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Uma curiosa equipe da TV Record em Pequim

 

Por MAURICIO SAVARESE

Bar da zona leste de Pequim, meia-noite de segunda-feira. Eu estou no banheiro. Quando volto, vejo dois amigos agora acompanhados por uma outra colega, um gordinho e uma morena brasileira muito bonita. Me sento à mesa. E, do nada, a moça bonita começa a conversar comigo. Desconfio, só para variar.

Trinta segundos depois surge o diagnóstico: ela é repórter da TV Record e está desesperada para cumprir ordens do chefe. Precisa de gente que não goste da comida de Pequim. Alguém disse a ela, acidentalmente, que eu não curto algumas das gororobas que servem por aqui e a dita cuja caiu matando.

“Mauricio, você não gosta da comida da China, não é verdade?”, pergunta ela, que de cara não vê problema em entrevistar um jornalista para fazer sua reportagem.

“Não é verdade”, respondo.

“Eu preciso de pessoas que não gostem da comida da China. Me conte do que você não gosta”, insiste a brasileira, que não desiste nunca, já com bloquinho na mão.

Um dos meus amigos vai além do meu susto e fala alto: “É assim que vocês cavam as pautas de vocês? Vocês estão reportando ou estão buscando gente que caiba no que vocês querem ouvir?”, disse ele.

A moça, a esta hora não tão bonita, fingiu que não ouviu e pediu meu telefone com aquele sorriso que todo mané acha que vem de mulher que quer levá-lo para a cama.

“Não sei o número”, respondi, enquanto andava para a porta com o celular à mão, fingindo estar falando com alguém.

Cinco minutos depois, ela saiu do bar. E eu ainda com o celular na mão e com uma vergonha alheia do tamanho do mundo. A bonita e o gordinho ainda caçavam quem coubesse na pauta deles.

A China realmente exagera quando fala na mídia ocidental malvada. Porque pelo menos no caso da brasileira, ela não é mal intencionada, como no caso da equipe da TV Record que me abordou.

Eram apenas jornalistas vagabundos e picaretas, sem raiva do país.

Logo depois lembrei que a TV Record terá exclusividade da retransmissão dos Jogos Olímpicos de 2012. Será que a moça bonita e o gordinho ainda estarão por lá?

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12 comentários sobre “Uma curiosa equipe da TV Record em Pequim

  1. Felipe

    A eterna má vontade com a Record, ainda que mais do que compreendida, afinal, exemplos como este são dos mais absurdos. O problema é que aqui, no interior de SP, pouco mais de 150 quilômetros da grande capital, histórias deste tipo brotam pelos cantos das redações. Com a diferença de que não ganham este debate na grande mídia (afinal, jornalismo é só em São Paulo). E mais: que o Savarese não chame nós, aqui do interior, tbm de ‘vagabundos’ ou ‘picaretas’, pois nosso suor beira o sangue frente aos eternos desmandos de patrões truculentos, com pautas direcionadas que, muitas vezes, se esquecem do ridículo.

  2. rodrigo

    acho que o savarese foi meio infeliz… ou vai dizer que 99.9% dos jornalistas não fazem a mesma coisa? deu foi pena da coitada que apenas seguia ordens. trouxa é quem acredita que o jornalismo reporta.

  3. Erasmo brito

    Pior e ele dizer que ela foi entrevistar um jornalista, como se ele o fosse…..Piada……

  4. Markoff

    É Paulinho,
    essa é a mídia do Brasil! Infelizmente. Espero que com os blogs isso melhore um pouco por não ficar mais tudo concentrado na mão de poucos.

    Markoff

  5. Gabriel

    Esses jornalsitas que se acham acima do céu e da terra…são uma piada. Ora, toda a matéria traz “personagens”, claro que não é todo estrangeiro que não gosta da comida da china..mas há muitos que de fato não gostam. Achar uma pessoa com esse perfil para ilustrar a reportagem sobre o assunto é algo natural. Esses caras que se dizem da “antiga”, é que se acham os melhores, os Clark Kents das redações… talvez a reporter tenha sido mal na forma de abordagem, mas dai, chamar os profissionais de “vagabundos e picaretas”, é uma prepotencia sem tamanho. Como é que você faria uma pauta sobre “pessoas que passam mal com a puluição da CHina?” ..naturalmente nem todas passam mal..mas muitos sim. Você iria a um hospital? procuraria uma pessoa que estivesse mal por conta da poluição?..pois é! recentemente li uma materia sobre executivos que estão indo trabalhar a pé para fugir do transito de SP. obivio que não são todos os executivos que fazem isso. A reportagem mostrava dois que faziam. Eram personagens ilustrando uma matéria…
    Ao que eu volto a perguntar para o “grande jornalista” autor do texto…onde está o problema!!????

