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Flamengo se alinha ao terraplanismo histórico

De O GLOBO

Por MARTÍN FERNANDEZ

Ao se afastar da homenagem a um atleta do próprio clube assassinado pela ditadura

No domingo passado, aniversário do Golpe, um grupo de sócios e torcedores do Flamengo prestou homenagem a Stuart Angel, remador do clube que em 1971 foi perseguido, preso, torturado e morto pela ditadura. À divulgação do ato, a diretoria do Flamengo reagiu com a seguinte nota oficial:

“O Clube de Regatas do Flamengo esclarece que, por ser uma verdadeira Nação, formada por mais de 42 milhões de torcedores das mais diversas crenças e opiniões, não se posiciona sobre assuntos políticos. A homenagem […] foi realizada diretamente por um grupo de sócios e torcedores do Clube, sem nenhuma participação da instituição – algo que, inclusive, é estatutariamente vedado”.

O texto é uma contradição em termos. Sua simples publicação é um posicionamento político dos mais eloquentes. Sobretudo porque, no mesmo domingo, o Flamengo comemorou a conquista da Taça Rio com a presença no gramado do Maracanã de alguém que se fez famoso por destruir uma placa de rua em homenagem a Marielle Franco, uma rubro-negra assassinada a tiros.

A justificativa apresentada para marcar distância da homenagem não se sustenta. Não consta do estatuto do clube nenhuma proibição a atos desse tipo. No máximo, um artigo veta aos sócios “usar ou envolver o nome do Flamengo em campanha, de qualquer natureza, estranha aos objetivos do Clube”.

A nota também contradiz a história da instituição. “Nós não colocamos Stuart Angel no panteão do Flamengo. Ele já estava lá. Por decisão do clube”, notou David Butter, integrante do grupo de sócios que fez a homenagem. Em dezembro de 2010, a então presidente Patrícia Amorim inaugurou o memorial “Pessoas Imprescindíveis” em homenagem ao remador.

O jornalista argentino Ezequiel Fernandez Moores, colunista do diário La Nación, ensinou: “Ainda hoje há quem insista em afirmar que o esporte não tem nada a ver com a política. Não entendem nem de esporte e nem de política. Ou preferem se fazer de desentendidos”.

A diretoria do Flamengo deixou claro que está alinhada ao terraplanismo histórico em moda no Brasil de 2019, segundo o qual ditadura é algo a ser comemorado. Ou rememorado, tanto faz.

O episódio também destapou outra discussão: quão justo (ou injusto) é atribuir a instituições centenárias e complexas como clubes de futebol as decisões tomadas por um pequeno grupo de pessoas que só temporariamente exercem o poder de representá-las?

Também no domingo, o Corinthians fez questão de se posicionar contra a ditadura. Em suas contas oficiais, postou fotos de uma estátua de Sócrates e de uma faixa que dizia: “Ganhar ou perder, mas sempre com democracia”.

Exatamente 48 horas depois, Osmar Stabile, empresário e conselheiro vitalício do mesmo Corinthians, fez questão de se assumir como “autor intelectual” e financiador de um vídeo — divulgado pelo Palácio do Planalto — que exaltava o Golpe de 1964.

Nos últimos anos, Stabile tentou ser presidente do Corinthians. Se tivesse conseguido, teria usado o Corinthians para divulgar suas posições políticas? Ele não quis responder, direito que provavelmente não teria se fosse interrogado pelo pessoal venerado no tal vídeo.


NOTA DO BLOG: No Corinthians, fala-se que Stabile assumiu a autoria do referido vídeo para ocultar o nome do verdadeiro realizador: Edgard Soares, seu aliado político no Parque São Jorge.

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