Administradora da RCE do Corinthians revela movimentações suspeitas nas finanças do clube

Relatório apresentado pela Laspro Consultores, administradora judicial do Regime Centralizado de Execuções do Corinthians, expôs graves falhas nos controles financeiros do clube.

O ponto mais preocupante é um suposto pagamento de R$ 26.034.838,02 à Caixa Econômica Federal.

Esse único lançamento representou quase 80% dos R$ 32,5 milhões declarados pelo clube como pagamentos de obrigações anteriores ao regime.

Foi justamente essa quantia que permitiu ao Corinthians reduzir ao percentual mínimo de 4% da receita o valor destinado aos credores.

A Laspro, porém, não encontrou extrato bancário, comprovante de transferência, lançamento contábil ou documento de liquidação que demonstrasse a efetiva saída do dinheiro.

Sem esse lançamento, os pagamentos comprovados representariam aproximadamente 13,8% da receita de junho.

Pela metodologia prevista no plano, o aporte ao RCE deveria ficar próximo de R$ 2,93 milhões, e não dos R$ 1,89 milhão depositados.

A diferença é de R$ 1,04 milhão.

Também chama atenção o surgimento de um FIDC de R$ 36,49 milhões no mesmo mês em que as receitas do Fiel Torcedor desapareceram das contas do Corinthians.

Entre janeiro e maio, o programa gerou de R$ 3,3 milhões a R$ 4,6 milhões mensais.

Em junho, o clube declarou receita zero.

A Laspro suspeita que esses recebíveis possam ter sido cedidos ao fundo, que é administrado por empresas ligadas à REAG, investigada sob suspeita de lavar dinheiro do crime organizado..

Nesse formato, a arrecadação deixa de passar pelas contas do Corinthians, enquanto o dinheiro obtido com a antecipação pode ser classificado como operação financeira — também excluída da base de cálculo do RCE.

O fundo está relacionado ao refinanciamento da dívida com o Talleres pela contratação de Rodrigo Garro e utiliza recebíveis de empresas como Brax e Frimesa.

Em julho, R$ 665 mil pagos pela Frimesa entraram na conta vinculada ao FIDC, mas não apareceram no fluxo de caixa apresentado pelo Corinthians.

Segundo a Laspro, a omissão retirou R$ 133 mil dos credores.

Outro pagamento que exige explicações foi realizado em 11 de junho de 2026 ao escritório Laporta Costa Sociedade de Advogados.

Foram duas transferências, de R$ 329.238,43 e R$ 16.714,03, que totalizaram R$ 345.952,46.

O relatório confirma que o dinheiro saiu da conta, mas não informa o processo, o contrato, o serviço prestado, o CNPJ do beneficiário nem quem foi o verdadeiro destinatário econômico da quantia.

Em julho, o Blog do Paulinho revelou que a Laporta havia recebido outros R$ 83.570,15 do Corinthians entre janeiro e julho de 2026.

Leonardo Laporta Costa, dono do escritório, além de advogado, atua como agente de jogadores.

Em outubro de 2025, Laporta respondia criminalmente por participação em uma fraude envolvendo acordo trabalhista do Internacional.

Três meses antes do pagamento realizado pelo Corinthians, em março de 2026, o advogado foi condenado em primeira instância a dez anos e seis meses de prisão por estelionato, lavagem de dinheiro e embaraço à investigação.

A sentença descreve fraude em acordo trabalhista, trânsito de dinheiro por contas de terceiros e utilização de documento falso para dificultar as investigações.

O relatório aponta ainda outras nebulosidades: R$ 5,63 milhões de bilheteria sem reconhecimento na conta contábil correspondente; baixa de R$ 11,56 milhões relacionada ao Al-Rayyan sem entrada financeira identificada; reclassificação de R$ 15 milhões do contrato com a Viva Sorte sem indicação da conta de destino; e ausência de extratos e demonstrações financeiras da Arena Itaquera S.A.

O Corinthians encerrou junho com déficit de R$ 71,1 milhões e acumulava resultado negativo de R$ 267,9 milhões no ano.

Além disso, R$ 3,09 milhões provenientes de negociações de jogadores, que deveriam financiar leilões reversos para o pagamento de credores, permaneciam acumulados desde fevereiro sem que os certames tivessem sido realizados.

Para além do caos administrativo, o conjunto de inconsistências exige apuração rigorosa sobre eventuais desvios de dinheiro e possível fraude à execução.

Caso essas suspeitas sejam comprovadas, o Corinthians poderá voltar às páginas policiais e sofrer pesadas penalidades no RCE.

Uma eventual revogação do regime tornaria ainda mais insustentável a já dramática situação financeira do clube.

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