Década de radicalização: impeachment de Dilma transformou a política e ‘pariu’ o bolsonarismo

Do ESTADÃO

Por ROSEANN KENNEDY

Queda de Dilma consolidou antipetismo, encolheu o PSDB e transformou a disputa política no Brasil em guerra identitária sem espaço para o centro

Nesta segunda-feira, 31, o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) completa dez anos. Mais do que a destituição de uma chefe de Estado, o desfecho desse rito congressual gerou uma fratura na história do país e inaugurou uma década de radicalização.

A dinâmica política abandonou o debate de ideias e projetos, o antipetismo se consolidou e terminou parindo o bolsonarismo. Os dois grupos políticos passaram a tratar a disputa eleitoral não mais como uma discussão programática, mas como uma guerra de trincheiras.

Se até aquele ano a política nacional gravitava em torno da hegemonia bipartidária entre PT e PSDB, a consolidação da “narrativa do golpe” entoada pelo PT — a despeito de todos os ritos formais endossados pelo Supremo Tribunal Federal — redefiniu o ecossistema político brasileiro.

O cálculo da oposição tradicional, contudo, falhou. O PSDB, que liderou os primeiros questionamentos no Congresso e alimentou o ímpeto pelo impeachment, acabou engolido pela própria onda que ajudou a criar. Atravessado por cisões internas e pela perda de seu eleitorado para discursos mais radicais, o tucanato definhou gradativamente até figurar como força marginal na política.

O vácuo deixado pela centro-direita abriu alas para a ascensão vertiginosa do bolsonarismo. Ao capturar o antipetismo e transformá-lo em uma plataforma de direita radical, a nova força levou Jair Bolsonaro à Presidência da República em 2018.

O ápice desse processo de radicalização contínua rompeu os limites das urnas: a recusa em aceitar o resultado das eleições de 2022 desaguou nos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023.

Ao longo desses dez anos, as pesquisas de opinião registraram o sentimento do eleitorado. Na altura do impeachment, o antipetismo — alavancado pelas revelações da Operação Lava Jato e pela severa recessão econômica — atingiu níveis recordes, superando a marca dos 50% de rejeição nacional. Com o passar do tempo, o sentimento antipetista provou não ser um evento passageiro, mas uma força identitária sólida na opinião pública.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva conseguiu voltar ao Palácio do Planalto, entretanto, isso ocorreu mais pela inapetência do seu adversário Jair Bolsonaro (PL) do que pelo desejo da população de vê-lo novamente no poder.

Já a ex-presidente Dilma Rousseff foi empurrada não só para fora do Planalto como também da política. E de nada adiantou o drible feito de última hora no Senado para manter sua elegibilidade.

Durante a votação do impeachment no Senado em 2016, uma articulação liderada pelo então presidente da Casa, Renan Calheiros, em dobradinha com o presidente do STF à época, ministro Ricardo Lewandowski, fatiou a votação: destituiu a presidente do cargo, mas preservou seus direitos políticos. A manobra, no entanto, não rendeu frutos imediatos nas urnas.

Em 2018, Dilma tentou um retorno ao disputar uma vaga ao Senado por Minas Gerais. Apesar de liderar as pesquisas ao longo de quase toda a campanha, o forte sentimento antipetista se manifestou nas urnas no dia da votação, e a ex-presidente amargou um 4º lugar, somando pouco mais de 15% dos votos e ficando fora do Congresso Nacional.

Mesmo após o revés eleitoral que encerrou sua trajetória nas urnas, Dilma nunca foi abandonada pelo PT. Afastada dos palcos partidários, a ex-presidente recebeu de Lula a indicação para a preservação do seu prestígio na presidência do Novo Banco de Desenvolvimento (o Banco do Brics), em Xangai. Trata-se de um posto internacional de alto prestígio e remuneração milionária anual.

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