  6. Roberto

    Fiquei em dúvida neste post. Imaginei que a maioria das reportagens fossem criadas segundo uma pauta e os reporteres vão atrás de pessoas ou fatos que se encaixam. O que há de errado com a abordagem da moça da record? Algém poderia explicar?

  7. Eduardo Messias

    Paulinho e amigos, apenas para atestar a detestável prática, que invariavelmente começa nos corredores das faculdades e nos grupos de discussão formados por alunos de comunicação social, é assim mesmo: pauta dirigida por “p(a)uteiro” – como diria Cal Francisco – ou “produtor” que não sai da redação, situação agravada pelos “personagens” para TV. (Ser jornalista é para poucos; basta lembrar a história do PVC, que na Copa de 94, conseguiu entrevistar o Hagi, meia da Romênia, “driblando” assessores e quetais.)

  8. Gabriel

    CAro Eduardo, eu de fato não entendi sua colocação. O exemplo do PVC é ótimo, conseguiu um “furo”, legal.parabéns. Mas isso é uma outra situação. Oque falamos é do dia a dia da noticia. Ora, em todas as redações, em diferentes épocas o que se procura são personagens para retratar um assunto levantado como pauta na redação. Qual é o problema dessa pratica? Porque desmerecer pauteiros ou produtores, ou reporteres? Porque se julgar tão superior que outros profissionais? Se você faz uma matéria sobre crescimento do mercado de produtos organicos, não vai procurar uma pessoa que só compre esse tipo de produto? Se voc~e faz uma matéria sobre o crescimento do desemprego, não irá procurar uma pessoa que esteja desempregada? se a matéria é sobre o aumento de alergias devido ao tempo seco, não procurará uma pessoa com esse tipo de sintoma? etc etc etc Repito, onde está a incopetencia da pratica? cade a falta de ética? Porque um profissional que faz esse tipo de matéria deve ser chamado de vagabundo ou incopetente?

  9. Sérgio

    A justificativa para uma bobagem dessas ser publicada aqui está no último parágrafo. Daqui pra frente, até 2012, qualquer fofoca ou notinha que apareça contra qualquer coisa relacionada à Record poderá ser postada aqui.

    É normalíssimo um jornalista buscar pessoas que evidenciem ou ilustrem uma pauta. Classificar isso de “o que você quer ouvir” é uma ignorância absurda da profissão.

    Aliás, antes de criticar a dos outros, o autor bem que poderia encontrar algo mais relevante para compor a sua pauta. Se eu estivesse na China, em pleno furor olímpico, teria assunto mais interessante para escrever.

  10. salvi

    bom nao sei como ela nao encontrou alguem q nao goste da comida na china!!!!eu ja estive por la algumas vezes e posso dizer A COMIDA EH PESSIMA!!!!!!de qq forma nao justifica plantar fatos.

  11. Eduardo Messias

    Caro Gabriel, gostei do antagonismo e entendo que sua opinião seja pertinente. Porém, imagino que ela esteja muito mais atrelada à forma como o Savarese “narrou” a história do que propriamente à minha idéia. Particularmente, discordo do “desmerecimento” dele em relação à repórter, bem como da forma jocosa com que tratou a moça, mas corroboro a opinião de que o jornalismo atual (essencialmente em TV) é fundamentado no “personagem”, e não na história em si. Humildemente explico: é comum algum pauteiro sugerir uma pauta descabida, ou melhor, descolada da realidade e forçar a procura por um personagem que reforce a idéia (muitas vezes “vendida” por assessor ou “comprada” da concorrência pelo seu editor-chefe). Como jornalista profissional, sempre fui contra o uso de “personagens” porque não os considero elementares à informação em si, e sim mais um artefato “showrnalístico” (Arbex) para, nas palavras dos teóricos, aproximar os espectadores da realidade (como se eles já não a conhecessem).
    Para “resumir”, Gabriel e amigos, a idéia geral é de que a premência da informação e da situação que mereça crédito jornalístico seja espontânea e não atestada por um “personagem” que ilustre um fato não necessariamente real em essência.
    Em tempo: se a condição desfavorável da alimentação fosse tão digna de nota, bastaria entrevistar o Seixas, o André Kfouri ou o Plihal; a realidade só existe na rua; pauteiro dentro de redação é Crtl+C/V das agências – e registre-se: isso não é culpa do pauteiro, se é que ainda vive algum.
    Abraço!

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