Cerimedo e o bolsonarismo

A prisão preventiva do argentino Fernando Cerimedo, na Bolívia, deve estar provocando grande preocupação no bolsonarismo.
Não apenas pela gravidade da acusação — a Promotoria boliviana o aponta como possível mandante da tentativa de feminicídio de Nadia Beller —, mas principalmente pelo material apreendido durante a investigação.
Celulares, computadores, documentos, equipamentos de comunicação e grandes quantidades de dinheiro estão agora nas mãos das autoridades bolivianas.
O maior perigo quase nunca está no depoimento do bandido, mas naquilo que armazenou sem imaginar que um dia seria preso.
Cerimedo não era personagem periférico da extrema direita brasileira.
Manteve relação próxima, pública e duradoura com Eduardo Bolsonaro e desempenhou papel relevante na campanha de desinformação destinada a desacreditar a eleição de Lula, em 2022.
No dia 4 de novembro daquele ano, quatro dias depois do segundo turno, Cerimedo transmitiu a live “Brazil Was Stolen”, assistida por aproximadamente 415 mil pessoas.
Apresentou como “auditoria” um documento que utilizava comparações estatísticas fraudulentas para sugerir que modelos antigos de urnas eletrônicas teriam favorecido Lula.
A Polícia Federal encontrou provas da circulação do material no interior do núcleo político e militar de Jair Bolsonaro.
O major da reserva Ângelo Martins Denicoli foi apontado como elo entre Cerimedo e os setores que atacavam o sistema eleitoral.
Um arquivo atribuído ao militar foi localizado numa pasta do Google Drive pertencente ao argentino.
Tércio Arnaud Tomaz, integrante do chamado “Gabinete do Ódio”, encaminhou ao tenente-coronel Mauro Cid tanto a transmissão completa quanto uma versão reduzida, preparada para circular com maior facilidade pelo WhatsApp e pelo Telegram.
As mensagens de Cid também revelaram a aproximação de Cerimedo com Paulo Figueiredo, outro importante propagador das teses golpistas.
Cerimedo estava inserido na engrenagem que produzia, abastecia e distribuía conteúdo destinado a criar desconfiança sobre as urnas e, consequentemente, oferecer justificativa política para impedir a posse do presidente eleito.
A falsa “auditoria” apresentada por ele reapareceu, sob diferentes formatos, nas iniciativas utilizadas pelo bolsonarismo para questionar o resultado da eleição.
A Polícia Federal indiciou Cerimedo, em novembro de 2024, sob suspeita de participação em organização criminosa, tentativa de golpe de Estado e abolição violenta do Estado Democrático de Direito.
Foi o único estrangeiro incluído naquele grupo.
A Procuradoria-Geral da República, porém, decidiu não denunciá-lo.
Entendeu que, embora estivesse comprovada a divulgação de informações falsas, não havia elementos suficientes para demonstrar que Cerimedo sabia previamente da falsidade do relatório ou que participava conscientemente de toda a organização golpista.
Essa lacuna probatória pode ser justamente o ponto de maior preocupação para a família Bolsonaro.
O que não foi encontrado no Brasil talvez esteja armazenado nos equipamentos apreendidos na Bolívia.
As autoridades poderão descobrir quem solicitou a elaboração da falsa auditoria, quem forneceu os dados, quem financiou a operação e quais integrantes do bolsonarismo participaram diretamente da estratégia.
Também será possível verificar se Cerimedo recebeu ordens ou pagamentos, quais conversas manteve com Eduardo Bolsonaro, militares, empresários e operadores digitais, além da eventual existência de grupos paralelos utilizados para combinar versões e distribuir conteúdos.
Há ainda uma questão especialmente delicada: a dimensão da estrutura digital controlada pelo argentino.
Em entrevista concedida em 2023, o próprio Cerimedo afirmou possuir cerca de 50 mil contas criadas artificialmente na Argentina e no Chile.
Explicou que os perfis eram preparados para simular comportamento humano e posteriormente utilizados para gerar relevância, influenciar algoritmos e interferir no debate público.
Cerimedo também disse ter participado da campanha presidencial de Jair Bolsonaro em 2018, utilizando milhares de contas e grupos de WhatsApp para atingir segmentos que demonstravam resistência ao então candidato.
Em outubro de 2022, Cerimedo e sua equipe organizaram a passagem de Eduardo pela Argentina, incluindo encontros com Javier Milei e Victoria Villarruel.
Um funcionário ligado ao portal La Derecha Diario, controlado pelo argentino, recebeu pagamento da campanha do filho de Bolsonaro, acompanhando o deputado durante a viagem.
O relacionamento continuou mesmo depois das investigações brasileiras.
Em fevereiro de 2026, Eduardo Bolsonaro apresentou Cerimedo num evento realizado em Mar-a-Lago, reduto de Donald Trump, no qual o argentino recebeu um prêmio de “consultor político do ano”.
Em julho, poucas semanas antes da prisão na Bolívia, ambos voltaram a participar de uma transmissão que atacava a credibilidade das urnas eletrônicas.
Ou seja, não houve afastamento.
Mesmo depois do indiciamento pela Polícia Federal, Cerimedo continuou sendo tratado por Eduardo Bolsonaro como aliado e parceiro político.
É isso que transforma sua prisão num problema potencialmente explosivo.
A investigação boliviana já ultrapassou o atentado contra Nadia Beller.
Em endereços ligados ao argentino, as autoridades encontraram dinheiro em diversas moedas, telefone via satélite, documentos empresariais, equipamentos classificados inicialmente como uma possível minifazenda de bots, uma camisa da Polícia Boliviana e móveis com compartimentos ocultos.
Numa casa de câmbio, a Promotoria apura a movimentação de aproximadamente US$ 400 mil em favor de Cerimedo.
Um de seus representantes teria fugido durante uma busca levando cerca de US$ 700 mil, sendo detido posteriormente.
O governo boliviano afirma que Cerimedo não ocupava cargo oficial, embora tenham sido encontrados cartões que o identificavam como “assessor principal do presidente”.
A advogada do argentino disse inicialmente que sua consultoria era paga pela CAF, o Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe.
A instituição negou categoricamente qualquer contrato.
Cerimedo apresentou então outra versão: o dinheiro seria proveniente de um empréstimo que o sustentaria enquanto o suposto acordo com a CAF estava em elaboração.
Até agora, não apareceu o contrato nem a documentação do empréstimo.
As empresas argentinas ligadas ao consultor, por sua vez, acumulavam dívidas, cheques recusados e obrigações milionárias.
Poucos dias antes do atentado contra Beller, Cerimedo teria se desfeito de sua participação em La Derecha Diario, portal que serviu como braço de propaganda de Javier Milei e da extrema direita latino-americana.
São indícios, até o momento, preocupantes para a extrema direita brasileira.
O temor do bolsonarismo não deve estar restrito ao que o preso indesejável poderá dizer, mas no que seus aparelhos, documentos e movimentações financeiras poderão provar.

