O melhor plano de saúde do Brasil

Do ESTADÃO
EDITORIAL
Assistência médica de senadores custa 46 vezes mais que a de usuários do SUS, e o contribuinte, que luta para conseguir pagar um plano de saúde, banca 87,2%
Quantas vezes mais vale a vida de um senador da República do que a de um cidadão comum? A pergunta é capciosa e certamente não deveria ter resposta, mas, se formos avaliar pelos custos aos cofres públicos, há uma régua capaz de medir isso e dar uma resposta matemática: 46 vezes mais.
Levantamento feito pelo Ranking dos Políticos, a partir de dados do Congresso Nacional obtidos via Lei de Acesso à Informação, revela que a assistência à saúde de senadores e ex-senadores teve um custo de R$ 40 milhões no ano passado. Desse total, os beneficiários contribuíram com apenas 12,8%, deixando para os cofres públicos a conta de R$ 35,3 milhões.
O Programa de Assistência à Saúde do Senado oferece atendimento médico-hospitalar e odontológico. É uma benesse nada modesta para senadores em exercício, ex-parlamentares e seus dependentes, com um custo médio mensal de R$ 5.362 por beneficiário.
Se compararmos com outros planos, podemos considerar que esse seja de longe o melhor plano de saúde do Brasil, ao menos em termos de valores. O mesmo estudo mostra que o investimento público per capita no Sistema Único de Saúde (SUS) é de R$ 116,50 por mês.
A comparação com quem paga um plano privado também é desconcertante. O custo médio dos beneficiários no sistema particular, segundo o mesmo estudo, é estimado em pouco mais de R$ 500, uma fração do custo da assistência dos excelentíssimos senadores.
E estamos falando, convém lembrar, de próceres da República que recebem mais de R$ 46 mil por mês, fora a verba para despesas da atividade parlamentar, o apartamento funcional (ou auxílio-moradia de R$ 5,5 mil mensais) e o carro oficial com tanque cheio e motorista. Dinheiro para ajudar a pagar a própria assistência médica, portanto, não parece ser exatamente um problema.
Diante de tanta generosidade, não se estranha o esbanjamento com o plano de saúde. No entanto, nem sempre foi assim que um parlamentar enxergou a relação entre o mandato e o serviço público. Florestan Fernandes, deputado constituinte, por exemplo, recusava-se, segundo sua família, a procurar atendimento particular. Dizia que deveria ser solidário aos brasileiros que dependiam exclusivamente do SUS. Morreu em 1995 mantendo essa convicção. É óbvio que não é o caso de pedir aos senadores de hoje que façam o mesmo. Os parlamentares podem ter seu excelente plano de saúde e levar filhos ao médico sem experimentar uma fila do SUS. Mas não é justo que tudo isso seja bancado com o dinheiro dos contribuintes que, na maioria absoluta dos casos, penam para pagar seu plano de saúde, quando têm algum.
A questão se torna ainda mais incômoda porque são esses mesmos parlamentares que decidem sobre a saúde pública. Aprovam orçamento, alteram suas regras e destinam bilhões de reais à saúde por meio de emendas. Boa parte deles conhece o sistema público por planilhas, audiências, discursos e visitas oficiais. Para cuidar da própria saúde e da família, há uma alternativa bem mais confortável.
A prova de que não precisa ser assim está do outro lado do Congresso: na Câmara, os próprios beneficiários praticamente bancaram toda a assistência médica no ano passado e ainda sobrou dinheiro. O custo por beneficiário também foi dez vezes menor. Não consta que, por causa disso, deputados estejam desassistidos ou precisem peregrinar por hospitais em busca de atendimento.
O Senado preferiu ser generoso com seus beneficiários. A generosidade, claro, sobra para quem está do lado de fora pagar.
Um trabalhador que contrata assistência privada tira a mensalidade do próprio salário. Quem não pode fazê-lo recorre ao SUS e enfrenta as limitações da rede pública. O senador, embora tenha renda suficiente para pagar, fica com a maior parte da conta subsidiada. É um privilégio difícil de defender e ainda mais difícil de explicar a quem o financia.
Vossas Excelências podem ficar com o melhor plano de saúde do Brasil. Só não há motivo para que quem jamais poderá usá-lo continue pagando – e muito caro – por ele.

