Supremo em chamas

Da FOLHA

Por LUÍS FRANCISCO CARVALHO FILHO

  • Relatório da Polícia Federal amplia desgaste interno e expõe divisões no STF
  • Episódio reforça críticas à falta de regras éticas no tribunal

Ao tornar público o relatório elaborado pela Polícia Federal sobre as relações impróprias de Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, o ministro André Mendonça lança uma granada de mão no plenário do STF.

Estamos diante de um jogo político de final imprevisível. Além de ajudar a destruir a reputação do magistrado que julgou e prendeu o golpista Jair Bolsonaro (seu chefe, de quem foi ministro da Justiça, arbitrário e submisso), os estilhaços da granada de André Mendonça também acertam o procurador-geral da República Paulo Gonet, promovendo uma espécie de desagravo silencioso à memória do sumido e melancólico Augusto Aras, que tanto envergonhou a instituição.

Não há inocentes úteis ou inúteis no enredo que se apresenta ao país.

Paulo Gonet, que rapidamente proferiu um parecer pela nulidade da investigação contra Alexandre de Moraes, é a mesma autoridade que comemorou o convite para a viagem a Londres por conta de charutos e doses do puro malte escocês que o banqueiro gentil e corrupto patrocinava.

Detalhe importante, as investigações de André Mendonça não alcançam a figura de Dias Toffoli, o outro ministro do STF enredado nas teias ardilosas de Vorcaro: Toffoli, como se sabe, apesar de ter sido nomeado por Lula, é amigo do peito do chefe de Mendonça, o golpista Bolsonaro.

Estilhaços da explosão também atingem o presidente Edson Fachin, por enquanto incapaz de cobrar de seus colegas um mísero código de ética (até o PCC tem o seu), que vê, imobilizado, crescer a corrosão moral do Supremo.

O STF se tornou um monstrengo institucional quando perdeu o caráter de colegiado e se constituiu num organismo esdrúxulo, formado por onze gabinetes isolados, cada um com sua própria pauta de interesses políticos, negociais e administrativos.

A granada de André Mendonça revela, por outro lado, o esfacelamento da outrora vigorosa Polícia Federal. Não apenas porque o diretor-geral também passeou às custas de Vorcaro.

A impressão que se tem é que os gabinetes de Alexandre de Moraes e de André Mendonça (os dois comandaram a PF depois do impeachment de Dilma Rousseff) adotaram a estratégia de recrutar dois bandos de policiais de estrita confiança para o exercício de uma magistratura bem pouco republicana e transparente, especializados em vazamento de informações estratégicas.

A PF, que já se notabilizou pelo profissionalismo, precisa de mais uma reforma institucional.

Não se trata de uma disputa pela moralidade ou outros princípios constitucionais. Não haverá renúncia nem impeachment. Mendonça protege Flavio e associa Moraes a Lula. Por trás do conflito está a eleição presidencial e, por tabela, a sobrevivência política dos próprios ministros.

Triste Brasil, “ó quão dessemelhante”, diria o poeta barroco Gregório de Mattos: “tanto negócio e tanto negociante”.

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