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Colunista da Folha em apuros

Por ALBERTO DINES  

http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=542IMQ001

Não são poucos os jornalistas que se sentirão aliviados no dia em que a Folha de S.Paulo anunciar que José Sarney, seu colaborador das sextas-feiras, licenciou-se, aposentou-se ou ganhou o Nobel de Literatura e, por isso, deixará o jornal.

O vexame não atinge apenas os jornalistas que trabalham na Folha, familiarizados com a simbologia da Página 2, onde germinou a extraordinária ascensão do jornal em junho de 1975. A presença de Sarney nesta página é afronta gremial, corporativa, mexe com os brios dos profissionais brasileiros empenhados em fazer do jornalismo o ofício da decência e da consciência.

Apesar do maciço monolitismo que domina a grande imprensa, a Folha de S.Paulo conseguiu a façanha de ficar sozinha no incrível apego ao ex-presidente da República. Em apenas cinco meses, depois de uma controversa carreira de mais de meio século, o senador converteu-se em unanimidade nacional: o mar de lama que afoga nosso Legislativo é fruto da sua leniência e da sua complacência com a malfeitoria e a prevaricação.

A direção da Folha sabe disso, há tempos admite que a permanência de Sarney no seu quadro de colaboradores e amigos respinga na sua imagem nódoas indesejáveis, compromete a sua história, coloca suspeições onde só deveria existir transparência.

Os responsáveis pelos destinos da Folha, agarrados às birras juvenis, perderam uma magnífica oportunidade de dissociar-se da figura de Sarney em fevereiro, quando foi novamente alçado à presidência da Câmara Alta e à chefia do Legislativo. Outros colaboradores com currículos mais respeitáveis e em posições potencialmente menos conflituosas foram afastados sem dor, com naturalidade. Sobretudo sem ruído.

Atração fatal

No caso de Sarney, há uma estranha e perturbadora atração, verdadeira atração fatal: o jornal que se jacta de ter o rabo preso com o leitor tem o dito-cujo preso com o destino do parlamentar que no momento encarna a degradação do processo político.

Os estrategistas da Folha imaginaram que seria possível mantê-la distante das estripulias do senador. Quando os seus concorrentes Estado de S.Paulo e, logo em seguida, O Globo começaram a desvendar a incrível novela dos atos secretos, evidenciou-se que a Folha – como, aliás, era previsto – encalacrava-se junto com o seu dileto articulista.

O furo com a denúncia dos 300 atos clandestinos coube aos repórteres Rosa Costa e Leandro Colon, do Estadão, na quarta-feira (10/6). Surpreendidos, Folha e Globo entraram com naturalidade no assunto na edição seguinte (quinta, 11/6). Vocacionada para protagonismos, imaginava-se que a Folha logo trataria de ultrapassar o Estadão.

Quem se juntou ao Estadão foi O Globo, na sexta-feira (12/6), em reportagem de Gerson Camarotti: os atos secretos não eram 300, mas quase o dobro – 500. A Folha ficou visivelmente para trás. Neste dia, na discreta chamada na capa, o jornal explica que uma comissão examina desde 1995 os privilégios produzidos pelos atos secretos.

Sarney fora da pauta

Para disfarçar o desconforto, a Folha opinou no sábado, mas distanciou o escândalo da pessoa de Sarney: “Senado secreto” foi o título do principal editorial da Página 2. O nome do fiel colaborador não aparece uma única vez, embora aparecesse com destaque no noticiário dos dias anteriores.

O Estadão também opinou no sábado, mas ao contrario da delicadeza do concorrente entrou de sola com um editorial sob o título “Corrupção secreta”. O envolvimento de José Sarney é detalhado num extenso parágrafo.

Quem tocou na complicada relação de Sarney-Folha foi o colunista Clóvis Rossi, o mais antigo da Página 2, que na edição de domingo (14/6) desculpa-se pelo atraso em entrar no assunto:

“A demora não se deve, creia-me [dirigindo-se ao leitor], à preguiça, à desatenção ou ao desejo de preservar o colega do espaço ao lado nas sextas feiras, o senador José Sarney, ao contrário do que suspeitam alguns leitores.”

A demora deveu-se, segundo o jornalista, à incredulidade:

“…o que há mais para dizer sobre um caso destas proporções? Xingar a mãe?”

O libelo encerra-se com dinamite pura:

“O pior é que não tem saída, porque a saída depende dos próprios senadores, cúmplices, por ação ou omissão, do aparelho clandestino que era uma Casa de Leis”.

Sarney está ferrado: a Folha jamais admitiria desvencilhar-se de um incômodo parceiro apenas para satisfazer “alguns leitores” exigentes e inconformados. Agora, com o decisivo empurrão assinado e avalizado pelo mais antigo articulista da Dois, está armado e acionado o cronograma para a saída de José Sarney da Folha de S.Paulo. Aleluia!

Clóvis Rossi merece um prêmio pela façanha.

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15 comentários sobre “Colunista da Folha em apuros

  1. Hugo - Corinthians

    Texto irrepreensível, exceto pela última frase.
    Rossi não merece prêmio, pois não é nenhuma façanha declarar o óbvio uLULAnte sobre o oligarca maranhense, mesmo na Folha, que insistia em sua coluna insípida.
    E se for ‘façanha’, lamento pelos leitores do jornal, pois daí o compromisso principal não é com estes, mas com colegas de coluna.

