A rede entre Palmeiras, REAG/PCC, Wolff e agentes milionários

Em busca de formalizar um acordo de delação premiada, o espertalhão João Carlos Mansur e a REAG, gestora que fundou, foram alvos da Operação Carbono Oculto, que investiga a utilização de fundos para a lavagem de dinheiro do PCC.

Segundo a CPI do Crime Organizado, fundos administrados pela empresa teriam movimentado aproximadamente R$ 250 milhões para operadores ligados à facção.

Também investigado no caso Banco Master, Mansur apresentou à Procuradoria-Geral da República uma proposta de delação premiada.

Apesar disso, retornou recentemente ao Conselho de Orientação e Fiscalização (COF) do Palmeiras, órgão responsável por examinar as contas do clube.

É nesse contexto que deve ser analisada a venda de Vitor Reis ao Manchester City.

Em 29 de novembro de 2024, ainda jogador do Palmeiras, o zagueiro assinou um contrato de dez anos com a REAG.

O acordo não se restringia à publicidade.

Previa a exploração de sua imagem e a prestação de serviços de gestão patrimonial, investimentos, wealth management e previdência.

A parceria foi estruturada pela Wolff Sports, de Fábio Wolff, responsável com exclusividade pela exploração comercial da imagem do atleta no Brasil, e pela P&P Sport Management, que administrava sua carreira.

Vitor Reis já era observado por Real Madrid, Barcelona, Arsenal, Liverpool e Chelsea quando assinou com a empresa de Mansur.

Em 21 de janeiro de 2025, apenas 53 dias depois, foi vendido ao Manchester City.

As demonstrações financeiras do Palmeiras registram receita bruta de R$ 215,373 milhões com a transferência e saldo de R$ 19,408 milhões a pagar à Offside Ltd., identificado como comissão relacionada ao jogador.

O valor equivale a aproximadamente 9% da receita contabilizada.

A Offside é controlada por Federico Pastorello, proprietário de pelo menos 75% da companhia e fundador da P&P.

A própria agência informa que P&P e Offside atuam como uma única estrutura.

Assim, a empresa que administrava a carreira de Vitor Reis, aproximou o jogador da REAG e participou de sua transferência terminou credora de quase R$ 20 milhões perante o Palmeiras.

Relatório oficial da Federação Inglesa registra que Pastorello atuou na negociação representando simultaneamente Vitor Reis e o Manchester City.

Outro agente, Luca Bascherini, também aparece como representante do clube inglês.

A pergunta é: por que o Palmeiras assumiu uma dívida milionária com a empresa de um agente que, segundo a documentação inglesa, representava o atleta e o Manchester City, mas não o clube vendedor?

Não são conhecidos o contrato firmado com a Offside, a taxa acordada, a base de cálculo, o serviço prestado nem os responsáveis pela autorização do pagamento.

A situação é agravada pela disputa com a Agon Empreendimentos Esportivos.

A empresa apresentou à Justiça um documento de fevereiro de 2021 que, segundo sua versão, lhe assegurava exclusividade na futura transferência internacional de Vitor Reis e direito a 10% do valor líquido da operação.

A Agon afirma ter acompanhado o atleta desde os 11 anos.

Em 9 de janeiro de 2025, notificou o Manchester City.

Quatro dias depois, comunicou o Palmeiras.

Em 15 de janeiro, o clube informou ter rescindido unilateralmente o compromisso.

Seis dias mais tarde, anunciou a venda.

O Palmeiras sustenta que a Agon não participou da negociação e que a comissão deveria ser destinada aos representantes atuais do jogador.

A Justiça determinou que o clube apresentasse os documentos da transferência, mas colocou o processo sob sigilo.

Também merece atenção a participação de Fábio Wolff.

O Blog do Paulinho já publicou documentos sobre seus negócios com Corinthians e São Paulo.

No patrocínio da Midea ao Corinthians, a Wolff obteve judicialmente o reconhecimento de uma comissão de 10%.

Há suspeitas de que parte dessa remuneração pudesse beneficiar dirigentes ligados a Andrés Sanchez e Luis Paulo Rosenberg.

No São Paulo, o intermediário depositou R$ 750,3 mil na conta da filha do então dirigente Alan Cimerman.

A relação entre Mansur, Wolff, Claudio Fiorito e Pastorello não se limitou à transação envolvendo Vitor Reis.

Meses depois, todos reapareceram na proposta de criação da SAF do Juventus da Mooca.

REAG e Contea participariam como investidoras; P&P, Fiorito e Pastorello estruturariam o projeto esportivo; e a Wolff cuidaria do modelo comercial, do marketing e da comunicação.

A REAG deixou o negócio depois da Operação Carbono Oculto.

A P&P permaneceu, e Fiorito tornou-se presidente da Juventus SAF.

Fica comprovada, portanto, a existência de uma aliança comercial recorrente entre os citados.

Ela também possui outros pontos de contato com o Palmeiras.

As contas do clube registram comissão de R$ 1,448 milhão à Offside, em 2024, relacionada a Jhon Jhon, também representado pela P&P.

A agência passou ainda a cuidar de Vitor Figueiredo, das categorias de base.

A Wolff apresenta Endrick, Luis Guilherme e Vitor Reis em seu portfólio de atletas.

Mansur, aliado de Leila Pereira, integrava o COF quando Vitor Reis foi vendido.

A presidente do Palmeiras comandou institucionalmente a negociação com o Manchester City.

Cabe a ela, porém, explicar como foi administrado o potencial conflito de interesses envolvendo um integrante do órgão fiscalizador, a empresa que ele fundou — investigada por suspeitas de ter sido utilizada em esquema de lavagem de dinheiro do PCC — e um jogador vendido pelo clube.

Leila também precisa esclarecer por que o Palmeiras deve quase R$ 20 milhões à empresa de um agente que, segundo a Federação Inglesa, representava apenas o atleta e o Manchester City.

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