Cruzeiro tem novo prejuízo ligado aos ‘agentes’ de Itair Machado

A 15ª Vara Cível de Belo Horizonte determinou a liberação, em favor da ADS Engenharia e Construção, dos valores que o Palmeiras depositou judicialmente em razão da compra do lateral Mayke junto ao Cruzeiro.

Trata-se de mais um capítulo de uma negociação que, desde 2018, acumula personagens e circunstâncias bastante nebulosas.

Entre eles está Carlos Alberto Isidoro, o Carlinhos Sabiá, velho conhecido dos leitores do Blog do Paulinho.

A ADS tem como sócios Ademir da Silva e Jairo Costa Cordeiro.

Ademir é citado em reportagens da época como o descobridor de Mayke e responsável por levá-lo ao Cruzeiro ainda nas categorias de base.

O acordo com o clube mineiro cedia 30% dos direitos econômicos do jogador à empresa.

Anos depois, o Cruzeiro tentou melar o negócio.

A manobra, porém, não prosperou na Justiça.

Quando Mayke acabou negociado definitivamente com o Palmeiras, em 2018, começou outra confusão.

O Cruzeiro recebeu R$ 8 milhões pelos 70% que negociou.

Outros 30% estavam formalmente nas mãos do empresário Beto Fedato, que recebeu aproximadamente R$ 6,5 milhões do Palmeiras por uma participação que havia adquirido, anos antes, por R$ 300 mil.

A ADS, porém, sustentava na Justiça que esses mesmos 30% continuavam pertencendo a ela.

E venceu a discussão.

Agora, após o trânsito em julgado da condenação, o Cruzeiro deverá responder pelo valor histórico de R$ 4.372.830, acrescido de correção monetária e juros de 1% ao mês.

O processo transitou definitivamente em julgado no STJ em 29 de junho de 2026.

Como, ainda no início da ação, o Palmeiras havia sido obrigado pela Justiça a reter parte dos pagamentos e depositá-los judicialmente, esses recursos serão agora atualizados pela Contadoria e liberados para a ADS.

O que eventualmente faltar deverá ser cobrado no processo de recuperação judicial do Cruzeiro.


Carlinhos Sabiá

Na época da venda de Mayke, Carlinhos Sabiá afirmou publicamente que possuía autorização da ADS para negociar os direitos da empresa.

Disse ao UOL que estava autorizado pela companhia, detentora dos 30%, a procurar Cruzeiro ou Palmeiras para tentar resolver a questão sem necessidade de processo judicial.

A versão é negada pela ADS.

Na ação, a empresa afirma que jamais autorizou ou outorgou poderes a Carlinhos Sabiá para representá-la ou receber valores referentes aos direitos econômicos de Mayke.

Ainda assim, o Cruzeiro pagou comissão ao agente, que era ligado a cartolas do clube.

Foram R$ 800 mil.

Na ocasião, Sabiá sequer estava regularizado como intermediário na CBF.

O pagamento foi relacionado à Jeo Rafah Sports, empresa que tinha como sócio Felipe Costa Isidoro, filho de Carlinhos Sabiá, e que somente seria regularizada perante a entidade mais de um mês depois da negociação.

O Blog do Paulinho já acompanhava as relações do empresário com a turma que comandava o futebol do Cruzeiro bem antes do caso Mayke.

Em novembro de 2017, este espaço publicou documentos de processo envolvendo Sabiá, Itair Machado, Ângelo Pimentel e Anderson Nassrala em uma antiga negociação relacionada à promessa de colocação de um jogador no Cruzeiro.

No mês seguinte, quando Itair já comandava o futebol celeste, revelamos a participação do intermediário na contratação de Bruno Silva, então no Botafogo.

Em março de 2018, mostramos outra coincidência: após o Cruzeiro realizar pagamentos relacionados à transferência de Bruno Silva, uma antiga execução contra Carlinhos Sabiá, vinculada a negócios anteriores do grupo, caminhou para a extinção após acordo com o credor.

Não se tratava, portanto, de uma aproximação episódica.

Em julho de 2019, durante a Operação Primeiro Tempo, a Polícia Civil de Minas Gerais realizou diligências envolvendo Itair Machado, Ângelo Pimentel e Carlinhos Sabiá.

As suspeitas sobre a venda de Mayke passaram a integrar formalmente as investigações.

No ano seguinte, a Polícia Civil concluiu parte do inquérito e indiciou Sabiá, juntamente com ex-dirigentes do Cruzeiro e outros empresários.

Posteriormente, o Ministério Público de Minas Gerais ofereceu denúncia, recebida pela Justiça, tornando o agente e os demais acusados réus.

Entre os negócios examinados pelas autoridades estavam justamente a venda de Mayke, a contratação de Bruno Silva e outras operações da gestão de Wagner Pires de Sá e Itair Machado.

Em agosto de 2020, Carlinhos Sabiá concedeu entrevista à Rádio Itatiaia e forneceu outro dado curioso.

Segundo ele próprio, depois de receber a comissão relativa à negociação de Mayke, repassou R$ 660 mil ao Ipatinga, clube historicamente ligado a Itair Machado.

O Blog destacou a declaração na ocasião.

O Cruzeiro mudou de mãos, transformou-se em SAF, atravessou recuperação judicial e tenta se distanciar daquele período desastroso de sua história.

Ainda assim, as contas época sombria seguem surgindo no horizonte da agremiação.

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