  2. Alan

    A contagem regressiva para que a FOLHA vire um tablóide irrelevante continua a passos largos. E eles vão morrer abraçados com essa turminha aí…

  3. Luís Carlos

    A Folha perde credibilidade a cada dia que passa.

    Falando somente em fatos recentes, a Folha, em conluio com o Senador Álvaro Dias, vazou o tal dossiê FHC e tentou atribui-lo à Dilma Roussef.

    Chamou a ditadura de “ditabranda”.

    Ao negociar a renovação do contrato do ex-ombudsman Mário Magalhães, impôs como condição a não publicação de críticas de leitores com relação a matérias tendenciosas que a Folha insiste em publicar, destacando que o ex-ombudsman era crítico ferrenho da relação incestuosa que a Folha mantém com membros do Congresso, especialmente os “filhotes da ditadura”.

    http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=480IMQ002

    Tentou fazer campanha para a censura do blog da Petrobrás, o que poderia abrir caminho para a censura de outros blogs, bem como de outros conteúdos na internet.

    Dezenas de jornalistas foram mortos, presos, torturados, etc. por lutarem contra a ditadura militar.

    A ditadura militar acabou e agora os órgãos de imprensa ocupam esse vazio com a ditadura mercadológica, ideológica e editorial.

    O que estariam pensando esses jornalistas agora? Foi por isso que lutaram?

    Na verdade o destino da Folha, entre outros jornais, será o de servir de embrulho de cachos de bananas. Isso o jornal de domingo, que, por enquanto, é o mais volumoso.

  4. Geraldo C Araujo

    uando haverá uma ação semelhante para expulsar o velho pilantra também da página que ocupa às sextas-feiras no centenário Jornal do Brasil? Já não basta aos leitores do JB o fardo insuportável de aturarem o Zé Dirceu?

  5. heinhô batista

    uma das coisas mais nojentas que já vi na vida foi o discurso desse pulha ontem. sarney: o maior CRÁPULA da política nacional. pior que ele só o POVINHO DE M… que vota numa imundície dessas.

  6. valdir teodoro

    Se vc prestar atenção a Folha evita de criticar este crapúla dono do Maranhão e do Senado Brasileiro, por motivos obvios, agora falando em futebol o jornal Lance, tem a mesma postura em se tratando do SPFC, no qual todos sabem são parceiros comerciais, por que até hoje vc não criticou esta postura do jornal.

  7. geraldo lina

    PORQUE SOH RESOLVERAM ABRIR A BOCA AGORA QUE JOGARAM A MELECA NO VENTILADOR ???
    PERGUNTA PRA QUEM EH DO MARANHAO OU DO ACRE, DOMICILIOS ELEITORAIS DA SUA FAMILIA E DELE, QUEM EH ESSE VELHO DESGRACADO.

    SEM EXAGEROS, SUSPEITA-SE QUE ATEH MORTE DE CRIANCAS SAO ENCOMENDADAS PELO VELHO COMO OFERENDA PRA SEUS GUIAS…

    OUVI DA BOCA DE UM COLEGA QUE TRABALHA EM SAO PAULO E MOROU EM SAO LUIS POR MUITOS ANOS.

    ***(*) ******(*)

  8. d'ávila

    E falando em oferendas aos guias.E aquela que ele fez em um avião em pleno voo?
    Sai de baixo!!!
    Ô véio loco!!!

  9. evaldo

    A presença do sarney no jornal é uma afronta maior que os carros da empresa emprestados para os torturadores durante a ditadura militar?

  10. Aloísio

    Diz aí: O QUE ESPERAR DE UM JORNAL QUE DIZ EM UM EDITORIAL QUE A DITADURA FOI UMA “DITABRANDA”??!!!?!??!?!??!?!? Essa é uma das muitas barbaridades que a Folha faz ou diz.

  11. Fabio Queiroz

    Como um crápula desses ainda consegue uma vaga na Academia Brasileira de Letras?
    Ele acha que basta combater a Ditadura Militar (como de fato fez), pode estar acima do bem e do mal, e fazer o que bem pode?!

    É o fim da picada!

  12. Mr. albert

    Argh! Sarney grande câncer da politica brasileira.. protegido por um dos maiores jornais do mundo…COM A PALAVRA O PESSOAL DA FOLHA SEMPRE COMBATIVO E TRANSPARENTE…..
    VAMOS FALAR SOBRE O MAFIOSO…E SUA FALCATRUAS…

  13. Maurizio

    Depois desta Paulinho, espero que vc deixe de postar matérias do painel de esporte da Folha, pois esta matéria só vem corrobar a INDEFECTIVEL PARCIALIDADE DA FOLHA….

  14. geraldo lina

    AHHHH, QUASE ME ESQUECO.
    ADVINHA QUEM FEZ PARTE DO MINISTERIO DA ECONOMIA NO TEMPO DO SARNEY ? A EPOCA DA HIPERINFLACAO…

    ELE MESMO, O ZELADOR DA CASA DE TOLERANCIA.

    ***(*) ******(*)

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