. Que nem sempre é encaminhado para os objetivos propostos. Mais uma vez somos nós – você, eu, o vizinho – que sempre pagamos pela esperteza desses senhores.

Mas será que uma oportunidade como essa (única e especial) não poderá gerar muitas coisas positivas para a cidade e para o País? É claro que sim! A realização da Olimpíada no Rio de Janeiro terá necessariamente de servir como referencial para o futuro do desporto nacional. Há possibilidade de que esse evento possa permitir um estímulo dos mais importantes para o desenvolvimento dos chamados esportes olímpicos e o aumento do número de praticantes, o que também pagaria uma pequena parte da dívida social.

Poderá também, desde que os investimentos realmente sejam voltados para tal, melhorar e muito a qualidade de vida na capital fluminense. Com ações como a despoluição de seus mananciais e da Baía da Guanabara, o aumento substancial nas linhas do Metrô e outros transportes públicos e dos leitos de sua hotelaria, maior exposição turística para mundo menos informado, e muito mais.

Se a organização e o planejamento conseguirem produzir infraestrutura adequada à importância do evento, teremos grandes possibilidades de dar um salto de qualidade na nossa competência esportiva. É disso que precisamos e é isso o que queremos.

Temos de ter em mente que a imagem do País estará em jogo – e não sei até onde estão levando a sério essas questões para que consigamos contemplar todas as expectativas. Temos de esperar para ver e torcer para que tudo dê certo. Pelo bem do nosso esporte e pela imagem da nação brasileira.

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2 comentários sobre “Palavra do Magrão

  1. Fernando

    O Dr. Sócrates falo tudo e mais um pouco! Esse texto devia ser vinculado em rede nacional!

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