Leiam, vale a pena.

Do site da Carta Capital


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Vaias para quem merece




por Sócrates


O que fazem os senadores, em Brasília, é exatamente igual a como agem os homens do esporte que usam os clubes como trampolim político, social e econômico. Dualib que o diga



Sócrates



A suspeita que foi levantada de que uma escuderia de Fórmula 1 teria recebido segredos tecnológicos e de desenvolvimento dos carros de uma concorrente explodiu na categoria como uma bomba. Não quero entrar aqui no mérito dessa questão, que, por si, já é muito grave, mas sim para discutir algumas distorções de comportamento que geram transgressões como essa iniciativa.


Temos acompanhado inúmeros exemplos de ações que visam favorecer especificamente um indivíduo ou um grupo na história do nosso país. Agora mesmo, um dos senadores da República, que foi governador do Distrito Federal, renunciou ao mandato por ter sido flagrado por escutas telefônicas, envolvendo-se em supostos acordos que configurariam crime de corrupção. Outro dos senadores está na corda bamba tentando provar a fonte da renda utilizada para pagamento da pensão alimentícia da filha mais nova. A cada nova explicação, mais ele se enrola no novelo que criou em todos estes anos de mandato parlamentar.


É inacreditável como esses fatos, e centenas de outros que cansamos de ver, como a Operação Uruguai no governo Collor ou a manipulação das emendas pelos Anões do Orçamento, que acabaram por fazer escola na Praça dos Três Poderes, ocorrem sem que quase nada aconteça aos agentes. Aparentemente, a sociedade brasileira se encontra em tal estado letárgico que se acostumou com as falcatruas que vicejam nos mais variados ambientes da nação.


Habituou-se a esse triste e vergonhoso panorama que persiste, principalmente porque nossos homens públicos também pouco se preocupam com as atitudes que poderiam, caso fossem adequadas, oferecer um parâmetro positivo de conduta para todos os brasileiros. Eles, porém, a cada passo que dão nos mostram o que de pior poderíamos esperar e, conseqüentemente, estimulam muitos para que os sigam nos desvios de comportamento potencializados pela sensação de impunidade.


E olhem que poucos os acompanham no cotidiano. Imaginem então quando determinado personagem possui, além de atributos semelhantes aos desses senhores acima citados, grande exposição na mídia. Tudo se torna ainda mais dramático. É o que acontece com os homens que fazem do nosso esporte um meio de vida e de trampolim político, social e econômico. Mesmo com a intensa investigação feita há alguns anos em uma CPI que demonstrou todas as formas de gestão espúria dos nossos dirigentes, nada lhes aconteceu. Continuam a desfilar toda arrogância e presunção por todos os cantos, livres como pássaros ingênuos que nunca foram.


Agora mesmo, parece que um peixe dos grandes caiu em uma armadilha causada pela sede de poder e, aparentemente, deverá ter grandes problemas para explicar muito daquilo que realizou administrando um dos maiores clubes de futebol do País. O presidente do Corinthians se encontra no cargo há tanto tempo que mistura os interesses do clube com os seus, pois os funcionários de um trabalham também para o outro e alguns custos particulares são bancados pela instituição. Além de usar e abusar de outro hábito muito comum dessas dinastias esportivas, que é o de favorecer familiares e fiéis escudeiros.


Pois é, o senhor Alberto Dualib, que criou uma parceria com uma empresa desconhecida e com fontes de recursos provavelmente fruto de corrupção e outras “cositas” mais, complicou-se a tal ponto que foi pedida a sua prisão. Vamos ver onde isso vai dar, pois pode ser que as investigações nos levem a descobrir, de fato, todas as formas de como se gere o nosso esporte, já que a maioria dos nossos gestores tem conduta semelhante. Esperamos que, havendo irregularidades, os culpados sejam exemplarmente punidos. Quem dera.


Sei que isso dificilmente vai ocorrer, já que este povo tem boas relações com as principais fontes de poder e esse fato sempre atenua as conseqüências de suas ações. Como, aliás, pudemos ver na sétima reeleição (ufa!) do presidente da CBF, que contou com a presença luxuosa do ministro do Esporte.


Isso é o que podemos chamar de aproximação. Um fato lamentável para quem sonhava com uma atitude independente do Executivo perante os nossos dirigentes esportivos. Acompanhar os grandes eventos esportivos é dever, mas ficar pendurado sei lá onde já é demais. As vaias no Maracanã foram de repulsa à falta de respeito a quem imagina que, um dia, o País possa estar livre de tudo isso.

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