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Palavra do Magrão

Para que serve a concentração?

http://www.cartacapital.com.br/app/coluna.jsp?a=2&a2=5&i=4497

Por SÓCRATES

Quando definitivamente entrei em contato com o mundo do futebol, egresso que sou de uma família de classe média voltada para a educação de seus filhos e filhas, assustou-me conhecer alguns de seus dogmas mais profundos. Um deles (explicitado em frases como: “Quem não bebe não joga”) estimulava a contracultura esportiva e só por isso poderíamos entender que havia ali, no inconsciente coletivo, um quê de insatisfação ou uma revolta latente que, percebi, possuía como alvo algumas das mais tradicionais normas presentes de há muito neste meio. E uma em especial – a arcaica e desagradável “concentração” – provocava famigerados calafrios os quais, imaginei, poderiam levar a uma insurreição social desde que esta comunidade se organizasse adequadamente. Pelo menos, foi isso que senti naqueles primeiros anos, pois me parecia inacreditável que em tempos tão “modernos” ainda se utilizasse tamanha aberração.

No início, o isolamento compulsório, às vezes, ultrapassava 48 horas para cada jogo. Como fazíamos duas partidas por semana tínhamos menos tempo livre que os condenados em regime aberto. O pior é que ficávamos em uma casa apertada, cheia de beliches, literalmente uns em cima dos outros. De cara, portanto, passei a questionar aquela prática. Não podia entender como as razões de sua existência podiam ser tão frágeis. “Para que vocês não façam besteiras.” Até parece! Como se todos nós fôssemos crianças descobrindo o que nos rodeia com uma incontrolável tentação para tocar, sentir e talvez quebrar algum valioso objeto ou joia de família.

Em vez de nos educar, esses pseudopais estavam tentados a nos tolher a necessidade da descoberta e obviamente do aprendizado da vida em sociedade. Éramos tratados como incapazes de saber o que é certo ou errado por culpa de sérias deficiências comportamentais. E o pior é que dentre essas “besteiras” incluía-se o sexo. Ora, façam-me o favor, desde quando o ato sexual atrapalha o que quer que seja? Só se for na cabeça deles. Com o tempo, consegui encurtar o absurdo a 24 horas, no máximo, mas ainda era muito. Como estava na faculdade, passei a me escalar nos plantões de sábado e assim não perdia o meu tempo.

A pior coisa do mundo é a ociosidade. E isto é o que não falta num ambiente desses. Quando chegava do hospital invariavelmente fazia um teste. Separava as páginas esportivas do meu jornal de todo o resto. A cobertura política, econômica, de variedades, de literatura e todas as outras nunca eram tocadas. Nunca mesmo. Ainda bem, pois assim podia usufruir o que me interessava com tranquilidade. Também descobri que o que provoca o desatino de beber em demasia e da busca incessante por mulheres é exatamente esta prisão. Imediatamente após a libertação, se quer fazer tudo o que não pôde ser feito. E isso em poucas horas. É o resgate do tempo inutilizado. É a compensação. É uma forma de reagir. É a insubordinação. Um dia eu haveria de mudar aquilo. Não poderia me conformar.

Chegando ao Corinthians, com a implantação da democracia corintiana, um dos assuntos que mais me interessavam era a dita-cuja. Puxa, mas a turma não queria mudar. Também, a concentração serve para proteger os mais frágeis da opinião pública. Demoramos seis meses para torná-la opcional. A partir daí, era uma maravilha. Ficávamos em casa, brincávamos e educávamos nossos filhos, jantávamos com nossas famílias, comíamos o que estávamos habituados com o tempero que gostávamos, dormíamos com nossas mulheres e fazíamos sexo – por que não? Tomávamos o café da manhã acompanhado do nosso jornal predileto, líamos um livro antes de ir para o hotel, chegávamos junto com a família e íamos todos no ônibus para o estádio. Corríamos como crianças. Tínhamos prazer em jogar e em divertir nosso público. Era um tesão. Tesão em viver e trabalhar com liberdade. O resultado, todos já conhecem.

Ainda que não tenhamos conseguido contaminar o meio, mostramos que é possível fazer com que o jogador de futebol se comporte como verdadeiro profissional. Esta semana, o tema voltou à baila. Ronaldo reclamou do tempo destinado ao confinamento e as práticas da democracia corintiana foram relembradas. Foi como se um sopro de liberdade tivesse nos tocado a face. Ainda é pouco, porém a esperança é como uma ave isolada. Mesmo triste e solitária, jamais deixa de sorrir quando a brisa lhe envolve as plumas arrepiando seu corpo depauperado, permitindo que volte a sonhar e a alçar voos para plagas distantes. O que os acomodados jamais tentarão, apequenados em suas convicções tacanhas.

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7 comentários sobre “Palavra do Magrão

  1. Fernando

    Eis aqui a tabelinha, fora dos gramados, de dois ídolos corinthianos de eras distintas: o Doutor e o Fenômeno!

  2. Alexandre

    Ah se todos fossem iguais ao magrão… O futebo, seria muito melhor.

  3. Lucas Cavalcante

    Dr. Sócrates, eterno ídolo!

    Se as concentrações hoje fossem como era na época da democracia corinthiana, os jogadores desprovidos de cérebro iriam chegar de ressaca no dia do jogo, cansados por terem transado a noite inteira com garotas de programa, ou depois de comer uma baita macarronada em casa e ter uma indigestão durante o jogo.

    Infelizmente, nem todos teriam maturidade para lidar com uma situação semelhante à da democracia corinthiana!

  4. Marcelo Pereira da Silva

    Sou a favor da concentração em partidas decisivas. Acho que ajuda a manter o time focado e unido.

    E apesar de entender as reclamações dos jogadores, não consigo achar tão ruim assim a concentração. Os caras ficam num hotel com vários amigos, comida boa e diversas opções de lazer por 1, 2 dias. Depois saem dali direto para o trabalho, que é… jogar bola! A noite de domingo e a segunda-feira são livres, pra comemorar ou afogar as mágoas em boates agitadas repletas de lindas marias-chuteiras. Quatro semanas depois chega o salário, nunca menos de 50 mil reais.

    Juro que entendo do que eles reclamam. Mas essa é a minha visão do Paraíso…

  5. Titan

    Jogador de futebol tem dinheiro e fama demais pra ficar livre.

    Tem que tratar como criança porque agem como criança.

    O próprio Ronaldo levava o elenco da Copa de 2006 pra farrear e todo mundo viu o fiasco que foi.

    Nunca vi ser mais reclamão que jogador de futebol, ganha grana pra jogar bola – coisa que a maioria de nós paga pra fazer – e com pouco mais de 30 anos se aposenta.

    Meu blog: http://www.blogdotitan.wordpress.com

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