Pagamentos do Corinthians a Fredy Marcelo são pelos votos, não pelo trabalho

Reportagem da Gazeta Esportiva revelou que o Corinthians gastou R$ 922,9 mil, em 2025, com um departamento que não produziu um centavo de receita e sequer foi contemplado no orçamento de 2026.
O chamado Departamento de Integração é coordenado por Fredy Marcelo Auricchio Esposito.
Somente ele custa R$ 28,2 mil mensais ao clube, considerando-se salário, férias, 13º e impostos — aproximadamente R$ 339 mil por ano.

Fredy admitiu receber R$ 19,3 mil por mês, quase não frequenta o Parque São Jorge no período da tarde, trabalha às sextas-feiras em home office e, quando a equipe viaja, permanece em casa.
A natureza dos pagamentos e da função efetivamente exercida pelo agraciado é conhecida por todos no Parque São Jorge: trata-se de compra de votos.
O Corinthians remunera, com recursos do clube, um operador político capaz de influenciar uma expressiva bancada no Conselho Deliberativo.
Fredy liderou a chapa Paixão Corinthiana, que elegeu 25 conselheiros em 2023.
Entre os integrantes do órgão está Leonardo da Paixão Esposito, seu parente.
Ao aceitar o cargo remunerado, Fredy renunciou ao próprio mandato, como determina o Estatuto, mas não perdeu o controle político sobre o grupo que ajudou a eleger.
O próprio Osmar Stabile reconhece essa força.
Segundo Fredy contou à Gazeta, o presidente lhe pediu que evitasse circular pelo clube porque, “politicamente, você é um cara muito conhecido, muito forte”.
A frase é reveladora.
Stabile não pediu que Fredy apresentasse receitas ou resultados, tampouco que justificasse a elevada remuneração.
Preocupou-se em preservar o aliado de desgastes, polêmicas e “ciúmes” políticos.
Em vez de afastá-lo, escondeu-o.
Revelamos, ainda em janeiro de 2024, que Fredy havia trabalhado para eleger Augusto Melo e esperava receber, como contrapartida, o comando das categorias de base.
Como a função foi entregue aos parceiros comerciais de Augusto, Fredy pressionou o presidente.
A solução foi criar para ele uma Superintendência no CIFAC, inicialmente anunciada com salário entre R$ 12 mil e R$ 17 mil.
É possível que Stabile tenha ampliado seus vencimentos.
O próprio Fredy confessou à Gazeta que Augusto lhe deu “carta branca” para montar o departamento.
Foi um evidente toma-lá-dá-cá: apoio eleitoral em troca de cargo remunerado.
Fredy não atuou apenas como cabo eleitoral.
Documentos publicados pelo Blog do Paulinho demonstraram que sua conta bancária funcionou como caixa de pequenas despesas da campanha de Augusto Melo.
O ex-diretor jurídico Yun Ki Lee transferiu R$ 13 mil.
Edgard Soares, apelidado por alguns como ‘171 do Vale do Paraíba’, por meio da conta de uma parente, enviou R$ 8,1 mil.
Jhoy Vieira depositou R$ 5,4 mil.
Outros repasses fracionados, ainda não totalmente identificados, aproximavam-se de R$ 30 mil.
Na reta final da eleição, Fredy utilizou dinheiro de terceiros para pagar sete boletos emitidos pelo Corinthians, que somaram R$ 1.950 e provavelmente correspondiam a mensalidades de associados aptos a votar.
Ou seja, também compra de votos.



O operador transferiu também R$ 2 mil ao conselheiro vitalício Germano Augusto para garantir espaço no jornal Classe A, distribuído aos associados, que passou a publicar pedidos explícitos de votos para Augusto Melo.
Tratava-se, portanto, de um caixa eleitoral operado fora da estrutura oficial da campanha.
A rede de financiadores de Augusto incluía ainda Maurício Dornellas Tabbal Chamati, dono do Mercado Bitcoin e um dos fundadores da SAFIEL.
Relatório do COAF revelou que Chamati transferiu R$ 18.666 diretamente para Augusto Melo.
No mesmo período, a Arena Tatuapé, empresa registrada em nome do cartola, realizou outro repasse de valor idêntico, levantando a hipótese de triangulação e elevando o aporte, em tese, para R$ 37.332.

Fredy era o caixa do baixo clero; Chamati e outros empresários alimentavam o andar superior da campanha.
Stabile não é personagem externo a essa história.
Foi eleito vice-presidente de Augusto Melo, na mesma chapa sustentada por Fredy, e somente assumiu o comando após a queda do antigo aliado.
Ao chegar à Presidência, poderia ter encerrado o cabide.
Não o fez porque mantém, há cerca de vinte anos, estreita ligação com Fredy, que trabalhou em suas campanhas anteriores como uma espécie de operador de “maldades” políticas — criava fake news, simulava atentados contra comitês de campanha, entre outras ações — e, como todos sabiam, era bancado pelo atual mandatário alvinegro.
Mesmo ausente do orçamento aprovado para 2026, o Departamento de Integração permaneceu funcionando.
O Corinthians classificou a omissão da despesa como “erro” contábil e diz que o setor custa R$ 564,1 mil por ano, embora o documento obtido pela Gazeta registre R$ 922,9 mil.
É um lamaçal.
A situação não é combatida abertamente pelos postulantes à Presidência porque todos, de alguma maneira, precisarão proteger seus “operadores” para, no atual contexto político do Parque São Jorge, não apenas alcançar o poder, mas também se manter nele.

