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Senso de oportunidade

Por SÓCRATES

http://www.cartacapital.com.br/app/coluna.jsp?a=2&a2=5&i=1604

A gigantesca festa do Milan e de seus torcedores para comemorar a chegada de Ronaldinho Gaúcho demonstra mais uma vez quão fanáticos eles são por futebol e como se deve valorizar um investimento desse porte. Enquanto por aqui jamais há o devido cuidado na promoção dos recém-contratados de boa visibilidade, lá se aproveita o ensejo para atrair o consumidor para uma série de produtos relacionados à transação.

Não tenho dúvidas de que, antes mesmo de ser anunciada a contratação do craque brasileiro, milhares de camisetas com o seu nome e número que utilizará já foram confeccionadas para comercialização. E que, com a sua presença em Milão, o número dos que comprarão os carnês para assistir aos jogos do time vai se multiplicar, e muito.

Lembro-me de que, em uma das várias passagens de Romário pelo Vasco da Gama, escolheu-se para sua estréia uma partida sem nenhuma importância. E não se fez nenhum tipo de iniciativa para atrair mais torcedores para as partidas do clube, como se isso não tivesse importância alguma no contexto em questão. Demonstraram a absoluta falta de visão profissional – também, com Eurico Miranda à frente do clube, não dava para esperar muita coisa!

Na Itália, e de resto nos países mais desenvolvidos do mundo da bola, vê-se o futebol como um negócio ligado a vários outros setores da economia, e não dependente de uma única fonte de renda, como costuma ocorrer por aqui. Além de gestões incompetentes e/ou fraudulentas, é por essas e outras que os nossos clubes vivem em eterna penúria, visitando a cada período as ante-salas do canal de televisão parceiro para pedir dinheiro adiantado e, assim, poder honrar seus compromissos.

Com isso, deixam de ter condições de negociar adequadamente os valores dos direitos televisivos e tornam-se reféns da boa vontade da grande credora (a tevê), que usa e abusa dessa prerrogativa para afugentar a concorrência e impor o valor que bem entende aos que com ela discutem as relações comerciais.

Outro exemplo de como se faz para não aproveitar as possibilidades de obter mais recursos para aumentar a receita dos clubes está em terceirizar oportunidades. Como a publicidade estática negociada como um grande pacote, a uniformizar e limitar o número de parceiros potenciais de cada instituição.

Até mesmo a bola do jogo é de um único fornecedor para todas as partidas da competição. Um elemento que poderia ser negociado individualmente, dando a chance a que várias indústrias entrassem como parceiras desse esporte, que tem em torno de si um imenso mercado esportivo a ser mais bem explorado por nossos clubes. Enfim, várias ações deveriam ser tomadas para melhorar as condições econômico-financeiras das nossas instituições, que assim poderiam ter possibilidades de manter alguns dos nossos melhores atletas jogando dentro de nossas fronteiras.

 Como o mesmo Ronaldinho e muitos outros, que só saem do País por culpa do imenso fosso econômico em relação ao Primeiro Mundo do futebol. Gosto sempre de enfatizar que temos todas as condições, ao contrário do que ocorre em outras áreas, de brigar por um espaço melhor nesse mercado. E diminuir a distância entre os dois mundos apenas com uma gestão mais competente e profissional, de modo a valorizar o mérito acima de tudo e, com isso, atrair gente de reconhecida capacidade para ocupar os espaços hoje em estranhas mãos. Essa é uma tarefa absolutamente factível, já que temos toda sorte de grandes cérebros capazes de ocupar e agregar valor a qualquer cargo no organograma de nossas instituições. Empreitada esta que, no entanto, depende de uma radical transformação na organização do nosso futebol, possibilidade ainda muito distante.

Enquanto isso, assistimos a distância à festa que os outros fazem com nossas riquezas naturais. Festa e grandes negócios poderiam impulsionar ainda mais a nossa economia. Como tratamos, aliás, boa parte de nossa produção e reservas. Vendemos minério de ferro e compramos trilhos, vendemos cacau e compramos chocolate etc. Enfim, não sabemos manufaturar e valorizar os nossos produtos.

No caso do futebol, seria mais fácil, nem necessitaríamos vender o produto final e, sim, a sua arte. A mesma que o mundo todo reconhece como a mais bela e representativa desse esporte que se tornou o mais popular do planeta.

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3 comentários sobre “Senso de oportunidade

  1. Edson Albino Ursini

    Dias desses o Paulinho reproduziu uma entrevista do Benja com o J.Havilla.Ironias, que foram comentadas por internautas, a parte, o conteúdo da entrevista dá alguns caminhos, absolutamente simples, de como se gerir o futebol.Coisa que nossos clubes não fazem, mesmo.
    Agora leio o texto do Socrates, que bate na mesma tecla, ou seja, os nossos clubes, por administrações arcaicas, personalistas, viciadas, e prá finalizar, burras mesmo, não estão nem aí.Na mesma linha desse universo do futebol mal administrado, o Paulinho fala do Flamengo.Está desmontando um time muito bom.E o motivo é gerar receita e/ou admitir a incapacidade de honrar compromissos assumidos.Só que imaginar, que o Flamengo consiga se manter com rendas dos jogos, é útopico.Mesmo sendo ele, o time de maior torcida do Brasil.
    Devagar, bem devagar, começam, na imprensa, os sinais de que esse, a administração errada, é o grande mal do nosso futebol.
    Quando passarmos a discutir isso mais assiduamente, será irreversível.Ninguem duvida da força da imprensa.Só que na maioria dos seus textos impressos e programas eletronicos, com brilhantes excessões, o que se lê e se ouve, é primário e amador.No mesmo nível aliás, das administrações do nossos clubes .

  2. Rogério

    Espero realmente estar errado, mas o Brasil não tem mais jeito. Seja no futebol ou na politica, estamos afundando cada vez mais. A culpa é única e exclusiva do cidadão brasileiro que coloca bandidos tanto no governo como nos clubes. Costumo dizer que o Brasil é uma brincadeira de mau gosto. A varios anos perdi qualquer esperança de mudança nesta situação. Gostaria de ver o Dr. Sócrates (maior craque do futebol que eu vi jogar) ser presidente do Corinthians, mas infelismente acho que o povo não esta preparado para o ver na presidencia. No fundo espero estar errado …

  3. Carlos Rocco

    Esse Dr. Sócrates foi gênio no campo e hoje mostra que é gênio fora dele, também…

    Abraço,

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